“Você é louco, vai levar uma goleada e não vai ter clima
para jogar o resto do campeonato.”
“Zito, você é o maior dos que eu vi jogar na sua posição,
mas está medroso.”
O diálogo acima é entre o ex-jogador e dirigente santista de
2002 e o técnico Leão, após este pedir um amistoso contra o Corinthians antes
da estreia do Campeonato Brasileiro daquele ano.
Após investir em medalhões como Edmundo, Rincón, Valdo,
Marcelinho Carioca, Oséias, dentre outros e vir de uma traumática eliminação no
campeonato paulista de 2001, com o gol de Ricardinho no último lance da
partida, o Santos resolve apostar na molecada. E para ser mais justo ou mais
exato, Leão (demitido da Seleção Brasileira em 2001), foi quem resolver fechar
o grupo: “Esquece tudo o que falei. Não quero ninguém”, disse o técnico ao
então presidente Marcelo Teixeira que teria respondido “Nós vamos cair”.
Sobre o temido amistoso contra o Corinthians (que era o
campeão da Copa do Brasil e do Torneio Rio-São Paulo e entrava como favorito na
competição), aqueles garotos venceram o
jogo por 3x1. “Você é um louco com sorte”, disse Zito ao técnico Leão ao final
da partida. Foi este jogo que fez com que Leão tomasse a tal decisão de fechar com o grupo: “Esse é o elenco e vocês vão cumprir a honra e tradição do Santos”, disse ele para aqueles garotos. Dentre eles, um que recebera o apelido de “panturrilha de mosquito”.
Desacreditado, sem recursos financeiros e com um jejum de 17
anos sem títulos de maior relevância o Santos entra no Campeonato Brasileiro
daquele ano para fazer apenas uma boa campanha. Mas os jogos foram se sucedendo
e aquele grupo foi dando trabalho aos adversários, ganhando corpo, encantando, surpreendendo: Mais uma vitória sobre o
Corinthians por 4x2 no Pacaembu e aquele que foi considerado um dos maiores
jogos do campeonato, quando o Santos perdeu por 3x2 para o time de estrelas do
São Paulo, chamado de "Real Madrid do Morumbi"; jogo polêmico em que Diego comemorou um dos gols em cima do escudo
são-paulino(atitude reprovada pelos próprios santistas).
“Aqueles moleques eram folgados”, como dizia o próprio Leão.
Fim da fase de classificação, Elano desce chorando ao vestiário após a derrota
para o São Caetano por 3x2. Fim da linha para os meninos, mais um ano de fila,
o Santos estava eliminado (eliminado “vírgula”, até saberem do resultado do
outro jogo). E a vitória do Gama por 4x0 sobre o Coritiba colocava o Santos nas quartas-de-final. Aqueles moleques não eram apenas folgados, mas também eram muito
persistentes. Mário Sérgio, técnico do Azulão, parabeniza o técnico Leão:“O seu time é o melhor. Mas criança vence jogo, não ganha título".
Felizmente a profecia de Mário Sérgio não se concretizou. E
os meninos foram rompendo barreiras e
ganhando mais confiança, e tendo que reverter os resultados pois o empate não os
favorecia: Venceu o favorito São Paulo, com Luís Fabiano, Kaká, Ricardinho, Reinaldo & Cia (3x1), (1x2),
Grêmio do promissor Tite (3x0), (1x0), e o confiante Corinthians (2x0), (3x2).
Em mais uma profecia após perder o primeiro jogo da final,
Parreira baseado nas estatísticas dissera que o Corinthians não perdia dois
jogos seguidos. Outra que também não se concretizou. O segundo jogo da final, foi
considerado um dos mais eletrizantes da história do certame, pelos acontecimentos
ao transcorrer do jogo: A contusão de Diego no começo da partida, o surgimento
das pedaladas de Robinho, a expulsão do Leão, a virada do Corinthians, a grande
atuação do goleiro Fábio Costa, e mais uma vez a virada santista.

Aqueles meninos foram longe, fizeram e entraram para a
história: o elenco mais jovem a conquistar o Campeonato Brasileiro com média de
idade de 22 anos. O capitão mais jovem a erguer uma taça, Paulo Almeida aos 21
anos. Desacreditado por todos, deste o técnico mais estudioso até o palpiteiro
de boteco, aquele time superou a tudo e a todos. O Santos não iria morrer na praia novamente
como diziam. Não fisgariam o peixe com o anzol novamente, muito menos comeriam moqueca como queria Vampeta. Tínhamos camisa, e respeito era bom e a gente
gostava.
O improviso, a
irreverência, venceu o futebol metódico. Provamos que era novamente possível
sorrir com o futebol, ou mesmo dar boas gargalhadas. E a fórmula para a conquista estava dentro de
casa. Esquecidos desde 1978, os Meninos da Vila estavam de volta para fazer
muita bagunça e também deixar muita gente aborrecida, como toda travessura. O
que vão aprontar no próximo jogo? Era o que perguntavam. Conquistaram o Brasil
em 2002, quase conquistaram a América em 2003 e marcaram presença novamente em
2004, com mais um título. Uma geração que entrou para história e dava gosto de
ver jogar e que os santistas (e mesmo outros torcedores) nunca mais vão
esquecer.
Para Léo, este título foi mais importante que a
Libertadores, por todas as circunstâncias que envolviam. Representou segundo ele, “o despertar de um
gigante”. Foi mesmo o renascimento santista. E os Meninos da Vila estavam de volta.
Retrospecto e jogadores:
Campanha santista no Brasileiro
Foram 31 partidas com 16 vitórias, 6 empates e 9 derrotas, com 59 tentos marcados e 41 sofridos.
Artilheiros do time na competição
Alberto (12 gols), Diego e Robinho (10), Elano (9), Léo (6), William (3), Alex (3), Renato e Robert (2), André Luis e Douglas (01).
Participações no certame
Renato (31 jogos), Robinho (30), Alberto, Elano e Léo (29), Diego e Paulo Almeida (28), Alex e Maurinho (25), Júlio César (22), Preto (21), André Luis e William (18), Robert (16), Alexandre (13), Wellington (12), Douglas (8), Pereira (7), Fábio Costa (6), Adiel, Michel e Rafael (4), Bernardi (3), Bruno Moraes e Fabiano Souza (2) e Canindé e Marcão (1).
Fontes: Globo Esporte, Lance, Site Oficial do Santos Futebol Clube.