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terça-feira, 25 de outubro de 2016

Capita.


“Capita”, passou a ser abreviação de capitão ou, para os íntimos, o forma de se referir a Carlos Alberto Torres. O capitão do Tri, se foi hoje. Dia triste para o futebol mundial, dia triste para o futebol arte. O termo “Capita”, que poderia ter sido patenteado por Carlos Alberto, acabou também se estendendo por tabela a outros capitães.

A imagem de Carlos Alberto Torres erguendo a Jules Rimet é uma das mais significativas do futebol e uma das mais bonitas para mim, mesmo não tendo acompanhado. Até quem tentou torcer contra na época (em virtude do período militar que assolava nosso país), acabou se rendendo ao futebol arte. A conquista definitiva do melhor futebol já praticado na história suplantou qualquer ideologia.

Os lances da Copa de 1970 e o de Carlos Aberto erguendo a taça, já devo ter visto um milhão de vezes. Por que vi tantas vezes? Porque não cansa.  Não se trata de saudosismo, pois nem nascido eu era na época: Vi, vejo e verei porque é uma espécie de colírio para quem gosta de uma conquista honrada e de um futebol bem jogado.

Carlos Alberto do Fluminense, Santos, Botafogo, Flamengo, New York Cosmos, Seleção Brasileira. Mas também pode ser o contrário: Fluminense de Carlos Alberto, Santos de Carlos Alberto, Botafogo de Carlos Alberto, idem, idem. Dimensão que só os grandes craques, só os mitos conquistam.


O futebol perde uma referência. Não vamos mais ouvir os comentários ou críticas do Capita. Mas a imortalidade do ídolo, do feito, permanecerá. Este que foi considerado um dos maiores defensores e laterais da história do futebol. E além de tudo, foi o capitão do Tri, a maior seleção de futebol de todos os tempos.







quarta-feira, 12 de outubro de 2016

100 anos da Vila.

Há exatos 100 anos era inaugurado o campo do Santos Futebol Clube. Ainda não se chamava “Urbano Caldeira”, até porque este ainda estava cuidando da papelada e regularização do terreno junto à prefeitura.  Também não era conhecida como “Vila Belmiro”, embora o Sr.”Belmiro”, já havia vendido seus lotes e muito provavelmente o bairro já deveria ter esta denominação na época. Arquibancadas de madeira, um coreto, seguia o padrão dos "estádios" ou campos do começo do século XX. 

Com o passar dos anos, o estádio do Santos Football-Club, foi ganhando notoriedade, e os times da capital, após a descida da tortuosa Serra do Mar pela estrada  antiga, penavam para conseguir um bom resultado no litoral. (Lembrando que na época do amadorismo, o Santos era o único “intruso” da Liga Paulista, sendo composta basicamente pelos times da capital). O Club Athletic Ypiranga, time operário e das massas, foi a primeira vítima, perdendo por 2x1 no jogo de inauguração do estádio. Já entre os anos de 1929 e 1930, o clube  alvinegro emendou a maior sequência invicta da sua história, mais de 30 partidas sem perder. Parte do lendário escrete de 1927 fez parte desta campanha, o primeiro a romper a barreira dos 100 gols em competições oficiais por aqui, só não foi campeão por alguns “probleminhas” com arbitragem e sua relação com os influentes dirigentes paulistanos.

Óbvio que a Vila tem participação nisso, na manutenção e no próprio crescimento do clube. Aliás, não  lembro de algum outro time fazer festa para seu estádio, como ocorrera no último dia 08, no amistoso contra o Benfica. Não estou falando das arenas modernas, que acabaram se tornando símbolo da grandeza de certos clubes, mas fazer festa para um estádio antigo e pequeno, é coisa que talvez só o santista entenda.

Muito já se comentou que um clube do tamanho do Santos não pode ficar com um estádio tão acanhado, que hoje comporta 12 ou 15 mil pagantes.  Concordo, pois o futebol se capitalizou muito, e antigamente, se ter um estádio já era sinal de lucro para um time, hoje pode ocorrer o contrário.

Mas para o santista a Vila não pode ser esquecida do dia para noite, mesmo se amanhã aparecer uma arena moderníssima com um enorme peixe dourado na frente do estádio, telões modernos, aço, mármore, ou cadeiras forradas de veludo.  A Vila tem muito mais do que isso. É uma história que se funde com a do próprio clube, da cidade de Santos e do futebol paulista e brasileiro, sendo também o estádio mais antigo em atividade no Brasil.



Créditos (fotos):

Foto 1: Vila Belmiro, tarde de 12 de outubro de 1916.
Foto 2: Vila Belmiro, manhã de 12 de outubro de 2016.


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Aconteceu num 2 de abril.


"O maior jogo do mundo". Assim se referia ao principal duelo alvinegro dos anos 60, o alvinegro do Rio, e o alvinegro do litoral Paulista. Duas constelações que formaram a base da seleção brasileira, ajudando a conquistar o bicampeonato mundial em 1958/62, e ainda teriam um papel importante do tri do México, já com uma outra geração.


E parece que estes dois times tinham consciência desta importância, e protagonizaram jogos épicos, mesmo quando acabava em 0x0 (acho que só houve um jogo com este resultado, válido pelo Rio-São Paulo).

A Taça Brasil era o principal - e único - campeonato nacional da época. Criada nos moldes da Taça dos Clubes Campeões Europeus (por isso adotou o nome "Taça"), com jogos eliminatórios ( e campeões de seus países e estados no nosso caso), e  que hoje recebe o nome de Champions League. Pois é, tínhamos a nossa Champions League, aqui, com alguns dos principais jogadores do futebol mundial, o maior deles (Pelé) e talvez o único capaz de rivalizar com ele (Garrincha). A diferença, de ontem pra hoje ou vice-versa, é que não havia tanta televisão, tanta mídia e tantos patrocinadores. Não tinha o cara da "Budweiser" tocando bateria antes da transmissão.

A importância da Taça Brasil daquele ano de 1962 se deve pelo fato que os dois times estavam na sua melhor forma; todos os jogadores estavam voando, muitos recém campeões mundiais no Chile. Não tenho dúvidas ou talvez não se tinham dúvidas de que o vencedor daquela melhor de três fatalmente conquistaria a América e depois o mundo. Tanto santistas quando botafoguenses falam até hoje: "Nós éramos muito confiantes, e tínhamos muita fé no nosso time". O que não quer dizer que eram prepotentes, acho que prepotência é algo quando você pensa mais do que realmente é, o que não era o caso.

Pois bem, o primeiro jogo da final da Taça Brasil, realizado num Pacaembu para 29.000 pagantes (geralmente havia muito mais gente) foi um fantástico 4x3 para os santistas. Fico devendo a sequência dos gols, mas para o Santos marcaram Pepe (2), Coutinho e Dorval, e para o Botafogo Amarildo, Amoroso e Quarentinha.

O segundo jogo no Maracanã, com mais de 100.000 pagantes, foi um passeio botafoguense. O jogo acabou em 3x1, mas o time da estrela solitária perdeu outras chances e também praticamente a chance de decidir o título nesta partida. Rildo (que depois também faria sucesso no Santos), fez contra o patrimônio. Para os botafoguenses marcaram: Amarildo, Edson e Quarentinha.

O terceiro jogo (curiosamente com menos público que o segundo, pouco mais de 70.000) foi o que acabou definindo a supremacia do futebol mundial naquela temporada. A "sorte" foi lançada para o Santos. O time "encaixou" como se diz na gíria futebolistica. E se o Botafogo desperdiçou a chance de dar um sapeco no Santos e liquidar a fatura no segundo jogo, o mesmo não ocorreu com o Peixe, que ainda estava vivo, e não desperdiçou. Dorval abriu o placar aos 25' do primeiro, Pepe aos 40' terminando 2x0 a primeira etapa. Coutinho aos 8' e, como uma obstinação, caberia ao Rei do Futebol, terminar o espetáculo, marcando aos 29' e encerrando a fatura aos 34' da etapa complementar: 5x0 placar final.

Pois é, a Taça Brasil, tinha valor, tinha público (praticamente 200.000 pessoas somando os três jogos), tinha prestígio, e - ao contrário do que já ouvi falar por aí - tinha até "taça". Taí nosso capitão Zito para comprovar. Também tinha festa e muito "refrigerante" depois do jogo, conforme sempre lembra nosso ponta Pepe. Só não tinha Pay-per-view.

Depois deste Bi da Taça Brasil, o Santos ainda levaria o Bi da América, e o Bimundial ou Intercontinental, como queiram, marcando mais um capítulo inédito para a história do alvinegro praiano.


Obs: Lembrando que o jogo foi no 2 de abril de 1963, mas ainda válido pela Taça Brasil do ano anterior.




quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Logo e Escudo

Enfim,

Depois de seis anos,

Nosso logo, nosso escudo, nossas cores....





Oferecimento:
Alecson Roberto, 
Leitor, corneteiro e corintiano.





sábado, 6 de dezembro de 2014

30 anos.

“Eu quero votar pra presidente” era uma das frases que tomava conta das faixas na campanha das Diretas Já. 1984 foi um ano de ebulição política e por que não dizer social. Um clima de expectativa e otimismo se intensificava com os últimos dias de ditadura militar.

Na música, o maior fenômeno pop de todos os tempos, Michael Jackson, estava no seu auge, com Thriller, o álbum mais vendido da história.

No futebol, tínhamos o Fluminense de Romerito, e da dupla Washington e Assis como campeão brasileiro. O nacional iniciava, e os campeonatos estaduais encerravam a temporada a partir do segundo semestre. Bem diferente de hoje, os estaduais ainda eram bastante valorizados, e muito competitivos.

Por falar em “Diretas Já”, o Corinthians vivia a chamada fase da “democracia”. O clube talvez contagiado pelo atual momento político do país, e com um jogador como Sócrates que se destacava intelectualmente aos demais, liderava o movimento. Não sei ao certo como isto funcionava internamente no clube, mas todavia os jogadores queriam mais participação e liberdade de decisões tomadas pelo clube e para a sua classe profissional.

Já no Santos, nenhum tipo de movimento revolucionário, pelo contrário. Dificuldades financeiras, e um primeiro semestre ruim com a eliminação da Libertadores ainda na primeira fase. Começou o estadual com uma magra vitória sobre o Comercial: 1x0, gol de Serginho em 1º de julho.

E por falar em momento difícil, o Santos acabou se desfazendo de sua maior revelação após a era Pelé: O meia esquerda Pita numa troca com o São Paulo mandando ao Santos Humberto que jogava na mesma posição e o ponta esquerda Zé Sergio, com as más línguas dizendo que estava “bichado”. Para os são paulinos, talvez uma espécie de troco pelo fato de Serginho (maior artilheiro da história do clube), ter trocado o Morumbi pela Vila Belmiro.

Mas por coisas do futebol, aquele Santos engrenou no segundo semestre. Serginho Chulapa não parava de fazer gols, foi o artilheiro com 16; e os desvalorizados Humberto e Zé Sérgio, passaram a jogar bem e a serem decisivos. Rodolfo Rodríguez, cimentou o gol lá atrás. Tínhamos ainda os zagueiros Gilberto Sorriso, menino da Vila de 1978, e o xerife Márcio Rossini que dava muito trabalho aos jardineiros. O versátil Lino, o “novo Lima” como era apelidado, o mineirinho Paulo Isidoro, o volante Dema e o habilidoso Gersinho, já falecido.

Agora Serginho Chulapa sobre o jogo que decidiu o campeonato paulista naquele ano:

“ Naquele dia, (domingo) acordei um pouco tenso, afinal não era uma partida qualquer, um jogo que valia título, bastante importante. Mas com o passar do tempo fui relaxando. Tivemos um almoço leve com salada de alface, arroz, feijão, bife e purê de batatas. O técnico Castilho fez a preleção e depois fomos para o Morumbi. Quando chegamos ao estádio, a adrenalina foi pra cima quando vi mais de 100 mil torcedores, até mais que os corintianos. A tensão aumentou, mas a confiança era grande.

Apesar de a gente ter sido campeão, digo que dificilmente perderíamos aquele titulo, porque estávamos confiantes e muito determinados. Na semana da decisão, os jogadores do Corinthians tiraram a foto antecipada com a faixa de tricampeão, falavam do título antecipadamente como já tivessem ganho. Isso mexeu muito com a gente. Entramos determinados. Podia jogar até hoje que não iríamos perder. E se o Corinthians estivesse na frente o campeonato não iria acabar, que era o pensamento nosso na época, pois iríamos arrumar confusão. Mas nem precisou disso, pois tínhamos a vantagem do empate e a determinação prevaleceu.”

Fazer o gol em uma decisão foi uma coisa inexplicável. Fui ao delírio mesmo. Quando marquei, sai correndo direto para a torcida. Afinal, não é todo dia que se marca com um estádio lotado. Senti o estádio vibrando. Depois do título foi uma comemoração só. Descemos pra Santos e a cidade parou. Descemos do ônibus e subimos no carro do Corpo de Bombeiros. Naquele dia não comi nada, só bebi cerveja e foram muitas. Cheguei em casa totalmente encharcado às 6 horas da manhã do dia seguinte. Só fui comer alguma coisa na segunda-feira à noite”.

Após as decepções da Copa de 1982 e da perda do título Brasileiro de 1983 para o Flamengo, bastante doídas, finalmente aquele santistinha de 10 anos pode ter uma grande alegria. Provavelmente tenha sido uma espécie de “start” para eu continuar acompanhando o esporte. Caso contrário, talvez teria adotado outra modalidade. Numa política de boa vizinhança, nosso vizinho corintiano veio nos congratular: “O Santos mereceu” parabenizando meu pai. Nem preciso dizer como foi o Natal naquele ano. Afinal, ver seu time campeão pela primeira vez, e ter três meses de férias para curtir, não é todo dia que acontece...


Ficha Técnica:

02/12/1984 – Santos 1 x 0 Corinthians

Gol: Serginho aos 27min do segundo tempo.
Local: Estádio Morumbi
Público: 101.587 pagantes
Renda: Cr$ 419.323.500,00
Árbitro: José de Assis Aragão
Cartões amarelos: Márcio, Humberto, Lino e Mário Sergio; Zenon e Juninho

Santos: Rodolfo Rodriguez; Chiquinho, Márcio, Toninho Carlos e Toninho Oliveira (Gilberto); Dema, Paulo Isidoro, Humberto e Lino; Serginho Chulapa e Zé Sérgio (Mário Sérgio). Técnico: Carlos Castilho.

Corinthians: Carlos; Édson, Juninho, Wagner e Wladimir; Biro-Biro, Dunga, Arturzinho (Paulo César) e Zenon; Lima e João Paulo. Técnico: Jair Picerni




segunda-feira, 14 de abril de 2014

O campeão de São Paulo nos diz mais sobre os perdedores.

Ituano Campeão Paulista de 2014. De gestão profissional até uma nova visão para o futebol. Nada no clube é novidade, mas com certeza sua vitória diz muito sobre a derrota dos clubes grandes. Alguma coisa anda sendo feita de maneira errada, sorte deles!

 

O jogo foi feio. Pior que a primeira partida, em que o Ituano venceu por um gol de diferença. Sabendo do placar adverso o Santos atacou desde os primeiros momentos. Mas foram poucos lances de perigo. Destruir sempre foi mais fácil que construir, esse é o lema do futebol moderno. Ituano com uma postura ainda mais defensiva foi quase uma barreira para o ataque santista, que num lance perto do final do primeiro tempo, conseguiu abrir o placar. O pênalti existiu, assim como existiu o impedimento do jogador que sofreu a falta. Em determinados momentos a sorte faz a diferença, em outras ocasiões, o árbitro.
 
O gol do Santos no final do primeiro tempo parecia ser um alento para o aquilo que aconteceria no segundo tempo. No entanto, o resultado só serviu para o Ituano: foi ele que percebeu que a grande chance de sua vida estava em risco. Cresceu no segundo tempo de forma inesperada, jogando em iguais condições contra o time santista. Naquele momento, faltando quinze minutos; o empate seria o resultado mais justo. Considerando o lance incorreto do pênalti, a justiça seria a vitória do Ituano. Mas acontece que as coisas do futebol não acontecem desse jeito, justiça não é a palavra preferida no mundo do futebol. De um lado os torcedores santistas, do outro lado os torcedores de todos os outros clubes grandes: Chegamos até a disputa de pênaltis.
 
Faço aqui uma pequena consideração: não sei qual a melhor maneira de definir um campeão, mas a disputa por pênalti continua sendo - e duvido que deixe de ser -uma das coisas mais ridículas do futebol. Portanto não é apenas uma entrevista cheia de chororô, ao final da partida, dada pelo treinador santista. Mas algo com grande teor ideológico. Se o Santos foi o melhor do torneio, qual a vantagem ele teve naquele momento? Bom, todos assinaram o regulamento, e sabiam suas aplicações. Resta saber se ainda há interesse em continuar com um campeonato tão ruim, com regras tão desinteressantes e de certa maneira incoerentes. Deve ser bom para os clubes, apesar de não ser para os torcedores, manter esse comando e essa maneira de administrar o futebol paulista. 
 
Ituano campeão não é um milagre, nem uma revolução do futebol. A trajetória para o clube nós sabemos: uma porção de jogadores serão vendidos para clubes maiores. Uns darão certo, outros não. O treinador será visto como uma promessa, sendo sondado por clubes de fora do estado e coisa e tal. Nada diferente do que acontece todas as vezes que um clube pequeno consegue tal projeção. Mas diferente das outras vezes, parece que agora o título do Ituano colocou uma pulga atrás da orelha de todo mundo: será que o modelo de futebol dos clubes grandes continuará sendo tão vitorioso? Ou teremos mais e mais clubes, como Ituano, ganhando dos clubes maiores? Se o futebol está tão nivelado, qual a resposta que daremos para cifras tão extraordinariamente diferentes? Uma folha de pagamento de um time inteiro sendo comparado ao rendimento de apenas um jogador: não há alguma coisa fora da ordem no futebol?
 
Parabéns ao Ituano, que mostra mais uma vez sua força. Bi-Campeão Paulista. Ituano que já não é nenhuma surpresa, mas que precisa agora pensar cada vez melhor em sua reestruturação para os campeonatos nacionais e quem sabe internacionais. Se teremos surpresa nos próximos anos, ninguém pode dizer. Se o clube vai vingar como uma das forças do futebol paulista, só o tempo pode confirmar. Mas uma coisa é certa: derrotados ou não, os torcedores de São Paulo estão torcendo para você aparecer no mundo e dizer como se faz um futebol tão caipira, como tínhamos em tempos não muito distantes.
 
 
 
 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Bodas de Pneumático

 

Depois que Alexandre Bianchini apareceu por aqui o meu interesse por automobilismo despencou. Esperem, explicarei o ocorrido. Não é por causa do nosso colunista, mas pelo próprio esporte. Antigamente, quando cabia a mim meia dúzia de palavras sobre F1, eu era meio que obrigado a acordar domingo de manhã e ver toda prova. A coisa se tornou cansativa. No meu caso o motivo é claro: Não sou fanático pelo esporte, mas como todo brasileiro, gostava de ver as vitórias. Com a falta delas, e principalmente a falta de perspectiva de um brasileiro ser vitorioso, acabei desistindo de assistir a competição. Ficamos órfãos durante alguns meses.
Assim, tudo que eu sei sobre o automobilismo é por aqui, no Patativa da Bola (Olha só sua responsabilidade, meu amigo!). Não sei termos técnicos, conheço pouco a história; e minha pouca intimidade com o assunto tem requintes cruéis de uma generalização não muito agradável aos que gostam de automobilismo. Como escrever sobre um assunto que não dominamos, ou que somos meros curiosos? Bom, escrevemos sobre o futebol, e também não o conhecemos muito; mas ainda assim usamos muitas vezes um pouco de argumentação ou lógica. Damos a opinião como quem comenta alguma coisa que agrada, ou que queremos que mude; ou que se torne interessante. Mas automobilismo? Só quem entende mesmo.

Patativa da Bola sempre colocou como prioridade o futebol, mas também nunca ordenou que o esporte não pudesse ser comentado. Automobilismo é, portanto, o segundo esporte com mais postagens nesse espaço. Também é um dos mais visitados. Portanto, ainda que o Patativa da Bola fale sobre a bola, não há como negar que as rodas também são vistas, apreciadas e analisadas. O meu interesse em ver automobilismo diminuiu, mas não posso dizer que não sei o que está acontecendo em relação ao esporte. Aqui, “rodada a rodada” você fica sabendo exatamente o que está acontecendo.

Portanto, completando seus quatro anos como caçula da turma, segue nossas homenagens ao Alexandre Bianchini, único colaborador sobre Fórmula 1 desde então - Tudo bem, eu não preciso mais de tanto esforço para escrever sobre o esporte – Vamos apreciando os comentários, e como sempre foi a proposta desse espaço, como se estivéssemos numa mesa de boteco não mais falando de zagueiros, laterais e goleiros; mas em determinados momentos nos atendo apenas nos volantes (literalmente automobilísticos).

Quatro anos de Pé no Fundo!


domingo, 28 de julho de 2013

Galo Forte e Vingador... e agora Campeão da América!!



E o Galo é campeão da América. Entrou para o seleto grupo de vencedores da Libertadores da América. E depois de 42 anos ganhou um titulo de expressão, pois desde o 1º Campeonato Brasileiro nos moldes atuais, em 1971, o Atlético Mineiro não ganhava nada além de estaduais e copas de pouca expressão, tão poucas que nem serão citadas nesse texto.

E foi merecido, não há o que se dizer da competência desse time, comandado no banco pelo técnico Cuca, é aquele Cuca eterno vice, e no campo por Ronaldinho Gaúcho. O Atlético desde o ano passado merecia um titulo, dada à performance no Campeonato Brasileiro de 2012. Foi vice-campeão nos detalhes, detalhes que deram o titulo ao Flu. Desde o inicio da libertadores era cotado já como candidato ao titulo, dada à campanha irrepreensível da 1ª fase, sendo classificado em primeiro lugar, melhor colocado entre os 16 das oitavas de final. Após os dois jogos contra o São Paulo, com direito a baile de bola no Independência, ficava mais claro que o esse ano era o ano do Galo (não, não estou falando em Horoscopo Chinês...). Ai vieram as quartas... Tijuana (que tirou o meu time...) deu muito trabalho para o Galo, num empate complicado no México e, graças ao Beato Vitor pegando pênalti aos 48 min do 2º tempo (pra SANTO precisa fazer mais milagres, SANTO só tem um...).

Muito se falou da queda de rendimento do Atlético nessa reta final da Liberta... e realmente surgiram muitas dificuldades, nos jogos do Tijuana e Newell’s, bem como o 1º jogo da final... mas a torcida fez a diferença, com o “mantra” gritado a plenos pulmões: EU ACREDITO, EU ACREDITO!!!  E foi assim: em duas decisões por pênaltis o Galo forte e vingador foi o quarto brasileiro seguido a faturar a Libertadores (Internacional, Santos e Corinthians faturaram as anteriores). E com um time de renegados, como disse Ronaldinho no seu desabafo aos microfones da Globo, ele próprio um deles, despachado pelo Flamengo, Richarlyson pelo São Paulo, Pierre pelo Palmeiras, Jô pelo Inter e assim vai.... e os Renegados foram lá, mostraram que com vontade, força, garra e uma pitada de sorte, sagraram-se campeões.


Boa Sorte, Galo!!! Terá minha torcida no Marrocos, no Mundial... Que venha o Bayern!!!

Arthur Simone

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Sobre campeões e montanhas


O São Paulo está nas alturas. Na verdade, ainda não está, visto que o time permanece concentrado em Santa Cruz de la Sierra, bem ao nível do mar e só chegará em La Paz, local do jogo decisivo contra o Bolivar, pouco antes do apito inicial, mas, a verdade é que iniciar uma campanha de Libertadores no altiplano boliviano não é uma má ideia. Esqueçam todo esse discurso médico sobre os malefícios da prática esportiva em grandes altitudes. Todo torcedor acima dos trinta anos lembra que a arrancada para o título de 1992 começou exatamente nas alturas, na cidade de Oruro, na Bolívia, contra o modesto San José. A equipe boliviana era bem ruinzinha, mas, enfim, todo time fica perigoso com mais de três mil metros de vantagem. Naquele jogo, não tivemos muita dificuldade e vencemos por três a zero, num jogo antológico do Palhinha, como o leitor pode conferir aqui.

O grande barato desse jogo era o fato de que o São Paulo amargava cinco derrotas seguidas, inclusive uma goleada acachapante contra o Palmeiras por quatro a zero. A situação não era nada boa e já tinha início um processo de fritura do técnico Telê Santana. Naquele momento, a viagem para Oruro foi providencial. Era preciso tirar a equipe daquela panela de pressão, em São Paulo. Aliás, lembro aqui da manchete do Caderno de Esportes do finado Jornal da Tarde: “O São Paulo busca paz nas alturas”. Baita golaço da equipe de esportes do JT. Aquela vitória em Oruro serviu pra motivar o torcedor são paulino em busca da conquista inédita. Foi a partir daquela campanha na Bolívia, que ainda teve um empate contra o Bolívar, que o torcedor são paulino abraçou a ideia de ser campeão continental. O resto vocês já sabem; Morumbi lotado em todos os jogos e a conquista histórica da América.

A situação hoje é bem diferente, claro. Não estamos em crise e vencemos o Bolívar no primeiro jogo e temos vantagem de cinco gols, mas, o relógio do tempo não pára de funcionar na cabeça do torcedor, principalmente aquele mais saudosista. Talvez a campanha do quarto título continental comece exatamente como a do primeiro título; nas montanhas do altiplano boliviano.

Nota do blogueiro. O post de hoje é totalmente dedicado ao livro “Sobre homens e montanhas” do jornalista americano Jon Krakauer, o primeiro livro que esse blogueiro leu em 2013 e que recomendo para os amigos e inimigos também desse espaço. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Em tempos de BBB eu prefiro o reality show da bola.

Entra ano e sai ano e nada muda. Somos bombardeados com essa história de Big Brother, como se esse reality show fosse algo realmente relevante capaz de endossar algum estudo psicossocial sério. Convenhamos que esse não é o caso, mas,  pelo visto, a maioria da audiência gosta do programa e de seus personagens em busca de alguns minutos de fama. Eu ainda prefiro os quinze minutos de fama proporcionado pelo futebol.

Quem não se lembra de algum jogador que numa determinada tarde de domingo teve o seu dia de craque, ganhou os holofotes, as manchetes de jornal e depois sumiu do mapa? Isso acontece a toda hora. Só puxando aqui pela memória lembro de vários casos de jogadores que tiveram os seus momentos de glória, sem precisar ficar confinado de sunga em lugar nenhum.

O torcedor do Vasco deve estar lembrando agora do atacante Cocada. No ano de 1988, na final do Campeonato Carioca, o time cruzmaltino enfrentava o seu arquirrival Flamengo em busca do sonhado bicampeonato carioca, fato que não acontecia há mais de quarenta anos. A expectativa era grande e o jogo nervoso, permanecendo sem gols até o seu final, quando aos 41 minutos da segunda etapa o atacante Cocada, um desconhecido reserva, entra em campo. Num contra ataque veloz do time do Vasco, aos 44 minutos, o Cocada arremata pro gol. Um golaço que, àquela altura garantiria o título ao Vasco.  Só que o jovem atacante exagerou na comemoração e foi expulso aos 45 minutos, como o leitor pode conferir aqui. Cocada ganhou a celebridade e os jornais do dia seguinte ganharam a manchete óbvia de bandeja – Um título com gosto de cocada!

Às vezes a fama instantânea nem precisa estar associada a uma conquista, a um título. Quem não se lembra do Silva, aquele jovem atacante do Juventus. Não lembram dele? Bom, a história foi mais ou menos assim; no Campeonato Paulista de 1889, o time do Juventus enfrentava o Corinthians em pleno Pacaembú. Lá pelas tantas, o desconhecido Silva marca um gol de bicicleta no time do Corinthians, do goleiro Ronaldo (aquele careca da Band!). Até a Fiel aplaudiu o garoto, não sei bem se por deboche ou por contemplação mesmo. O barato da história era que o jogo foi realizado no Dia das Mães e o Silva tinha prometido o gol de presente para a sua mãe, a Dona Nedina, que acompanhava a partida nas arquibancadas. Golaço! Esse mereceu cada um dos quinze minutos de fama que teve.

E o Josimar na Copa de 1986, hein? Tá certo, o leitor mais enciclopédico pode argumentar dizendo que o Josimar já tinha carreira no Botafogo e não se enquadra no BBB da Bola. Tudo bem, aceito a crítica, mas, vai uma explicação. O nosso lateral direito pra Copa era o Leandro, do Flamengo, que pediu dispensa numa história pra lá de esquisita, mas, apesar de fazer falta naquele time, nós podíamos contar com o Edson, que era um baita lateral direito no Corinthians. Ninguém aqui em São Paulo sabia ao certo quem era o tal do Josimar, que tinha sido convocado às pressas somente pra ser banco do Edson. E não é que na segunda partida o Edson se machuca? O Telê foi obrigado a escalar o Josimar contra a Irlanda do Norte e ele não decepcionou. Marcou um baita golaço de fora da área, ganhando fama e celebridade a partir daquele momento. Pena que o herói daquela Copa não tenha sido tão brilhante no prosseguimento de sua carreira.

O futebol é tão democrático que permite até mesmo a quem não entra em campo ganhar os holofotes. O caso clássico de fama repentina aconteceu no jogo final das eliminatórias da Copa de 90, no Maracanâ, entre Brasil e Chile. Naquela tarde a torcedora Rosenery Mello, resolveu soltar um sinalizador náutico pra fazer graça no estádio. O sinalizador caiu no gramado dando a deixa que o então goleiro Roberto Rojas precisava para fazer uma encenação digna de Oscar, a fim de melar a partida. Sempre defendi a versão de que nem foi a Rosenery que jogou o sinalizador da arquibancada, mas sim, algum marmanjo covarde que ficou com medo da repercussão do caso. A Teoria da Conspiração é livre nessas horas. O fato é que o episódio garantiu à moça Rosenery o título de musa, o apelido de Rose Fogueteira e uma capa da Playboy, numa época em que posar para revista masculina garantia ao menos uma casa própria. No caso do Rojas, o incidente causou o seu banimento do futebol.

Enfim, os quinze minutos de fama proporcionados pela bola são muito mais soborosos que aqueles do confinamento da Rede Globo, os seus personagens são mais verdadeiros e simpáticos ao público, sem precisar fazer caras e bocas e nem tampouco fingir ter algum conteúdo.  Daí que o futebol, o estádio, o jogo talvez seja o grande reality show da vida e sem discurso do Pedro Bial.   

domingo, 6 de janeiro de 2013

Dia de Reis.




Nasceu no dia 23/10/1940, numa velha casa de tijolos, de pintura desbotada, no município de Três Corações em Minas Gerais. Filho de João Ramos do Nascimento e Celeste.

Nasceu em 25/01/1942, em Malafaia, bairro pobre de Lourenço Marques (atual Maputo), em Moçambique, então colônia de Portugal. Filho de Elisa.

Ambos tinham em comum origens  humildes, e a vontade de jogar futebol. O primeiro, não desgrudava de sua bola de meia, e a levava para escola. Já o segundo, matava aulas de vez em quando, atrás de uma bola de futebol... Ambos levavam puxões de orelha de suas professoras ou outros métodos de castigos já não tão convencionais, como ajoelhar no milho ou feijão, ou ficar de pé no canto da parede.

Aos 10 anos, o garoto de Três Corações e alguns amigos criaram o “Sete de Setembro”, um time de pés descalços. Teve como padrinho Valdemar de Brito quando já atuava no infantil do BAC (o Baquinho).

O padrinho do garoto de Lourenço Marques era o “seo” Chico, um vendedor de bilhetes de loteria e que não tinha o braço direito. Chico montou uma equipe de futebol que denominou de “Os Brasileiros”.

Pelé assinou seu primeiro contrato com o Santos aos 16 anos, com salários de seis mil cruzeiros por mês. Eusébio, assinou seu primeiro contrato com o Benfica, já com 21 anos, no mesmo valor de seis mil, só que de escudos.

Os dois se encontrariam pela primeira vez na final do Torneio de Paris em 1961. O time campeão europeu comandado por Bella Guttmann (treinador do lendário time do Honved) estava sendo massacrado pelo Santos por 4x0 ainda no primeiro tempo. Segundo tempo e Pepe amplia para 5x0. Bella Guttman, um dos responsáveis por trazer Eusébio ao Benfica, saca Santana (o maestro do time, meia-direita oriundo de outra colônia portuguesa, Angola) e coloca o seu pupilo recém-chegado, talvez num lance de desespero. Eusébio conta o que aconteceu: “ Veio a primeira bola para mim, atirei e fiz. Na segunda a mesma coisa e assim também na terceira. Na quarta jogada, sofri um pênalti. Mas o goleiro deles (Laércio), pegou e na sequencia da jogada o Santos fez mais um e liquidou a partida”.

O Pantera Negra (como passaria a ser chamado), faz 3 gols em apenas 16 minutos. Mesmo com a derrota do Benfica por 6x3, acabou sendo o nome da partida. E não deu outra; o principal jornal esportivo francês  L’Équipe, estampou na sua primeira página: “Eusébio 3 x 2 Pelé”, já que este havia feito “apenas” dois gols. Pepe(2), Lima e Coutinho também fizeram para o Santos.

Mas Eusébio não pararia por aí. Seria um dos responsáveis por uma das derrotas mais acachapantes do Real Madrid na Taça dos Clubes Campeões Europeus (hoje chamada de UEFA ou Champions League). Benfica 5 x 3 na final se tornando bicampeão europeu. Não deu para Puskas (que fez três gols nesta partida) ou Di Stéfano. A Europa já tinha um novo rei, ou para Portugal pelo menos.

O rei da América contra o rei Europeu ainda se encontrariam algumas vezes, como na final do Mundial Interclubes e na Copa da Inglaterra, sendo Eusébio o artilheiro desta competição, melhor  jogador da Copa e do ano de 1966 (o equivalente a Bola de Ouro hoje) e conseguindo para Portugal sua melhor colocação numa Copa do Mundo com o terceiro lugar. Não tardaria para ambos se encontrarem novamente, meses depois, no Torneio de Nova York.  Sempre quando eles se encontravam, era dia de “reis”; não exatamente com estas palavras,  mas era o enfoque que a imprensa europeia e principalmente portuguesa davam. ( Embora depois da Copa de 1966 Pelé fosse tratado por um tempo pela imprensa portuguesa como “ex-rei do futebol”).

Ambos foram jogar nos EUA: Pelé encerraria sua carreira no New York Cosmos em 1977 e Eusébio jogaria pelo Boston Minuteman. Dois anos mais novo, o Pantera se aposentaria dois anos depois, em 1979 atuando pela segunda divisão portuguesa, logo após completar 37 anos.

O garoto pobre de uma colônia portuguesa, se tornaria  Rei de Portugal.


Um pouco do perfil de Eusébio da Silva Ferreira:

Cognomes: Pantera Negra, Pérola Negra, Rei de Portugal.

“Goles”: 733 em 745 jogos (média de quase 1 por partida);

Pelo Benfica: 638 gols em 614 jogos;

Recorde de gols no Campeonato Português (319), Taça de Portugal (97), e Liga dos Campeões da Europa (46);


Artilheiro do Campeonato Português por 7 vezes, e campeão 11 vezes;

Maior goleador da Europa em duas oportunidades: 42 gols em 1968 e 40 gols em 1973;

Futebolista Europeu do ano (1965);

Outras premiações como Ordem do Mérito e do Infante D. Henrique (1966, 1992, 2004);

E a lista segue...



Fonte: "Donos da Terra - A História do Primeiro Título Mundial do Santos", Odir Cunha, Ed. Realejo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Mazurkiewcz.



Sou daquela geração que cresceu vendo lances da Seleção de 1970 e que começou a torcer com a Seleção de 1982. Para mim não havia outro conceito: futebol era mesmo arte, pelo menos para quem vestia a camisa verde-amarela. Votar em argentino para melhor do mundo? Nem pensar, ainda mais naquela época.

Um dos lances que me impressionavam na Copa de 1970 foi o drible sem bola que Pelé deu num "tal" goleiro uruguaio, até porque não era algo que se via todo dia. Sempre achei que se a bola tivesse entrado, aquele seria o gol mais bonito de todos os tempos. Em outras palavras; o gol mais bonito de todos os tempos foi aquele que não entrou.

Só um tempo mais tarde acabei descobrindo que o tal goleiro era considerado o maior do mundo. Não apenas o melhor da sua época, como um dos maiores de todos os tempos. Sucessor de Lev Yashin, nomeado pelo próprio.

Evidente que Mazurkiewcz não ficou famoso por causa deste lance. Talvez este lance só acontecera porque era um grande goleiro, não tendo medo de correr em direção ao maior jogador do mundo na época.

O maior goleiro do mundo "versus" o maior jogador do mundo.

Acostumado a ver lances de pura arte como disse no primeiro parágrafo, sempre me lamentava por aquela bola não ter entrado quando revia. Mas talvez os deuses da bola acharam que fosse melhor assim para o lance ser imortalizado pelos autores, ou mesmo ganhar outra dimensão. Naquele duelo particular que durou alguns segundos entre o maior goleiro e o maior jogador da Terra, as forças acabaram se equivalendo; Quem ganhou foi o futebol, e os deuses ficaram satisfeitos.


Ladislao Mazurkiewcz (1945 - 2013)

Copas do Mundo: 3 participações (1966/1970/1974);

Campeão  da Copa Libertadores 1966, Mundial Interclubes 1966, Supercopa Sulamericana dos Campeões Intercontinentais 1968 (Peñarol); Copa América 1967;

Luva de Ouro 1970.



quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Passa a régua!

E chegamos ao fim do ano. Torcedores saíram satisfeitos com a trajetória de seus times, outros torcedores estão receosos quanto a futuro. Isso importa, mas pouco importa. A vida está ai e não vai mudar por causa do futebol.

Por isso desejo um feliz 2013 para todos que passaram por aqui, todos que ajudaram na construção do blog.

Isso, na verdade, é o que importa.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Há dez anos, uma geração conquistava o Brasil.




Você é louco, vai levar uma goleada e não vai ter clima para jogar o resto do campeonato.”

“Zito, você é o maior dos que eu vi jogar na sua posição, mas está medroso.”

O diálogo acima é entre o ex-jogador e dirigente santista de 2002 e o técnico Leão, após este pedir um amistoso contra o Corinthians antes da estreia do Campeonato Brasileiro daquele ano.

Após investir em medalhões como Edmundo, Rincón, Valdo, Marcelinho Carioca, Oséias, dentre outros e vir de uma traumática eliminação no campeonato paulista de 2001, com o gol de Ricardinho no último lance da partida, o Santos resolve apostar na molecada. E para ser mais justo ou mais exato, Leão (demitido da Seleção Brasileira em 2001), foi quem resolver fechar o grupo: “Esquece tudo o que falei. Não quero ninguém”, disse o técnico ao então presidente Marcelo Teixeira que teria respondido “Nós vamos cair”.

Sobre o temido amistoso contra o Corinthians (que era o campeão da Copa do Brasil e do Torneio Rio-São Paulo e entrava como favorito na competição), aqueles  garotos venceram o jogo por 3x1. “Você é um louco com sorte”, disse Zito ao técnico Leão ao final da partida. Foi este jogo que fez com que Leão tomasse a tal decisão de fechar com o grupo: “Esse é o elenco e vocês vão cumprir a honra e tradição do Santos”, disse ele para aqueles garotos. Dentre eles, um que recebera o apelido de “panturrilha de mosquito”.

Desacreditado, sem recursos financeiros e com um jejum de 17 anos sem títulos de maior relevância o Santos entra no Campeonato Brasileiro daquele ano para fazer apenas uma boa campanha. Mas os jogos foram se sucedendo e aquele grupo foi dando trabalho aos adversários, ganhando corpo, encantando, surpreendendo: Mais uma vitória sobre o Corinthians por 4x2 no Pacaembu e aquele que foi considerado um dos maiores jogos do campeonato, quando o Santos perdeu por 3x2 para o time de estrelas do São Paulo, chamado de "Real Madrid do Morumbi"; jogo polêmico em que Diego comemorou um dos gols em cima do escudo são-paulino(atitude reprovada pelos próprios santistas).

“Aqueles moleques eram folgados”, como dizia o próprio Leão. Fim da fase de classificação, Elano desce chorando ao vestiário após a derrota para o São Caetano por 3x2. Fim da linha para os meninos, mais um ano de fila, o Santos estava eliminado (eliminado “vírgula”, até saberem do resultado do outro jogo). E a vitória do Gama por 4x0 sobre o Coritiba colocava o Santos nas quartas-de-final. Aqueles moleques não eram apenas folgados, mas também eram muito persistentes. Mário Sérgio, técnico do Azulão, parabeniza o técnico Leão:“O seu time é o melhor. Mas criança vence jogo, não ganha título".

Felizmente a profecia de Mário Sérgio não se concretizou. E os meninos foram rompendo  barreiras e ganhando mais confiança, e tendo que reverter os resultados pois o empate não os favorecia: Venceu o favorito São Paulo, com Luís Fabiano, Kaká, Ricardinho, Reinaldo & Cia (3x1), (1x2), Grêmio do promissor Tite (3x0), (1x0), e o confiante Corinthians (2x0), (3x2).

Em mais uma profecia após perder o primeiro jogo da final, Parreira baseado nas estatísticas dissera que o Corinthians não perdia dois jogos seguidos. Outra que também não se concretizou. O segundo jogo da final, foi considerado um dos mais eletrizantes da história do certame, pelos acontecimentos ao transcorrer do jogo: A contusão de Diego no começo da partida, o surgimento das pedaladas de Robinho, a expulsão do Leão, a virada do Corinthians, a grande atuação do goleiro Fábio Costa, e mais uma vez a virada santista.


Aqueles meninos foram longe, fizeram e entraram para a história: o elenco mais jovem a conquistar o Campeonato Brasileiro com média de idade de 22 anos. O capitão mais jovem a erguer uma taça, Paulo Almeida aos 21 anos. Desacreditado por todos, deste o técnico mais estudioso até o palpiteiro de boteco, aquele time superou a tudo e a todos.  O Santos não iria morrer na praia novamente como diziam. Não fisgariam o peixe com o anzol novamente, muito menos comeriam moqueca como queria Vampeta. Tínhamos camisa, e respeito era bom e a gente gostava.

 O improviso, a irreverência, venceu o futebol metódico. Provamos que era novamente possível sorrir com o futebol, ou mesmo dar boas gargalhadas.  E a fórmula para a conquista estava dentro de casa. Esquecidos desde 1978, os Meninos da Vila estavam de volta para fazer muita bagunça e também deixar muita gente aborrecida, como toda travessura. O que vão aprontar no próximo jogo? Era o que perguntavam. Conquistaram o Brasil em 2002, quase conquistaram a América em 2003 e marcaram presença novamente em 2004, com mais um título. Uma geração que entrou para história e dava gosto de ver jogar e que os santistas (e mesmo outros torcedores) nunca mais vão esquecer.

Para Léo, este título foi mais importante que a Libertadores, por todas as circunstâncias que envolviam.  Representou segundo ele, “o despertar de um gigante”. Foi mesmo o renascimento santista. E os Meninos da Vila estavam de volta.


Retrospecto e jogadores:

Campanha santista no Brasileiro
Foram 31 partidas com 16 vitórias, 6 empates e 9 derrotas, com 59 tentos marcados e 41 sofridos.
Artilheiros do time na competição
Alberto (12 gols), Diego e Robinho (10), Elano (9), Léo (6), William (3), Alex (3), Renato e Robert (2), André Luis e Douglas (01).
Participações no certame
Renato (31 jogos), Robinho (30), Alberto, Elano e Léo (29), Diego e Paulo Almeida (28), Alex e Maurinho (25), Júlio César (22), Preto (21), André Luis e William (18), Robert (16), Alexandre (13), Wellington (12), Douglas (8), Pereira (7), Fábio Costa (6), Adiel, Michel e Rafael (4), Bernardi (3), Bruno Moraes e Fabiano Souza (2) e Canindé e Marcão (1).



Fontes: Globo Esporte, Lance, Site Oficial do Santos Futebol Clube.



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Com o mundo aos nossos pés.


13 de dezembro de 2012. De fato, é uma data especial. Para nós, são paulinos com mais de 30 anos de idade, o dia de hoje deve ser comemorado. Há vinte anos o São Paulo Futebol Clube ganhava um de seus troféus mais importantes. Para minha geração, foi o troféu mais importante; o nosso primeiro título mundial. Claro que, para o torcedor, todos os títulos, todas as vitórias, todos os grandes momentos do nosso clube do coração ficam guardados num lugar especial da memória, mas, é impossível lembrar daquela noite sem, ao menos, esboçar um sorriso.

Foi realmente uma conquista grandiosa, principalmente, porque reuniu as duas melhores equipes do futebol mundial naquela oportunidade. O Barcelona ainda comemorava o seu primeiro título europeu com um time de dar inveja montado pelo Johann Cruyff. A esquadra tricolor vinha de seu primeiro título sul-americano, sob o comendo do Mestre Telê Santana. Os dois clubes queriam o seu primeiro título intercontinental e o encontro estava marcado para o dia 13 de dezembro de 1992 no lendário Estádio Nacional de Tóquio.

Por uma ironia do destino, as duas equipes se encontraram alguns meses antes no torneio Teresa Herrera, um desses torneios de pré-temporada europeus que, infelizmente, deixamos de participar. O Barcelona, com as pernas pesadas, típicas do início de temporada, não foram páreo para os comandados de Telê Santana. Foram goleados por 4 a 1. Naquela oportunidade o Telê já tinha alertado que o jogo em Tóquio seria bem diferente. Enfrentaríamos um Barcelona voando, em plena temporada, enquanto nós estaríamos no final de uma desgastante temporada brasileira.

O Projeto Tóquio, como ainda era carinhosamente chamado pela torcida, mídia e jogadores envolvia uma verdadeira operação de guerra. Não bastava ter um baita time de futebol, precisávamos nos preocupar com o clima frio japonês, com a comida, com o fuso horário. Felizmente, na época, tínhamos no nosso laboratório o grande Dr. Turíbio Leite de Barros e, em campo, um time acostumado a superar qualquer adversidade, seja no inverno japonês ou no altiplano boliviano. E estávamos preparadíssimos para a peleja contra os catalães.

Nos dias de hoje toda essa preparação, fisiológica, nutricional e física parecem óbvias, mas, no início da década de 1990 o Brasil ainda patinava na união de esporte e ciência e o São Paulo era vanguarda nesse particular com uma comissão técnica multidisciplinar de dar inveja.


No dia do jogo, ou melhor, na noite do jogo, todos os são-paulinos estavam otimistas com a vitória. É lógico que o Barcelona tinha um timaço, com Koeman, Stoichkov, Zubizarreta, Guardiola e Laudrup, mas, eu não percebia no alto da minha sabedoria de dezessete anos nenhuma apreensão. Aliás, eu nunca ficava lá muito apreensivo com aquele time. O grande barato daquele time do Sêo Telê era o fato de que todos os torcedores tinham certeza da vitória, mesmo quando o time perdia.

Na entrada das duas agremiações em campo notei a tranqüilidade e confiança no semblante dos nossos heróis, principalmente do nosso capitão Raí. A vitória seria uma questão de tempo. Recentemente, o nosso Capitão Raí disse que, no primeiro lance do jogo, queria fazer uma jogada de efeito, pra motivar o restante do elenco e mostrar que o bicho do outro lado não era tão feio. Tentou um chapéu, justamente no seu marcador, o jovem Pep Guardiola.

Logo no início do jogo a surpresa; o Barcelona sai na frente com um gol do Stoichkov de fora da área, sem chance para o nosso arqueiro Zetti. A vantagem inicial do Barcelona serviu para atiçar a nossa equipe que partiu com tudo para cima dos espanhóis. Numa jogada genial do Muller, pela esquerda, que driblou de maneira desconcertante o Ferrer e cruzou para a área para a conclusão do Raí. 1 a 1 no placar e jogo equilbrado em campo.

Na lateral do campo, tanto o Telê quanto o Cruyff permaneciam tranqüilos, meio que admirando a exibição futebolística das duas equipes. O jogo continuou equilibrado durante toda a segunda etapa, mas, mesmo assim, eu continuava acreditando na vitória: Não era possível! Ou o Muller, ou o Palhinha ou o Raí tirariam algum coelho da cartola no final do jogo, pensei. E, pasmem, foi exatamente isso que aconteceu. O Palhinha sofreu uma falta na entrada da área e o Raí foi pra batida. Close no rosto do nosso capitão - “O Raí vai meter essa bola na gaveta”. Dito e feito. 2 a 1 pro Tricolor. Até o Sêo Telê levantou do banco pra comemorar.

Falta pouco mais de dez minutos. Vamos segurar esses gringos na unha. Acabou! Vitória! Festa em São Paulo, festa no Brasil! O Brasil estava carente de títulos mundiais, então, valia a pena comemorar, brindar o resgate de nosso futebol, independente da cor da camisa. Para os são-paulinos, aquela noite foi inesquecível. Foi difícil pegar no sono depois. E quem precisa dormir? Que o dia amanheça logo para eu rever os gols do Raí dezenas de vezes, para desfilar o orgulho de ter o melhor futebol do mundo. Para o nosso time, aquela foi a cereja no bolo de uma geração que cresceu perdendo uma final de título brasileiro, em 1990, para o arqui-rival Corinthians, mas deu a volta por cima, conquistando o Brasil, a América e o Mundo. Para o nosso saudoso Mestre Tele Santana aquele título representou a redenção de seu nome. Se era o título mundial que faltou em 1982, agora não faltava mais nada.

Parabéns Tricolores de todo o mundo.

A Batalha de Montevidéu


E o Tricolor ganhou mais uma taça para a sua sala de troféus. Agora foi a vez da inédita Copa Sulamericana. Esqueçamos por alguns instantes a forma pouco convencional que se deu a peleja entre o São Paulo e o Tigre, com direito a pancadas, rabo de arraia, pescoções e briga no vestiário. O texto dessa noite é sobre história.

Hoje em dia toda essa violência nos gramados choca, não apenas os amantes do bom futebol, mas, principalmente os vigilantes do bom mocismo – grupo emergente da sociedade brasileira. De fato, a pancadaria não combina com o futebol profissional e globalizado, contudo, nem sempre foi assim. Numa época em que jogador de futebol não postava foto de arranhão e hematoma nas redes sociais, o futebol, na sua forma mais Technicolor, pedia uma certa dose de cafajestada dos atletas. Não tinha televisão ao vivo nem punição de tribunal com base em imagens, ou seja; “se o juiz não viu tá valendo”!

É nesse clima meio nostálgico que lembro aqui de um jogo que mudou a história das competições internacionais e, principalmente, intercontinentais. Tudo de ruim, grosseiro e vulgar que podemos identificar numa partida de futebol, nos dias de hoje, ocorreram no dia 04 de novembro de 1967, no Estádio Centenário, em Montevidéu, no que ficou conhecido como “La Batalla de Montevideo”.

Pela primeira vez na história um time da grã bretanha ganhava a Copa dos Campeões da Europa; era o Celtic, da capital escocesa de Glasgow, que superou a toda poderosa Inter de Milão. Um resultado improvável e surpreendente na época. Só não foi, talvez, mais surpreendente que a vitória do Racing Club, da Argentina sobre a super time do Nacional do Uruguai. Enfim, dois clubes debutantes em conquistas continentais, dois times memoráveis.

O time do Celtic, provavelmente, o melhor time escocês de todos os tempos, vinha de conquistas do campeonato e da copa escocesas e do título europeu. O Racing, por sua vez, assombrava a América do Sul com o seu “futebol total”. Sim, para muitos analistas de futebol o esquema de ataque maciço, pressão na marcação e sem posições fixas do time argentino comandado por Juan Jose Pizzuti precedeu o esquema do Ajax Amsterdã, montado pelo Rinus Michels, no início dos anos 1970 e pela seleção holandesa na Copa de 1974. Algo muito parecido com o que é feito atualmente pelo Barcelona.

A disputa da Taça Intercontinental de 1967, entre Celtic e Racing, tinha tudo para brindar o torcedor de futebol com belíssimas apresentações das duas equipes, mas, não foi bem isso que aconteceu. E, para entender um pouco dos eventos que se seguiram é preciso lembrar da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Uma Copa trágica para os sulamericanos. Jogadores como Pelé, Pedro Rocha e Artime foram impiedosamente caçados pelos zagueiros europeus, com a aprovação dos árbitros, em sua maioria britânicos. No jogo eliminatório entre ingleses e argentinos, em Wembley, o meia argentino Rattin tornou-se o primeiro jogador a ser expulso de um jogo de Copa do Mundo, em um episódio pra lá de bizarro. Depois do jogo o técnico inglês Sir Alf Ramsey chamou os jogadores argentinos de animais. Aquilo soou como uma bomba, um duro golpe na fleuma portenha e em toda uma geração de jogadores que apanharam um bocado em gramados ingleses. Ia ter troco.

Voltamos ao Intercontinental. No primeiro jogo, em Glasgow os argentinos não se intimidaram e as duas equipes jogaram um jogo tenso e duro, com um gol escocês na parte final do jogo para a alegria de um estádio (Hampden Park) abarratodo, com mais de 100 mil fanáticos do Celtic – quem disse que europeu não liga pro bom e velho intercontinental?

A partida de volta foi jogada no legendário estádio Juán Domingo Perón, em Avellaneda, para 100 mil hinchas. O Racing ganhou por 2 a 1, mas, o que aconteceu antes do jogo, talvez, tenha sido a gasolina que faltava para o duelo. Antes do início da partida, o goleiro Simpson recebeu uma pedrada das arquibancadas e teve de ser substituído por Fallon. Diante do clima naquela tarde em Avellaneda, os organizadores até permitiram que o Celtic deixasse de jogar, mas, os escoceses, marrentos que são foram pro pau. A violência do jogo parecida ter chegado ao ápice. O clima de pressão e intimidação era insuportável. Se os britânicos consideravam os argentinos animais, agora teriam de sobreviver na "jaula de Avellaneda". 

Como cada equipe havia ganho uma “batalha” era necessário o terceiro jogo, num campo neutro, apenas três dias depois. Foi exatamente no dia 4 de novembro daquele ano que 25 mil torcedores do Racing atravessaram o Rio de la Plata para assistir a uma das partidas mais violentas de todos os tempos, no Estádio Centenário, em Montevidéu, Uruguai. O árbitro paraguaio Rodolfo Perez teve que expulsar 05 brigões de campo. Chutes, socos, pisões foram distribuídos pelos jogadores das duas equipes. O Celtic, para se ter uma ideia, terminou o jogo com 08 gladiadores, perdendo até mesmo o seu craque Jimmy Johnstone expulso.

O jogo, ou batalha, terminou com a vitória do time argentino, por 1 a 0, gol de Cárdenas, no segundo tempo. A vitória, além de ser a maior conquista do Racing Club de Avellaneda, foi um importante fato social para um povo argentino que estava com sua autoestima abalada, não exatamente pelos comentários absurdos do Sr. Alf Ramsey, mas, sobretudo, pelos sucessivos golpes militares, pela corrupção e miséria crescentes. Para o futebol, o jogo em Montevidéu não é apenas uma história. A partir daquela batalha, que repercutiu negativamente na Europa, a Taça Intercontinental nunca mais foi a mesma, como se europeus e sulamericanos estivessem em dois mundos a parte e nunca mais se misturassem.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Centenário de Nélson Rodrigues


Neste 23 de agosto, celebra-se o centenário de nascimento de Nélson Rodrigues, um dos mais importantes dramaturgos, escritor, jornalista e cronista esportivo. Provavelmente, esta teria sido a primeira crônica de Nelson Rodrigues sobre Pelé, em que ele já o chamava de "rei". Leiamos:

"Depois do jogo América x Santos, seria uma crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racionalmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.

O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certeza eternas: — “Eu”. Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: — “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.

Vejam o que ele fez, outro dia, no já referido América x Santos. Enfiou, e quase sempre pelo esforço pessoal, quatro gols em Pompéia. Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — “Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!”. De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa. E, então, livre na área inimiga, Pelé achou que era demais driblar Pompéia e encaçapou de maneira genial e inapelável.
Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível em qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau".
Crônica de 25 de março de 1958, depois do jogo foi válido pelo Torneio Rio-São Paulo, na qual o Santos vencera o América por 5x3. Três meses antes portanto, quando o Brasil conquistara sua primeira Copa  do Mundo ao vencer a Suécia por 5x2 em 29 de junho de 1958. Não só Nelson Rodrigues observou a "majestade" do garoto Pelé como de certa forma previu o que ocorreria naquele mundial, numa época em que o brasileiro padecia do tal complexo de vira-latas diante das outras nações, conforme palavras do próprio escritor.