Pois bem, amigos.
Chegamos à postagem número 500.
Não sei quantos de vocês nos acompanham desde o
início. Também não sei quanto tempo durará esse nosso bate papo sobre o
esporte. Chegamos a um número de postagem significativa, pelo menos para nós. E
creio que continuaremos com essa nossa brincadeira por alguns anos.
Para comemorar esse feito, decidimos todos nós, os
colaboradores, escrever sobre a Copa de 1982. Sim, a mais enigmática passagem
do futebol arte. A história da Copa para a Seleção Brasileira, eliminada pela
Itália, é traumática e nostálgica para uma geração de torcedores; parte dessa
geração está aqui, mostrando um pouco do que sentiram e presenciaram naquela
época.
Espero que apreciem os textos elaborados pelos colaboradores
do Patativa da Bola.:
Alexandre Bianchini,
Mario Gambetti,
César Augusto de Oliveira e
Sérgio de Oliveira.
A PERDA DA INOCÊNCIA
Por Alexandre
Bianchini
O país esperava
muito da seleção de 1982. Tínhamos perdido o “Complexo de vira-latas” com o
título de 1958, reafirmado o bom momento com o título de 1962 e sofrido um
tropeção em 1966, mas recuperado a confiança com o inédito terceiro título em
1970, com uma mescla de jogadores experientes dos títulos anteriores e novos
talentos. As copas de 1974 (vítimas da magia tática da Laranja Mecânica) e 1978
(onde perdemos o título numa semi final, digamos, estranha) não tinham sido
suficientes para abalar a confiança no talento do jogador brasileiro, que
encantava a torcida com seu futebol arte.
Temos ainda de
situar historicamente a coisa: o último título tinha vindo no momento em que o
regime militar começava a esticar suas asas. O AI-5 tinha apenas 2 anos, e
militantes da esquerda acreditavam que a solução para o fim do regime militar
era a luta armada, que tinha sido bem sucedida na Rússia pós 1ª Grande Guerra e
em Cuba, mas que já tinha fracassado na vizinha Bolívia. O futebol serviu para
“distrair” a atenção popular dessa situação interna conflituosa. Em 1982, o
país vivia uma fase de abertura democrática gradual, com a população empolgada,
a MPB passando por um auge após o relaxamento da Censura, eleições livres e com
a participação de mais partidos (no regime militar tínhamos apenas a Arena –
governista – e o MDB, para onde foi a oposição que não foi cassada e/ou
exilada), e essa “onda positiva” se refletia no “escrete canarinho”.
O time de 1982, no
papel, era excelente. Que seleção poderia escalar jogadores do calibre de
Careca, Eder, Sócrates, Serginho, Zico, Falcão, Cerezo, Júnior e Leandro? Um
time que jogava com habilidade, toque de bola refinado, e mesmo os integrantes
mais “trombadores” eram habilidosos. Não tinha como não dar certo. Não era um
time que fosse muito eficiente na defesa, mas o ataque compensava com louvor
essa deficiência – ou característica, como preferem alguns. Enquanto os
europeus se agarravam à ortodoxia do futebol de resultados, o Brasil tinha um
time de virtuoses, que “jogava por música”, um time que relembrava épocas mais
inocentes, a pureza do futebol arte.
Admito que minhas
lembranças do jogo em sí não eram das melhores, então fui buscar as imagens no
São You Tube para relembrar o que
tinha acontecido com a “seleção dos sonhos” e como esse sonho virou pesadelo.
Pesquisei diversas imagens, e paradoxalmente as que encontrei em melhor estado
estavam justamente com narração em italiano... Ví e reví as imagens, conversei com
colegas mais velhos que se lembravam melhor da partida, e não encontrei uma
certeza. Itália merecia ganhar? Brasil merecia perder? Onde a partida foi ganha
pela Itália? Onde o Brasil a perdeu? Mesmo vendo a gravação na íntegra do jogo
(sim, o You Tube a tem...) não dá
para encontrar uma resposta defintiva para essas questões.
Um amigo sustenta
a tese que o que selou a eliminação do Brasil foi o 3º gol italiano, fruto de
uma bobagem homérica da defesa brasileira, onde um recuo de bola para o goleiro
absolutamente desnecessário originou o 1º escanteio que a Itália cobrou no jogo
e que resultou no gol.
Minha tese é um
pouco diferente: o Brasil perdeu o jogo no 2º gol italiano. Vejamos: a Itália
fez o 1º gol com 5 minutos, numa distração da zaga brasileira. O Brasil reagiu
e no 12º minuto empatou. Até aquí, tudo bem, OK? Aí, numa saída de bola em que Valdir Peres
colocou a bola em jogo com a mão na direção do lateral direito, este preferiu
passar a bola para o lado ao invés de a lançar para o ataque. O jogador que a
recebeu também preferiu passar a bola para o lado – afinal, para que a pressa?
O talento e o futebol arte acabariam vencendo, como já tinham vencido
anteriormente na primeira fase da Copa e no jogo contra a arquirrival
Argentina. O jogador com a bola, Cerezo, poderia ter passado a bola para
frente, devolvido para o lateral direito, feito um lançamento longo... ao invés
disso, preferiu manter a bola na defesa. Tinha 3 jogadores à sua esquerda
(Oscar, Luizinho e Falcão), e poderia ter passado a bola diretamente para
qualquer um deles. Lançou a bola no meio deles, afinal, como jogadores
habilidosos qualquer um deles poderia dar prosseguimento à jogada. Nenhum viu
Paolo Rossi, que já tinha feito o primeiro gol, marcando a saída de bola. Na
hesitação de quem iria pegar a bola, Rossi correu, dominou a bola, foi na
direção do gol e chutou na saída de Valdir Peres, colocando a Itália novamente
na frente. A imagem pós gol é emblemática: os jogadores voltam na direção do
meio campo cabisbaixos, sem acreditar no que tinha acontecido. Psicologicamente
derrotados. A partir desse momento, os jogadores brasileiros passaram a errar
jogadas de ataque e chutes a gol que normalmente acertariam. Tanto que o
segundo gol do Brasil veio apenas no 2º tempo, num chute a distância de Falcão.
Sete minutos depois, a falha de Luizinho, recuando de cabeça para o goleiro uma
bola que ele poderia perfeitamente ter deixado passar, dominado com os pés e
passado para o meio de campo brasileiro – o jogador italiano mais próximo
estava a mais de 4 metros
de distância –, mas que resultou no escanteio e no 3º gol italiano.
Depois disso o
Brasil foi para o ataque, mas a Itália fez o que sabia fazer de melhor – se
fechara na defesa – e só não ampliou o placar num contra ataque pois o
bandeirinha viu um impedimento inexistente no lance do 4º gol italiano. E assim
o Brasil foi eliminado da Copa de 1982.
Foi o momento da
perda da inocência. Dalí para frente, o Brasil ainda teria um time que jogava
bonito na Copa de 1986 (onde foi eliminado nas quartas de final pela França),
teve um amontoado de jogadores ao invés de um time na Copa de 1990 e só
voltaria a ser campeão na Copa de 1994, onde os habilidosos Romário e Bebeto
eram o toque de arte numa seleção defensiva dominada pelo “xerifão” Dunga. Uma
seleção que venceu mas não convenceu, e que como compensação trouxe o caneco de
campeão para casa, ao contrário da talentosa seleção de 1982.
O BOTECO E O GUARANÁ
Por Sérgio
Oliveira
O boteco cheio. É
quase hora do jogo. Eu ainda era criança, continuo sendo quando lembro daquela
época. O mascote é minha maior e mais querida lembrança. A Copa da Espanha foi
o meu primeiro contato com a competição mais importante do mundo. Não sabia
ainda a dimensão de tudo aquilo. Só sabia que o boteco estava cheio. Desce mais
um guaraná, hoje é dia. Os comentários de que a Seleção Brasileira de Pelé
havia renascido naquele ano, depois de doze anos do último título nacional.
Exagero ou não, a
seleção marcou história. Marcou não apenas pelos números, mas pelo jeito. Parte
dela formada de um time que arrancava risos e sorrisos dos torcedores, o
Flamengo. Outra parte dos melhores jogadores dos times espalhados pelo Brasil.
Naquela oportunidade estavam os melhores em campo, sem bandeira ou politicagem.
No banco um gênio: Telê Santana. Técnico que tinha na bagagem apenas alguns títulos estaduais como treinador. Foi
ele quem recriou para o mundo o futebol arte.
Era dia da
seleção. Dia em que a nação parava. Ninguém hoje imagina uma única torcida de
futebol, com a mesma bandeira, as mesmas buzinas e as ruas cheias. Na parte da
manhã ajudei pintar as ruas com as cores do Brasil; eu estava agora no boteco.
E ele estava cheio. Mais um guaraná? Guaraná que era nome genérico de qualquer
refrigerante. Tempo ufanista, talvez. As ruas pintadas, pessoas eufóricas.
Homens, mulheres (quando não era tão comum mulher gostar e acompanhar futebol);
todos estavam com o Brasil em campo.
Chegando a hora,
vamos embora. O boteco iria continuar cheio. Entro na sala e fico perto da
televisão. Não lembro quem narrava, nem lembro de todos os jogadores. E resolvi
escrever assim mesmo, com a falta de nitidez do tempo. Quem são eles? Lembro-me
de Sócrates, Zico, Falcão e Éder. Lembro-me de Valdir Peres e Toninho Cerezo. E
lembro dos gols. Gols maravilhosos. Lembro-me que apenas a seleção brasileira
possuía a bola. Algo que o Barcelona anda fazendo; para referência dos novos
idolatras do futebol arte.
Mas lembro o
desânimo do final do jogo. Lembro que alguma coisa não tinha dado certo.
Afinal, como um time daqueles poderia perder? Pois, a derrota ficou no passado
como uma injustiça. E do time fantástico ainda recordamos de forma nostálgica,
romântica e entusiástica. O Brasil é o
país do futebol! Nunca tinha visto o Brasil ser campeão! Um time como aquele,
então, seria maravilhoso. Não apenas os brasileiros ficariam felizes, mas o
mundo inteiro. O nascimento de um futebol que até hoje queremos ressuscitar,
mas que sempre perde fôlego quando o negócio é resultado. Perdeu. Derrota tão
incompreensível como tantas que acontecem por ai. Perdeu como faz parte o mundo
do futebol.
O boteco estava
cheio, mas o barulho era diferente. Eu na sala não sabia se chorava ou se
voltava para a ficção da infância. As coisas são mais fáceis quando somos
crianças. Mas alguma coisa ficou estranha, alguma sensação que até hoje
incomoda. Aquela da injustiça, da derrota ser amarga, imerecida. Não compreendo
ainda, depois de tantos anos, que o direito do futebol é torto para muita
gente. Brasil da Copa de 1982 foi uma das mais belas equipes de futebol, mas
assim como outras seleções grandiosas, venceu apenas na história.
As ruas foram perdendo
as cores durante os anos. O brilho da seleção brasileira ainda ficou
fortalecido por mais algumas copas. Mas o futebol tinha mudado seu curso (mais
uma vez), pegando um atalho que até hoje faz sucesso; com o futebol defensivo;
tacanho e covarde. E nossa nostalgia é livre e honesta, quando queremos rever a
seleção brasileira em algum momento jogando por ai; mas ao mesmo tempo é
fingida; já que nos torcedores nos acostumamos com o futebol de resultados.
O boteco continuou
cheio em 1994, mas o barulho era diferente.
A ESTREIA
Por Mário
Gambetti.
Estava chegando a
hora. O clima de Copa do Mundo já estava tomando conta de todos: ruas pintadas,
decoradas com bandeirolas, propagandas na TV com álbuns de figurinhas,
promoções, e jogos já sendo televisionados. Claro, que para mim (um garoto de 8
anos) tudo aquilo era uma novidade.
Morava ainda com
meus avós e tios, que ainda estavam para casar. Muita gente em casa, e quando
tinha jogo de Copa, se transformava num verdadeiro evento, com a casa cheia de gente
pois também havia convidados. Muita expectativa e otimismo para a estreia da
Seleção Brasileira na Copa, pois tínhamos um baita time e um técnico que era
praticamente uma unanimidade. Minha mãe trabalhava numa loja, e comprou pra mim
uma camisa do Brasil e algumas bandeiras de plástico, que vendiam muito naquela
época. Um bandeirão verde-amarelo também foi estendido na janela da sala que
ficava na parte superior do sobrado.
Voltemos agora ao
dia 14 de junho de 1982. Brasil x URSS, jogo da estreia da Seleção. Na sala,
todos já reunidos:
“Futebol de
laboratório”, um dos comentários na sala que lembro pouco antes de começar a
partida contra a União Soviética: “É um futebol baseado no preparo físico”
tentava explicar alguém. Outra pessoa (meu tio, se não me engano) dissera:
“Futebol de laboratório é um estudo que se faz para saber qual o melhor jogador
para cada posição” (complementava, e certo ou não, esta deveria ter sido a
explicação mais contundente, pelo menos para mim). A verdade é que o tal “futebol
de laboratório” dos soviéticos foi um termo que surgiu na Copa de 1958 e não em
1982. Também não sei se o pessoal sabia disto. Mas isto eu só descobriria
muitos anos mais tarde. Foi com esta formação que a Seleção estreou na Copa da
Espanha, em Sevilha: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho, Júnior; Falcão,
Zico, Sócrates; Dirceu (Paulo Isidoro), Serginho e Éder.
Começa o jogo e a
seleção canarinho, é quem comanda as ações do jogo, atacando a URSS. Mas por
volta dos 30’
do primeiro tempo, o tal do Bal arrisca um chute de fora da área e Valdir Peres
engole um frango. Aí... já viu. Indignado, me dirigi ao meu tio (aproveitando o
coro da sala que reclamava do goleiro) e disse: “Tá vendo. O Valdir Peres é
frangueiro!” Meu tio (são-paulino) tentou defendê-lo: “Não é não!”. Fim do
primeiro tempo, e o tal do “futebol de laboratório”, vencia o futebol-arte por
1x0.
Na segunda etapa,
um verdadeiro massacre da Seleção. Foi a hora de aparecer o goleiro Dasayev.
“Este tal goleiro de laboratório pega tudo mesmo”, parecia que a bola nunca
iria entrar. Dasayev aguentou bem o bombardeio. Até aparecer a genialidade de
Sócrates. Aos 30’
ele se livrou de dois soviéticos e chutou de fora da área no ângulo direito do
goleiro. Que golaço! Que vibração! Rojões por toda parte. A angústia pelo gol
havia terminado, nós comemorávamos e eu vi, em forma de pintura, o primeiro gol
da Seleção Brasileira em uma
Copa do Mundo.
Mas queríamos
mais. E o segundo gol veio aos 42’.
Passe de Paulo Isidoro (que fez um partidaço quando entrou no segundo tempo)
para Falcão que deixara a bola passar no meio das pernas, chegando a Éder que
deu um leve toque, levantando a bola e enganando o goleirão Dasayev, que como
um robô enferrujado nem se moveu. Outro golaço, e eu corria feito um besta pela
casa querendo abraçar quem estivesse na minha frente, afinal todos também se
abraçavam e se cumprimentavam. Que alegria foi.
Primeiro desafio
vencido: 2x1 e o tal futebol de laboratório não nos botava mais medo.
Encerrava-se uma invencibilidade de 23 jogos da União Soviética. 32
finalizações brasileiras contra 7 soviéticas. A Seleção era puro ataque e pura
arte. Buzinaços nas ruas, rojões e aquelas comemorações que virariam depois
rotina. Mas para mim todo este clima e comemorações ainda eram novidade. Afinal
foi apenas a estreia. A da Seleção Brasileira naquela edição, e a minha, em
Copas do Mundo. Há 30 anos...
O DIA QUE NÃO ACABOU
Por César Augusto
de Oliveira
É bom demais ter
sete anos. Principalmente quando você é garoto, no Brasil, e gosta de futebol
(oras, que garoto de sete anos não gosta?) e, em ano de Copa do Mundo, então, é
o paraíso na terra. O sonho, ou melhor, a Copa do Mundo, começa muito antes do apito
inicial. Sabem todos aqueles Guias da Copa, que são publicados em tudo quanto é
jornal, revista, caixa de sucrilhos e bula de remédio? Pois bem, guardei todos
durante semanas. Todos eles tinham alguma informação valiosa ao pequeno fã de
futebol. “O que significa mesmo essa sigla da União Soviética? Ah tá, União das
Repúblicas Socialistas Soviéticas”. “Como é mesmo o nome do craque da Alemanha
Ocidental? Eu sei, é o Karl Heiz Rummenigge”. Se não tinha a informação no
Guia, o jeito era buscar na Enciclopédia Barsa e, se nessa também não tinha,
era porque a informação nem era tão importante. Deixa pra lá.
Da nossa seleção
eu sabia o nome, posição e clube em que jogava cada um de nossos craques. Nem
podia ser diferente. O Brasil parava pra assistir todo e qualquer amistoso
preparatório. Se durante o jogo da seleção não tivesse uma televisão ligada no
escritório ou na repartição era certeza que algum torcedor mais aflito ia sair
para um café ou um cigarro e dar aquela bisbilhotada no jogo. Acompanhei todos os
jogos amistosos e as partidas das Eliminatórias. Iríamos para o Mundial para
levantar o caneco, sem sombra de dúvidas. E eu estava feliz por fazer parte de
um momento tão importante, talvez o mais importante e solene da minha
existência de apenas sete primaveras.
A abertura da
Copa, num sábado, foi demais. Argentina e Bélgica fizeram um jogo tenso,
nervoso, só não estavam mais tensos do que eu, que praticamente não dormi na
noite anterior e, ainda, após o jogo tive que anotar o resultado do match em
cerca de cinquenta tabelas da Copa que estavam espalhadas pela casa. O dia da
estreia da nossa seleção só aumentou a expectativa inicial. O jogo ia ser duro.
A gente ia enfrentar os russos da União Soviética e o seu goleiro Dassaev. O
medo tornou-se realidade no gol soviético. Um chute de longe que o nosso Valdir
nem viu. Saímos para o intervalo perdendo o jogo e eu, a paciência. Mas, no
segundo tempo, em dois lances geniais do Sócrates e outro do Falcão que
culminou no golaço do Éder viramos o jogo e ganhamos na estreia. Noite de
festejar nas ruas, com direto a buzinaço e fogos de artifício.
Passado o susto
inicial a nossa seleção começou a jogar o seu melhor futebol, com passes
precisos no meio campo, tabelas, triangulações, enfim, com muito daquilo que
convencionamos chamar de futebol-arte. Ganhamos com facilidade da Escócia e da
Nova Zelândia. A festa, a empolgação tomou conta do nosso país, ou melhor, do
meu bairro, o que para um garoto de sete anos é quase um mundo inteiro. A Copa
só não era melhor porque as aulas ainda não tinham acabado. Era difícil chegar
em casa no início da tarde, assistir ao jogo das 12 horas, estudar e ainda
acompanhar o jogo das 16 horas. Rotina difícil, mas que tinha data pra acabar.
Dia 05 de julho era o último dia de aulas e, depois, férias, ou melhor, eu
poderia dedicar todo o meu dia à Copa do Mundo, principalmente ao hábito de
organizar as minhas tabelas que já estavam desatualizadas.
A segunda fase do
Mundial estava pra começar e o nosso time ia enfrentar a Argentina e a Itália.
Sabia que a Argentina era a atual campeã (informação do Guia) e que tinha um
jovem muito talentoso na sua equipe, um tal de Maradona. Confesso que não
achava esse time argentino tão bom assim e, de mais a mais, o Guia não falava
nada que esse país vizinho era o nosso maior rival. No jogo contra Argentina o
nosso time estava bem relaxado, tocando a bola. Alguns argentinos ficaram um
pouco nervosinhos e abusaram da pancadaria. O Maradona pareceu-me um jogador
sujo, não no seu futebol, mas, no cabelo mesmo. Achava que aquela cabeleira
devia estar cheio de piolhos, afinal, não por outro motivo, as professoras
mandavam a gente manter o cabelo bem cortadinho. Ganhamos tão fácil que nem
fiquei preocupado. Pude curtir cada lance daquele jogo e da atuação do Zico.
Pelo que vi até aquela altura ninguém podia segurar o nosso time. Passadas as
festas juninas, quadrilhas e outros festejos era chegado o último dia de aulas,
o último sinal de chamada, a última recomendação da tia, como eram
carinhosamente chamadas as nossas professoras; “Não esqueça de cortar o cabelo,
hein!” Tá vendo Sr. Maradona?
Naquele dia o jogo
era contra a Itália, o mesmo time que empatou com os Camarões (um país com nome
de petisco de praia?). Almocei tranquilo, sem pressa alguma. Cada garfada uma
plano para aquelas férias de muito futebol. Nem me importei tanto quando o
Luciano do Valle que, num grito abafado, sem empolgação alguma narrou o
primeiro gol italiano. Alguém grita da sala: “Foi gol deles!” Sem pânico,
afinal, isso já aconteceu em outras partidas. E quem tem Zico, Sócrates,
Falcão, Cerezo, Junior e Serginho não fica preocupado com gol de Itália
nenhuma. Nem bem tomei o meu assento no
sofá e o nosso Doutor Sócrates empata o jogo.
Quase no final do primeiro tempo perdemos uma bola na intermediária e os
italianos marcam de novo. 2 a
1 e final de primeiro tempo. Só precisamos de um empate pra classificar. E o
fizemos da forma mais espetacular possível. Numa trama de nosso meio campo o
Falcão empatou o jogo e tranquilizou a nossa torcida. Mas, por incrível que
pareça, logo em seguida os italianos desempataram. 3 a 2 e pouco tempo no relógio.
Pressionamos o adversário e até conseguimos um ultimo lance, mas, o goleiro
deles defendeu. O árbitro apita o final do jogo.
Como assim final
de jogo? É só isso? Estamos fora da Copa? E as minhas férias? E as minhas
tabelas, os meus guias? Acabou tudo? Quando você é um menino de sete anos de
idade sonha em ser o rei do mundo, de um mundinho bem pequeno, pra falar a
verdade. Aquele era o meu mundo, a única coisa que realmente importava e sobre
a qual eu pensava ter o domínio. A Copa, com todas as suas cores, bandeiras,
camisas, tabelas e guias era o meu reino. E, de uma hora pra outra o reino
caiu. Nem sei se, na época, eu tinha a
exata dimensão do que era um jogo de futebol. Acho que até hoje não sei. Não
consegui sentir raiva ou pena de nossos jogadores. Nem tampouco coloquei a
culpa no nosso técnico. Nada disso. Afinal, como bem disse o Jorge Mautner em
uma de suas pérolas: “tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento ”. A minha
sorte foi ter apenas sete anos. Nessa idade nenhum sofrimento, por mais
profundo que seja, é tão duradouro. No dia seguinte, primeiro dia de férias, um
céu ensolarado dá as boas vindas aos jovens torcedores. Enquanto alguns já
preparam o cerol para as suas pipas maranhão outros começam a separar os times
na quadra da pracinha. Será que eu consigo jogar no próximo?
Enfim, nem o
futebol, nem o meu mundo acabou. Permanece aquele distante dia 05 de junho de
1982 na memória, vindo à mente como uma miragem, de tempos em tempos,lembrando,
caso algum dia eu esqueça, do quão belo pode ser o jogo de futebol, mesmo que o
placar, ao final do jogo, não dê tantos motivos para celebrar.