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quinta-feira, 1 de junho de 2017

Esse jogo de corrida.

Correndo e aprendendo a jogar. Não parece, mas a corrida é um jogo. Um tipo de jogo que não começa apenas quando calçamos os tênis e nem termina quando cruzamos o pórtico de chegada. É o jogo do dia a dia! Um bom jogador é aquele que sabe identificar o momento, sabe a hora de forçar nos treinos, sabe a hora certa de descansar antes da lesão, sabe a hora de colocar uma ou outra corrida no calendário e sabe a hora de recalcular as coordenadas para retomar o caminho da vitória. Sem modéstias, acho que estou aprendendo a jogar esse jogo.

Há duas semanas decidi correr o percurso de 21km da Seven Run. Prova bem organizada, praticamente plana, e com largada às 18:00 horas, ou seja, a temperatura estaria bem amena. Enxerguei a possibilidade de realizar um treino de ritmo diferenciado, numa distância que eu adoro correr; os 21 km. Bastava fazer um ajuste nos treinos da maratona e adiantar, em uma semana, um treino longo de 28 Km. Sem problemas.

Enfim, dia 20 de maio, 18:00 horas, lá estava eu pronto pra realizar o meu treino longo antecipado. O local escolhido:  o Elevado João Goulart, vulgo, o Minhocão. Algumas pessoas não entendem o porquê de eu gostar de realizar treinos no Minhocão. A resposta é bem simples; o Minhocão não tem curvas, o asfalto está sempre conservado, sem buracos e é um percurso razoavelmente técnico, com alguns aclives e declives moderados. Além, é claro, do apreço que tenho pelo Centro de São Paulo. Sem nojinho, hein! Como já cantou o Premê: “Não vá se incomodar com a fauna urbana de São Paulo”!

Pois bem, segundo o que imaginava da evolução dos meus treinos, faria esse treino longo “de buenas” num ritmo de 5’35”/km, aproveitando a brisa da noite paulistana, espiando as janelas dos prédios que margeiam o Minhocão, que nos protege como as copas das árvores dos parques mais movimentados. O treino começou bem, correndo naquele retão tive tempo de pensar na vida, colocar algumas situações em perspectiva, fazer planos. Corrida é sessão de terapia, é balcão de bar.

As primeiras duas horas de treino foram bem tranquilas. Mas, de repente, a temperatura esfriou, o asfalto enrijeceu, as pernas começaram a pesar, o meu joelho, na verdade, a patela, começou a reclamar. Eu ainda tentei ponderar com ela: - Condromalácia, sua linda, falta pouco, não me abandone agora! Não teve jeito. Já tinha percorrido 26 km, quando o tal do Muro apareceu em minha frente. E era intransponível. Sentia dores no quadril, nos glúteos, tinha impressão o meu joelho flexionaria do lado errado, não conseguia correr. Não sobrou energia pra nada. Voltei pra casa derrotado, como se tivesse perdido o pênalti decisivo numa final de campeonato.

E ainda tinha os 21 km, da Seven Run, na semana seguinte. Resolvi passar uma semana inteira sem correr. Nem me lembro da última vez que passei por tal abstinência. Aproveitei a semana pra dormir um pouco mais, alongar, aplicar gelo nos joelhos e fazer os treinos de fortalecimento na academia. Bateu uma tensão no sábado, no dia da prova. Já corri a distância (21km) outras tantas vezes, mas, o fiasco da semana anterior acendeu o sinal de alerta. Comecei a questionar os meus treinos, a preparação pra maratona, as minhas condições físicas atuais. Será que deveria estar treinando com um treinador? Será que essa tal de condromalácia patelar ia impedir a minha maratona? Será que vai valer a pena todo o sacrifício? 42 anos e dúvidas.

Quase 18:00 horas. A temperatura, a exemplo  da semana passada, estava amena. Mas eu não. Estava tenso na largada. Não me lembro de ter sentido tamanho arrepio na espinha. O medo do fracasso, pra quem não tem medo de falar em público, é maior que o medo da morte. E pra quem corre, esse medo é traduzido na imagem no corredor sentado no meio fio, chorando de dores e resgate do carro da organização. Não é exagero. Todo corredor tem um pouco de samurai. Toca a sirene. Foi dada a largada. A partir de agora, menos reflexão e mais pulsação.

A Seven Run é uma corrida curiosa. Eram três percursos diferentes; o de 7km,  o de 14 km e o de 21 km. Todo mundo largou junto, em ondas de ritmo. Foi uma boa ideia. Correr ao lado de alguém que faria um terço da minha distância, por exemplo, permitiu que eu mantivesse, desde o início o meu ritmo de corrida. Corredores de longa distância tendem a economizar no início da prova pra não ter prejuízo depois. Resolvi abdicar do monitoramento de cronômetros e aplicativo. Sem toda essa tecnologia, a corrida tende a ficar mais leve, menos compromissada. Corri por 11 km e percebi que ainda estava muito bem. Sem dores, sem desconforto. Resolvi acelerar um bocadinho mais. 15Km, 18km e meu ritmo não diminuía. Faltava pouco. Só iria parar quando cruzasse a linha de chegada.

Cheguei com 01h47min14segs. Meu melhor tempo nos 21 km. Foi muito legal terminar bem a prova, sem dores e com gás no tanque. Mas, além disso, foi importante ter aprendido mais um movimento nesse jogo que é a corrida. Aprendi que o descanso é importante, mesmo quando a planilha diz outra coisa. Aprendi que um treino ruim, desastroso, na maioria das vezes, não é o fim do mundo, é só um treino ruim. Aprendi que a corrida é um jogo de erros e acertos. Ainda cometerei vários erros na minha preparação para maratona. Sei disso. Mas é a forma como supero esses erros que fará toda a diferença na reta final.

Playlist:

Não tenho ouvido muita música durante as corridas, por isso, essa semana não vai ter playlist. Em compensação trago aqui um filme pra qualquer um largar as cobertas, saltar da cama e começar a correr. É o filme “Spirit of the Marathon”, disponível no Youtube e acompanha a preparação de alguns atletas amadores e profissionais para a Maratona de Chicago. De arrepiar. Segue o link:  




   


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A quem interessar possa


Caros leitores, a bola de 2017 começou a rolar nesse final de semana com a rodada de abertura dos torneios estaduais espalhados pelo país. Mas, foi um comunicado da Fifa, entidade organizadora do futebol internacional, que causou os debates mais acalorados nas Rádios Peão e Balcão, de onde esse blogueiro, orgulhosamente, tira a inspiração para os seus textos.
Pra quem não está atualizado sobre o ocorrido, a Fifa, organização que tem alguns de seus dirigentes presos e investigados por tudo quanto é picaretagem na organização de eventos esportivos, afirmou que reconhece como campeões mundiais interclubes somente aqueles que venceram o seu torneio, disputado a partir do ano 2000.
Pronto. Foi o que bastou para uma onda de gozações e agressões entre torcedores ganhasse corpo. Foi um tal de colorado tirando sarro de gremista, de corintiano tirando sarro de palmeirense e de anti-flamenguistas tirarem sarro dos rubro-negros. A gozação, como tem sido frequente, virou bate boca, que logo virou agressão, xingamento e bloqueio nas redes sociais.
Mais uma vez, amigos, brigamos pelos motivos errados. A Fifa está correta ao valorizar o seu torneio interclubes. Afinal, esse é o seu produto. Justíssimo. Pessoalmente, acho um torneio grandioso demais, enfadonho e não vejo, sequer, o mérito esportivo em reunir clubes campeões intercontinentais, como se um título do torneio da Oceania pudesse valer a mesma coisa que um título de Liga dos Campeões ou de uma Libertadores. Mas, enfim, essa é apenas uma opinião.

Alguns dirão que os torneios intercontinentais disputados entre Europa e América do Sul não valem como mundial, pois, as outras confederações continentais não estavam representadas. Ora, meu amigo, se o argumento fosse válido, as Copas do Mundo de 1958 e 1962, ganhas pela Seleção Brasileira, não poderiam ser consideradas como títulos mundiais, na medida em que só existiam representantes da Europa e das Américas, que eram os dois continentes com o futebol mais competitivo e organizado.
Outros sustentarão que somente a Fifa, organizadora do futebol mundial, poderia conferir o título mundial aos clubes. Eu até aceito o argumento, mas, obviamente, não concordo. A Fifa foi fundada no início do século XX e, mesmo sediada na Europa, e podendo acompanhar de camarote as turnês vitoriosas que clubes tradicionais sul-americanos, como o Santos, o Botafogo, o River Plate e o Peñarol realizaram no Velho Continente, nunca se interessou por realizar um torneio mundial.
Pra falar a verdade, no pós guerra, a ideia de um Mundial interclubes ganhou força entre sul-americanos e europeus. Vários torneios foram criados com o propósito de medir forças entre as duas maiores escolas de futebol, com fórmulas bem parecidas; sempre com metade de clubes europeus e metade de sul-americanos. Como exemplo, tivemos a “Pequeña Copa del Mundo de Clubes”, o “Tournoi de Paris” e, lógico, a “Copa Rio”. Entretanto, nem europeus, nem sulamericanos realizavam torneios continentais que pudessem credenciar equipes para a disputa de um torneio mundial. O mérito esportivo daqueles torneios restava comprometido, pois, os clubes participantes eram meramente convidados.
Com a criação da Copa dos Clubes Campeões da Europa (atual Liga dos Campeões), em 1955, o Velho Continente já tinha condições de apresentar ao mundo o seu melhor time. Faltava a América do Sul. Para se ter uma idéia da dificuldade de se criar uma competição intercontinental definitiva, o Brasil, então campeão do mundo em 1958, não tinha sequer um campeonato nacional. A solução foi dada num ajuste da cartolagem para a criação da Taça Brasil, em 1959, meramente classificatória para a Taça Libertadores e Taça Intercontinental, ambas criadas no ano seguinte, em 1960, que tinham como objetivo titular a melhor equipe do continente sul-americano e a melhor equipe do mundo, respectivamente.
Inicialmente, entre os anos de 1960 a 1979 os confrontos intercontinentais eram realizados em jogos de ida e volta. Entretanto, os países sul-americanos, socialmente conturbados e, politicamente, comandados por governos militares, ditatoriais e que insuflavam o nacionalismo na sua forma mais cafajeste, abusaram da violência nos jogos disputados em seus domínios, motivando a desistência de vários campeões europeus e o esvaziamento da competição, a ponto de o torneio de 1979 ser disputado entre o paraguaio Olímpia e o Malmöe, da Suécia, num estádio sueco às moscas.

A solução foi realizar a disputa em campo neutro. O local escolhido foi o Japão. Desta forma, desde 1980 a Copa Intercontinental passou a ser disputada em jogo único, com o apoio financeiro de uma multinacional de origem japonesa; a Toyota. Com segurança, estrutura e, principalmente, dinheiro, a competição sobreviveu por mais duas décadas. E, todos os anos o campeão levava duas taças pra casa; a da Copa Intercontinental, concedida pela Uefa e Conmebol e a da Copa Toyota, concedida pelo patrocinador, além de um veículo zero para o melhor jogador em campo.
Assim, independente do que diz o comunicado da Fifa, a Copa Intercontinental foi, desde 1960 o
único torneio capaz de medir forças entre as duas maiores escolas do futebol mundial; a Europa, onde o jogo foi criado e organizado e a América do Sul, onde o jogo ganhou em improviso, criatividade e espontaneidade. A junção dessas duas formas diferentes de ver e viver o futebol, tornaram esse jogo uma paixão mundial, inspirando a criação e o crescimento de clubes de futebol na África, na Ásia, nas Américas Central e do Norte e na Oceania. Reconhecer a importância mundial desses torneios seria o mínimo a fazer, mas, infelizmente, a Fifa optou por privilegiar a sua marca e coloca-la acima dos interesses do próprio esporte.

Após o infame comunicado da Fifa e de sua repercussão nas redes sociais, tomei a iniciativa de consultar os sites do Peñarol, do River Plate e do Feyenoord Roterdã, clubes que ganharam a Copa Intercontinental. Nenhuma linha, nenhum comentário. Em minha opinião, esse comunicado só interessa aos brasileiros mesmo, principalmente aos dirigentes, que de uns anos para cá tentam sobrelevar a importância de algumas taças empoeiradas da sala de troféus. Ao invés de investir na formação de jogadores, na qualidade do jogo, a cartolagem brasileira investe dinheiro (e muito!) na elaboração de dossiês assinados por historiadores, pesquisadores e jornalistas, com o único propósito de conseguir um carimbo, um selo de importância num título ganho no passado.

Em suma, todo título é parte da história do clube e cada título tem a sua importância, de acordo com o seu momento histórico. Duvido, sinceramente, que para um corintiano de seus 60 ou 70 anos, o Mundial da Fifa, em 2000, seja mais importante que o título paulista de 1977. Ou então que um torcedor do Palmeiras da mesma idade considere o título da Copa do Rio de 1951 mais importante que qualquer título estadual conquistado pela Academia nos anos 1960 e 1970 sobre o Santos. Duvido! O momento histórico faz toda a diferença.
Sou são paulino! E, a despeito de qualquer comunicado da Fifa, em minha opinião, o título mais importante da história do São Paulo foi o MUNDIAL de 1992, no Japão, contra o Barcelona, com direito à entrega das chaves do carro ao Raí. Até ganhamos um Mundial da Fifa, em 2005, foi muito legal, comemorei bastante, também, mas, nada se compara a ganhar aquele MUNDIAL de 1992, com o time que tínhamos naquela época, vencendo o Barcelona, comandado pelo Cruyiff. Enfim, não é o carimbo dessa ou daquela entidade que faz a importância do título. A importância da conquista pode ser medida num sorriso espontâneo que nós, torcedores, damos sem querer, quando as memórias daquele título invadem a nossa mente, exatamente, como esse meu sorriso ao lembrar daquele gol de falta do Raí, em 1992... Que golaço!!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Essa tal de São Silvestre - parte final


Uma festa.
Sim, a Corrida Internacional de São Silvestre é uma grande festa. E, numa cidade como São Paulo, que apenas recentemente, e de forma tímida, começa a sair dos ambientes fechados e climatizados, para viver e curtir as ruas e espaços públicos, a São Silvestre é uma festa para quem corre, mas, também, pra quem assiste. Que me perdoem os telespectadores, mas, acompanhar a São Silvestre da tela de uma televisão é assistir meia dúzia de corredores disputando um prêmio em dinheiro. Nada mais.  Falta a transpiração e a vibração de um cotejo de mais de trinta mil atletas amadores, mais de trinta mil histórias que se esparramam por um percurso de 15km pelo Centro expandido da maior cidade brasileira. A São Silvestre é feita por essa massa, que corre, que caminha, que se fantasia e que comemora quando cruza a linha de chegada.


Uma tradição.
Por ser realizada no dia 31 de dezembro, todos os anos, há quase cem anos, a São Silvestre é também, um ritual de final de ano. Alguns optam por pular ondas na praia, outros por banhar-se em sal grosso, outros tantos vestem-se de roupas brancas. Alguns fazem tudo isso ao mesmo tempo. Eu, caros leitores, corro a São Silvestre. Esse é o meu único ritual de final de ano. Aproveitar o último dia do ano para correr por ruas importantes da minha cidade, na companhia de mais de 30 mil corredores, vindos de toda a parte do mundo,  supera qualquer viagem ao Litoral. Independente, do tempo líquido, do ritmo, da altimetria, enfim dessas preocupações de corredor, concluir a Corrida de São Silvestre  é escrever o seu nome na história da prova. Faça o teste: tente lembrar de algum evento anual que se realize, ininterruptamente, há quase um século. Difícil, não? Por isso, quem cruza a linha de chegada na Avenida Paulista, pode e deve celebrar por fazer parte dessa história.

Um acontecimento.
A Corrida de São Silvestre é um dos grandes eventos da Cidade de São Paulo. E não é grande porque a Prefeitura, o Governo do Estado ou a Rede Globo assim desejam. É grande porque a população da Cidade adota essa prova como uma parte importante dos festejos de final do ano. Não importa o horário da largada ou o percurso, o povão sai de casa pra acompanhar. Quem participa de corridas de rua o ano inteiro percebe essa diferença. Começa com o olhar que as pessoas nas ruas, nos ônibus, no metrô desferem aos corredores nas horas que antecedem a largada. Se numa corrida “normal”, o corredor é visto com estranheza, reconhecido como um excêntrico ou um original por sair de casa de madrugada para correr, na manhã de São Silvestre esse olhar é substituído por um outro, de admiração, de aprovação. Pelo menos naquela única manhã de 31 de dezembro o corredor é reconhecido como um atleta, como alguém que desafia os limites do corpo e encara uma prova que é, para a maioria da população, sinônimo de resistência. Devo reconhecer que esse afago popular faz muito bem.

Uma corrida.
Concordo com a ranzinzice de alguns colegas corredores que costumam chamar a corrida de  “Caminhada de São Silvestre”, ou ainda, “Trote de São Silvestre”. De fato, a prova do último dia do ano não é o melhor local para bater recordes pessoais ou impor um ritmo forte de corrida. São 30 mil corredores inscritos e, talvez, mais uns 20 mil não inscritos que comparecem ao evento. São os chamados “pipocas”. Não há, na prática, largada por ritmo e muito menos uma largada escalonada. Sai todo mundo junto. Quem chegou mais cedo larga na frente e quem chega depois vai largar 1 km pra trás. É muita gente! Corredores rápidos, lentos, caminhantes, passeantes, enfim, é um “só não vai quem já morreu” que deixa o ritmo da prova bem lento, quase que uma procissão de corredores. Nunca consegui correr no meu ritmo, mas, não reclamo disso. A São Silvestre é democrática e deve continuar assim. Deve estar aberta para todos que se propõem ao desafio, sejam aqueles que completam o percurso em menos de uma hora, sejam aqueles que completam os 15 km após 3 horas. Vai correr rápido? Ok, mas, se não der, corra mais lento. Não consegue correr o tempo todo? Vai caminhando. Cansado de caminhar? Ok, compre um picolé, arrume um bom companheiro de prosa e passeie até a Avenida Paulista, oras.

Bom, e eu? A minha relação com a São Silvestre mudou bastante nos últimos dez anos. Na minha primeira vez, tinha como grande objetivo completar o percurso em 1h15min. O que dá uma média de 5 minutos por quilometro. Falhei por 02 minutos. Responsabilizei o excesso de participantes, os caminhantes, a chuva, enfim. Em outras provas esse insucesso teria sido devastador pra mim, mas, vendo aquela festa da chegada na Avenida Paulista, todo mundo celebrando, comemorando, fiquei constrangido por reclamar. E voltei. Continuei voltando ano após ano. Já reclamei da superlotação, da falta de abastecimento de água, dos caminhantes, mas, continuei voltando. Corri até quando a organização da prova alterou o percurso para que a prova fosse concluída no Parque do Ibirapuera. Corri sob protesto e sem inscrição. Odiei a experiência que, felizmente, durou apenas um ano. E continuei voltando. Sempre volto.

Blogueiro que mata a cobra e mostra a danada morta.
Atualmente, não me preocupo com o tempo, com o ritmo, com a superlotação, com a organização ou falta dela. Aproveito o evento, simplesmente isso. Entendo, hoje, que a São Silvestre nada mais é que uma representação da Cidade de São Paulo, que cresce desordenadamente, sem planejamento, de forma asfixiante, superlotada por pessoas diferentes, vindas de lugares diferentes, escrevendo, cada qual, a sua história, no seu ritmo. São Paulo é a cidade que corre, que acelera, mas, se pararmos um pouco para observar, é a cidade que anda pelos parques, que contempla as vitrines e exposições, que para, vez ou outra, pra degustar um pastel na feira ou a criação gourmetizada do mais caro restaurante. São Paulo é a cidade sizuda, séria, compenetrada, mas, também, é a cidade que se fantasia que se traveste, que se diverte sem pudores. São Paulo é a cidade que muda, que se transforma. São Paulo é a São Silvestre. Demora um pouco, mas, quando entendemos isso, passamos a gostar mais e mais da São Silvestre e de fazer parte dela.



Playlist

Não costumo ouvir música durante as corridas. Fico distraído, perco a observação do meu corpo, do meu esforço, perco o barulho ao redor, o barulhinho bom da corrida. Entretanto, excepcionalmente, na São Silvestre 2016, esqueci de deixar o aparelho de som no guarda volumes e corri acompanhado de trilha sonora. Segue a seleção:

Largada: Deixei de lado o “Carruagens de Fogo” do Vangelis que é executada no áudio oficial da prova para ouvir “For Whom The Bells Tolls”, do Metallica. Pra quê aquecimento, se a gente pode ouvir esse som?

Km 03: Confesso! Eu gosto do A-ha e, de todas as músicas dessa banda, “Hunting High and Low” parece ter sido composta para correr pela Avenida Pacaembú, com 30° a sombra.

Km 05: Na minha opinião, a parte mais difícil do percurso, com subidas, pontes, quebra de ritmo. É a hora de ver quem treinou mesmo. Para esse trecho que, nada melhor que “Going the Distance”, da trilha sonora do Rocky. Injeção de adrenalina nas pernas.
s
Kms 07/08: Tudo plano, vale correr rápido, vale correr devagar, vale tudo, você quem sabe. “Vale Tudo” do Tim Maia e “Sarará Miolo” do Gilberto Gil, vindo com tudo nos fones de ouvido. Só não vale ficar dançando no meio da rua. Estamos só na metade do percurso.

Km 11: Nesse momento da prova, oxigênio vale ouro. Cantarolar uma música bacana pode custar caro no final da prova. Aproveita a passagem pelo Teatro Municipal e vai de música instrumental. Na falta de alguma música clássica no MP3 botei “Moby Dick” do Led Zeppelin pra tocar. Não sei se foi a endorfina agindo, mas, esse som foi uma viagem.

Kms 12, 13 e 14: Muita gente cantou pra subir no ano de 2016. Felizmente, eu tinha no meu MP3 alguns tributos pra prestar para os artistas que se foram. Teve “Ziggy Stardust”, do David Bowie, teve “Kiss” do Prince, teve “Let’s Groove” do Earth, Wind and Fire (Maurice White), “Am I BlackEnough for You”, do Billy Paul e, para terminar, “Orgasmatron” do Motorhead (Lemmy Kilmister).

A playlist terminou no Km 14. Dali em diante, concluindo a subida da Brigadeiro Luiz Antonio, é hora de refletir no ano que se passou, nas escolhas que fizemos, nas nossas decepções e realizações, pensar nas pessoas que continuam presentes nas nossas vidas, naquelas que nos deixaram. Aproveitar o fim do sofrimento da subida para reafirmar aquilo que queremos para o ano de 2017 e que o grito do público na Avenida Paulista seja o nosso combustível pelos próximos 365 dias de nossas vidas.   

Um 2017 corrido para todos!!

Abraços!!

   










quinta-feira, 29 de setembro de 2016

XTERRA ILHABELA: Uma aventura na Mata Atlântica (parte final)




Quando você acumula uma certa experiência de corrida, o tempo pode ser calculado somente com a percepção do próprio esforço. A respiração, a frequência das passadas, o movimento dos braços são os indicadores. Várias vezes saí de casa para correr na rua sem cronômetro, mas, mesmo assim, tinha noção exata de quanto tempo tinha corrido, baseado somente no esforço durante o exercício. É possível até medir com certa precisão os quilômetros percorridos. O corpo e a mente conseguem construir um GPS eficientíssimo e o que é melhor. Corrida exige atenção e observação dos sinais que o corpo emite.

Pois bem, esse GPS humano funciona muito bem na rua, na cidade, no ambiente urbano. Na trilha, deu pane geral. Nem meu corpo e nem minha mente conseguiam dar pistas sobre o tempo e espaço. Aliás, na trilha, o tempo passa muito, muito devagar. Pequenos trechos geralmente são percorridos em muito tempo. Não sei bem o porquê. Preciso praticar mais essa modalidade pra aprender esses detalhes. Acredito que, na corrida em trilha o corredor fica muito mais focado no terreno, no ambiente ao redor, nos riscos de cada aclive, declive, charcos, obstáculos naturais. As passadas não podem ser tão largas, vencemos pequenos obstáculos e não quilômetros como nas corridas de rua.




Dizem que a corrida é um esporte solitário. Concordo! Mas, ainda assim, numa corrida de rua, a multidão, sejam de corredores ou de espectadores, conseguem construir um ambiente festivo. Vide a São Silvestre, a Meia do Rio, ou ainda uma Maratona como a de Nova Iorque, por exemplo. A corrida em trilha é um esporte solitário. Ponto. Durante vários trechos dessa experiência no XTERRA tive a impressão de ser o único competidor, um único louco de um bando que me deixou a própria sorte. Nada de atletas, nada de público. Apenas um corredor e a natureza ao redor. Raros foram os momentos compartilhados com outros corredores, nem que fosse uma piada ou palavra de incentivo. Me senti num daqueles programas de sobrevivência na selva que passam aos domingos, no Discovery Channel.

Solidão total. Quando encontrava outro corredor no caminho, nada de papo furado, concentração total no terreno. Até mesmo os aparelhos sonoros foram deixados de lado. Deixei o meu MP3 em São Paulo. O “batidão” que impulsiona o corredor é  a trilha sonora da mata; os passarinhos, as folhas secas, os zumbidos dos mosquitos, a correnteza do rio, quebrando nas pedras e o barulho da minha respiração, já ofegante!  



Esse povo que organiza o XTERRA é bem gozador mesmo. Acreditem que todos os anos a
organização do evento muda o percurso da corrida! E isso, claro, não quer dizer que a corrida do próximo ano ficará mais fácil ou mais difícil, mas, principalmente, impedem que eu ou qualquer outro corredor virem especialistas em percurso. Acho genial! Uma das maiores queixas dos corredores de rua de São Paulo é a carência de novos percursos. A gente sempre corre onde treina e treina no percurso das corridas, o que, com o passar do tempo, vai ficando bem chato, maçante. O XTERRA é uma surpresa até para os corredores mais experientes;

Debutei num evento que teve praticamente de tudo. A prova percorreu todos os tipos de terreno, até mesmo água. Isso mesmo. Os atletas tiveram que a travessar um rio, com a ajuda de uma corda. Momento tenso da competição. Cansaço, água e pedras escorregadias nunca formam uma combinação muito boa. Atravessei com certa agilidade, mas receoso de um tombo nas pedras que, àquela altura, além de machucar o corpo podia abalar a minha confiança para o restante de uma prova que estava apenas na metade.

 Após o rio, encaramos um trecho duríssimo no meio da mata, com subidas íngremes, que castigaram as pernas. O calor da manhã, a mata  fechada, a irregularidade do terreno, essa estufa chamada Mata Atlântica que impede a evaporação do suor, a desorientação. Sem saber o quanto já tinha corrido e quanto faltava concluir, ante a ausência de marcações, a mente fica confusa. Por duas vezes parei no meio do caminho receoso de estar perdido. Fui “despertado” por outros corredores que se aproximam, ofegantes, barulhentos. Não, não estava perdido! Segue a trilha!

Na saída da mata, mais uma subida em estrada de terra. Subo caminhando desta vez. Aprendi a lição? Não. Caminhar é a única opção. As pernas não aguentariam o desgaste de uma corrida, mesmo um trote poderia lesionar meus músculos, que foram bastante exigidos. Essa primeira subida é acompanhada por outras duas, tão íngremes quanto a primeira. Sofrimento total. Não sinto dores, apenas a incômoda sensação de estar no limite de minhas forças. E o pior; sem saber quanto falta para terminar. As subidas, enfim, parecem ter chegado ao fim, com uma descida igualmente íngreme de terra batida. Aproveito pra correr um pouco, soltar os braços, respirar. Ganho velocidade na descida. Diminuo quando vejo, mais à frente, uma corredora cair e descer, rolando, ladeira abaixo. Parece que só machucou as mãos que amorteceram a queda. Levanta, sacode a poeira e continua correndo.

Emendamos mais uma sequência de subidas e descidas no percurso, sendo que as descidas pareciam bem mais curtas e menos íngremes que as subidas. Avisto uma placa no chão, sinalizando “14km”. Dois terços da prova já tinham virado poeira. Hora de colocar a cabeça no lugar, concentrar, focar na chegada. Apenas mais 8km. Chego ao posto de abastecimento da organização. Água gelada, isotônico e uma das mais belas vistas do litoral de Ilhabela. Ninguém está com pressa. Hora de apreciar a vista, tirar algumas fotografias, hidratar, comer, relaxar, socializar com os outros corredores, enfim, recuperar o corpo e a mente para o final da prova. Aproximadamente 7 km. Olho no cronômetro e já passavam de 2 horas de prova. Talvez, concluísse com 2h40min, talvez após 3 horas. Sei lá, prometi a mim mesmo não olhar mais o cronômetro. Não importa mais. A única marca que importa é a linha de chegada.




Segundo o rapaz da organização disse, tínhamos que fazer mais 02 subidas em terra batida e que correspondia ao trecho mais elevado da trilha e, dali pra frente, eram mais de 6km de descida até a praia. Subimos em marcha, como num pelotão de soldados cansados de guerra. Fora da mata, dos mosquitos, galhos e espinhos, resolvi até tirar a camiseta molhada. Naquele momento, refrescou a pele como se eu tivesse vestindo um casaco de lã. Assim que o terreno aplanou, voltamos a correr. O percurso agora era um ladeirão de paralelepípedos, em ruas estreitas. A vontade de completar a prova era maior que o medo de cair naquela descida. Joelhos exigidos ao máximo. Chegamos ao centro da cidade. Sabadão ensolarado, bastante gente nas ruas, carros, bicicletas, bye bye solidão.

Enfim, de volta ao nível do mar, de volta à praia. Não sei exatamente quantos quilômetros faltam pra chegada, mas, nesse momento, o número pouco importa. A única coisa que importa é cruzar a linha de chegada. Correr na orla da praia, considerando todo o perrengue do percurso, foi um alívio. Pena que o cansaço não me permitiu curtir mais a beleza do lugar, aproveitar mais aquele momento especial, entender o quão grandioso tinha sido aquela jornada e a sua superação. Estava cansado demais pra racionalizar. Como um último desafio, o trecho final do percurso foi na areia fofa da praia. É preciso ter tornozelos de aço, meus amigos, pra aguentar essa raspinha de prova. O volume da música na arena começa a aumentar. Começo a enxergar lá na frente uma tendinha, que pode ser o pórtico de chegada. É o pórtico de chegada, com um tapete de cronometragem que faço questão de pisar com força, como que cravando uma bandeira. O símbolo dos desbravadores. Vim, vi e venci. O XTerra Ilhabela 2016 virou história. Bota essa medalha no peito, garoto!



Entrevista pós prova, hidratação, alimentação e descanso (realizada por um repórter que não quis ser identificado nesse blog):

P: Qual o momento mais sofrido da prova?

R: Ora, meu caro, como sempre, o momento mais sofrido é acordar de manhã cedinho, calçar os tênis e sair de casa pra correr.



P: E as dores? Tem alguma incomodando?

R: Em mim? Não, nenhuma. Vai doer amanhã naqueles colegas que não conseguiram completar a prova.



P: Quais os planos para o futuro?

R: Fazer um "treininho" leve amanhã pra recuperar...



P: E a sua participação no XTerra?

R: Foi ótima, mas, no ano que vem vai ser bem melhor, né!














segunda-feira, 12 de setembro de 2016

XTERRA ILHABELA: Uma aventura na Mata Atlântica (1ª Parte)


Corro. Gosto de correr. Sou um daqueles caras que você provavelmente já encontrou, logo de manhazinha, na volta da balada, de shorts e camiseta, com passos apressados, correndo, sabe-se lá pra onde, sabe-se lá porquê. Sim, sou um corredor de rua. Nem lembro bem o motivo de ter iniciado. Acho que foi a simplicidade da coisa toda, o fato de não precisar de time, regras, equipamentos caros e, sobretudo, não precisar de habilidade. Basta disposição, disciplina e um bom par de tênis e voilá; eis um corredor!


Nos últimos 10 anos a corrida de rua tem feito parte da minha vida. Entre idas, vindas e pausas, já acumulei mais de um milhão de quilômetros em competições e outros tantos milhões em treinos. 5 km... 10km... 15km... 21km... 42km... Não penso em parar. Faço porque a corrida me acalma, desestressa, ajuda a clarear a mente e, ao mesmo tempo, desafia o meu corpo a ser mais rápido, a ir mais longe, a enfrentar as dificuldades. Mente e corpo. Posso dizer que a corrida é a experiência mais espiritual da minha vida.

Nunca gostei muito de correr em parques, esteiras, pistas e ambientes fechados. Gosto da rua, do asfalto, da cidade e seus ruídos característicos. Nascido e criado em São Paulo, meu calçadão é qualquer calçada dessa metrópole. Eis que em algum momento, caros leitores, o asfalto, os semáforos as buzinas dos carros, as luzes dos postes e o latido do cachorro já não são mais suficientes para o desafio da corrida. É preciso ir além, aumentar a dificuldade. Aumenta a dose dessa endorfina. Corrida é vício, bebê!  

Corremos, então, atrás de provas diferentes, exóticas, festivas. Tudo pra alimentar esse vício. Acho que foi por isso que eu me inscrevi no XTERRA ILHABELA. É lógico que passar um final de semana num dos lugares mais belos do Brasil não pode ser considerado algo ruim, mas, correr 22 km, por trilhas, matas, riachos, estradas de terra batidas, ruas de paralelepípedo e, tudo isso em subida. Ah, meus amigos, isso é vício.

Ilhabela é um dos lugares mais lindos que já conheci. Águas cristalinas, praias quase desertas, paradisíacas. Os olhos desse blogueiro ficaram inchados de tanta belezura que testemunharam. Recomendo a visita a todos os amigos. Vale cada centavo. Bem, como o Patativa ainda não é um blog de turismo, passo ao relato do que foi o XTERRA ILHABELA.

Largada:

O XTERRA é um evento esportivo gigantesco e muito bem organizado. Num final de semana, foram realizadas competições de natação em mar aberto, triatlo, mountain bike e duas corridas em trilha: uma de 9 km e a outra de 22 km. Claro que esse blogueiro, com os seus zilhões de quilômetros rodados e mais outros cem anos de experiência, inscreveu-se na corrida mais longa.

A largada da prova estava prevista para o sábado às 08 horas da manhã. De cara observo que muitos corredores vestiam as suas mochilas de hidratação (Hidrobag), que nada mais é do que uma mochila com um reservatório embutido de água. Li no Manual do Atleta que a organização dispunha de 03 postos de hidratação. Quase 01 posto de hidratação a cada 07 quilômetros. Nas minhas contas era mais do que suficiente. Confesso que achei esse desfile de hidrobags  bem exagerado. 

Levei apenas 03 sachês de gel carboidrato e 02 bananinhas Paraibuna
; o melhor repositor energético do mercado. A confiança foi aumentando na medida em que, no pórtico de  largada, estavam apenas algumas centenas de corredores. Comparado às grandes corridas de rua, em São Paulo, estavam apenas alguns “gatos pingados”. Cheguei até a pensar em pódio, Top 10, Top 20...

Começou. Dada a largada o ritmo era muito leve, um trote cadenciado por ruas e vielas no centro da cidade. Apesar do sol forte e do calor, estava tudo sob controle. Primeiros metros e os meus colegas de corrida estão rindo, contando piadas, tirando sarro de um Pokémon que apareceu sabe-se lá de onde. Sério, tinha um cara fantasiado de Pokémon na corrida. Enfim, até então alto astral, como costumam ser todas as corridas.


Com aproximadamente 1 Km percorrido, começamos a subir a (s) montanha (s). Primeiro uma subidinha leve com paralelepípedos, depois outra de terra batida e uma terceira, também, de paralelepípedos. Nessa última vejo boa parte dos meus colegas caminhando. Eu subo correndo, como manda a tradição da rua. Afinal, caminhar na subida é pra quem está destreinado, correto? E o calor vai aumentando. No final da subida entramos numa trilha no meio da mata. Trilha fechada, a tal da “single track”. Todos correndo em fila indiana. Falta firmeza ao terreno, falta convicção aos meus pés.

Escorrego numa escadinha de trilha, daquelas construídas por caiçaras, mas, não caio, é só o susto. No meio da mata o calor é insuportável. Imagine correr numa sauna. Pois bem, correr na Mata Atlântica é um pouco pior que isso. Começo a pingar suor da cabeça aos pés. – É, até que um gole d’agua não faria mal.   

Essa parte da prova termina numa parede surpreendente no meio da mata. Um escadão de 7 ou 8 metros de altura com degraus altos e escorregadios que forçam a minha primeira caminhada. Mas, aí, realmente, não há como correr. Chego molhado no final desse trecho de mata, com uma descida revigorante numa estrada de terra batida. Fora da mata minha pele respira e chego são e salvo no primeiro posto de hidratação. O copinho já vem aberto, poupando um pouco do trabalho. A água evapora na goela. Esse negócio de correr na trilha começa a ficar emocionante!  

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Foi bom, pena que acabou


Enfim, ontem, passamos a régua nos Jogos Olímpicos do Rio. Acabou rápido, com gostinho de quero mais! E, olha, o Brasil organizou uma belíssima Olimpíada! Sem o luxo arquitetônico e tecnológico de Pequim e Londres, mas, muito diferente do lixo que a maioria temia. É bem verdade que, a exemplo do Carnaval – nosso grande evento - deixamos boa parte dos preparativos pra última hora. Foi assim na Vila dos Atletas e na maioria das praças esportivas. Para quem não mora no Rio, como eu, as notícias davam a impressão de que tudo ainda estava na maquete, na pedra fundamental, que não ia funcionar, que não ia ficar pronto, que alguém ia decretar o cancelamento dos Jogos, enfim, uma catástrofe. Amigos, nada disso aconteceu!

Não fomos assombrados com o fantasma mundial do terrorismo e nem com a picada do mosquito. Até a malandragem deu um tempo, sem qualquer intervenção espiritual do Mestre Bezerra, e os turistas puderam curtir os Jogos, numa boa, exceção feita a uma ou outra batida de carteira que nem vale a pena botar na estatística. Segue o jogo, Milton Leite! As coisas por aqui funcionam assim mesmo. O bloco só sai na avenida quando o poder oficial, o paralelo e os interesses econômicos das oligarquias se unem! Quem apostou que ia ter gringo assado no micro-ondas, perdeu! Enfim, no quesito organização, passamos!

No esporte propriamente dito a Olimpíada foi fantástica, como costuma ser. Esses foram os Jogos que marcaram a aposentadoria de Michael Phelps e, talvez, Usain Bolt. Além de ganharem mais um caminhão de medalhas, abandonaram a competição olímpica por cima, como campeões. Essa é a beleza do esporte e fico feliz que o Brasil tenha sido a última página na biografia olímpica desses gigantes. O mesmo não pode ser dito de Yelena Isinbayeva que acabou pagando o pato de uma suspensão generalizada de toda delegação de atletismo da Rússia. Os políticos, os cartolas e médicos que articularam e financiaram toda a patifaria, às custas da saúde dos atletas, estão muito bem, obrigado.

E o Brasil? Bom, o desempenho brasileiro esteve dentro do esperado. A expectativa de 24 medalhas divulgada pela cartolagem era despropositada. Só ganharíamos isso tudo se tivesse umas vinte modalidades diferentes de vôlei. Como só temos vôlei de quadra e de praia, masculino e feminino, ficou de bom tamanho. Não somos uma potência esportiva. Aproveito o ensejo e pergunto ao leitor: Quantas pessoas você conhece que praticam alguma modalidade olímpica? ... (pausa) Futebol da firma não vale! E, musculação não é modalidade olímpica!  ... (silêncio constrangedor).

Esses foram os primeiros Jogos das políticas de incentivo à formação de atletas, que beneficiam,  principalmente, aqueles jovens que vivem em situação social de risco. Gente que até pouco tempo atrás já teria largado o esporte pra trabalhar, ganhar dinheiro e sustentar a família, ou até mesmo teria enveredado para o caminho do crime, hoje, é atleta olímpico, recebe honrarias e medalhas que antes só eram reservadas para aqueles que tiveram acesso a clubes esportivos e escolinhas particulares. Vimos um povo diferenciado nos pódios, como a Rafaela Silva, o Isaquias Queiroz e o Robson Conceição. Todos ainda jovens que têm lenha pra queimar por mais alguns anos. Que o governo provisório, interino, em vias de definitivo, não acabe com tudo.

O futebol finalmente ganhou o seu ouro, mas, deixarei os comentários para os outros colaboradores, principalmente, porque sequer assisti aos jogos. Passamos vergonha no basquete e deixamos a desejar no judô e na vela. A natação brasileira inexiste pós Cielo. E, finalmente, o Diego Hypolito ganhou a sua medalha. Não gosto muito de vôlei, mas, não há como não tirar o chapéu para a seleção masculina que ganhou uma medalha, digamos, improvável. No geral, a campanha brasileira foi boa, fizemos finais, melhoramos desempenho, conseguimos resultados em modalidades até então desconhecidas, enfim, temos grandes atletas, mas, não os foras-de-série. E são esses que, normalmente, ganham as medalhas. Há um longo caminho a percorrer até o pódio em Tóquio 2020.

Iniciamos, hoje, mais um ciclo olímpico. Saem os Jogos da emoção, do choro, da vaia, do “Fora Temer”, e entram os Jogos da modernidade, da tecnologia, da inovação. 2020 parece longe, mas, é logo ali.

...

  

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Por incrível que pareça.

Acabo de ler aqui no UOL essa reportagem pra lá de insólita de um torcedor suíço, chamado Rudolf Bantle, que se perdeu num desses labirínticos estádios de futebol e nunca mais achou o caminho de volta. A história é curiosa, engraçada e até um tanto inverossímil para quem nunca esteve num estádio de futebol, mas, amigos, acreditem, pode acontecer.

Ainda não estive numa dessas arenas modernas, construídas sob o Padrão Fifa, mas, nos velhos estádios de futebol brasileiros, a história do suíço Rudolf Bantle, não tem nada de fantasiosa. Pra se ter uma idéia, os estádios de futebol eram os únicos locais onde era normal, aceitável e até recomendável dois ou mais marmanjos irem juntos ao banheiro. E nem era por conta de nenhuma pederastia. Era questão de segurança mesmo.

Uma vez que o torcedor levantava do seu cantinho pra tirar aquela indispensável água do joelho era praticamente impossível retornar para o mesmo lugar. Ou o torcedor errava o portão e acabava em outro setor do estádio, ou até conseguia voltar, mas, tinha alguém já instalado em seu lugar. O jeito era chamar os amigos para aquele “tour” do intervalo rumo ao banheiro. Onde se perde um, perdem dois, perdem três, mas, juntos. Isso sem falar no risco de entrar no portão de acesso à torcida adversária! O linchamento era inevitável!

Não era a toa que muitos torcedores, receosos de perder o lugar na arquibancada ou de tomar uns sopapos da torcida coirmã, acabavam por aliviar-se do jeito que dava, assim, sem a menor cerimônia. Talvez, se o amigo Rudolf fosse brasileiro, isso não teria acontecido; ele poderia ter feito as suas necessidades num copinho plástico, como mandam as leis da arquibancada.

Amigos, eu acredito na história do suíço. É claro que, no Brasil, um “perdido” dessa proporção raramente aconteceria. Mesmo perdido, o camarada acaba se enturmando, encontra uma galera, pega um ônibus e desce sem pagar, fila um lanche e, mais cedo ou mais tarde, encontra o caminho de casa. Com um suíço é diferente; tem vergonha de pedir um fiado, de pular catraca, enfim, é um lance cultural mesmo. O brasileiro, por sua vez, raramente se perde, exceção feita, é claro, ao perdido proposital muito comum em feriados prolongados e vésperas de Carnaval, mas, nada que se compare à história do nosso herói Rudolf.    

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Nem só de bola vive o homem

Caros leitores! Recentemente, numa “reunião de pauta” do blog, optamos por diversificar as postagens, sair um pouco do futebol. Concordei com essa inovação do Patativa e espero que os nossos fiéis leitores apreciem essa novidade . Entretanto, como membro da Velha Guarda, seguirei falando apenas sobre futebol, dentro das quatro linhas. Acredito que o nobre esporte bretão ainda é capaz de render bons textos e boas histórias.
E, por falar em história, acabo de lembrar de um conhecido que reencontrei semana passada, lá no Ibotirama, da Rua Augusta. Sabe aquele tipo de parceiro de mesa/balcão que sempre preenche algumas horas da noite com uma conversa animada sobre futebol? Que conhece a história do futebol e é capaz de dar uma aula sobre o Esquadrão Tricolor de 1992, sobre o porquê o Telê Santana é o maior treinador de todos os tempos e, claro, sabe explicar para corintianos, palmeirenses e santistas que o São Paulo não foi rebaixado em 1990, com direito a desenhos no guardanapo para os mais lerdos das ideias? Pois bem, é exatamente esse o cara que estou falando. E o melhor; um são paulino da mais pura cepa.
Devo confessar que alguns dos melhores textos que escrevi aqui no Patativa contaram com a consultoria técnica, histórica e etílica desse meu conhecido. Encontrar esse homem, após tanto tempo sem escrever sobre futebol, era uma oportunidade única. Fiquei até tentado a pegar um caderninho de anotações. Acenei da entrada do bar, que já estava apinhadíssimo e, logo, o amigo fez um convite acenando com a cabeça. Estava encostado no balcão. Como tem sido nos últimos anos ele aponta pra garrafa de cerveja e pergunta se aceito um copo. Agradeço, mas, recuso a cortesia. E, pela enésima vez ele pergunta se eu parei mesmo de beber. Respondo, pela enésima vez, que sim e já me apresso a pedir um suco de limão batido no liquidificador com gelo, o meu novo aperitivo de botequim.
Pergunto ao amigo sobre o Tricolor, o time, o Osório, as chances de título, a virada histórica contra o Ceará, no jogo de volta da Copa do Brasil. Ele responde com um lacônico “Estou por fora”. Como assim? O maior são paulino em atividade que eu conheço não tinha disposição pra falar sobre futebol? Esse sim é o fim, caro Marcelo Nova. Pedi mais uma cerveja para o amigo, essa na minha despesa. Ele resolveu desabafar. Disse que estava “meio a fim de uma mina lá do trampo”, que a coisa não ia bem, que não tinha certeza disso ou daquilo, que estava confuso. Enfim, esse meu conhecido padecia de um amor não correspondido no local de trabalho. Um osso duríssimo de roer e que nem sempre acaba bem. Vide os barracos e mal entendidos nas festinhas de confraternização das empresas.
Tentei ajudar, explicando que a conquista amorosa é como ganhar um Brasileirão, tem que marcar pontos em todas as rodadas e, mesmo assim, é possível que algum concorrente da parte de baixo da tabela, atropele todo mundo e ganhe o título, ou melhor, o amor da moça. Ele perguntou, ainda desanimado: - “Tipo o São Paulo, em 2008?”. Sim, claro! Agora bastava saber se esse meu amigo estava no G4, na zona da Libertadores ou na zona da degola da conquista amorosa. Bastava que ele respondesse às seguintes perguntas que foram desenvolvidas por mim, durante anos de pesquisa nesse assunto. Eis:
1 – Já esteve em contato com a moça fora do ambiente de trabalho?
2 – A moça já te chamou para conversar no Whatsapp? (veja bem, leitor, chamar para conversar não é a mesma coisa que responder ao chamado, mesmo que seja um dia depois)
3 – E nas conversas de Whatsapp, quem manda mais emoticons, você ou ela? (sim, isso tem base científica)
4 – A moça já ligou para falar de qualquer assunto que não seja relacionado ao trabalho? (se o leitor respondeu negativamente à pergunta nº 2, nem precisa se dar ao trabalho de responder essa)
5 – Vocês já conversaram sobre assuntos que não dizem respeito à rotina ou ao ambiente de trabalho? Se sim, vocês têm alguma coisa em comum?
Bom o teste é simples, mas, pelas minhas contas o amigo entrou na zona do rebaixamento. Acredito que a moça em questão não sabe nem o nome dele. Lamentável. Expliquei que o teste era tiro e queda e que o melhor a fazer era esquecer aquela paixonite adolescente e se concentrar no que era realmente importante; o jogo de volta contra o Ceará. O Tricolor precisava dele.
Amigos, o homem inflou o peito e se encheu de energia. Foi quase que uma ressurreição ali na minha frente e com o garçom do Ibotirama por testemunha. Tomou o último gole de cerveja, bateu o copo no balcão, num dramaticidade sem propósito e disse: “Você esqueceu de fazer a pergunta mais importante”. Tentei ainda sorver o último gole do suco de limão, mas, só tinha a espuma, bati o copo no balcão atraindo um olhar de reprimenda do garçom e emendei: “Qual pergunta?”. Esse meu amigo sorriu como se tivesse descoberto o final da temporada do Game of Thrones e disse: “Ainda hoje eu perguntei para qual time ela torcia. E sabe o que ela respondeu?”. Nem me preocupei em responder aquela bobagem. Ele prosseguiu: “Ela é são paulina, são paulina, bicho!” E esse meu amigo saiu do Ibotirama, em direção à Paulista, como se fosse comemorar um título, me deixando ali, sozinho, no balcão com uma despesa de 01 suco de limão, 02 Stellas e 01 Steinhaeger que eu nem vi ele bebendo, mas, que o garçom e o gerente do Ibotirama juraram de pés juntos que ele bebeu, sim.
Fiquei ali naquele balcão apinhado de gente por mais alguns minutos tentando entender o que tinha acontecido. Da onde veio aquela demonstração de perseverança? Após alguns minutos, já descendo a Rua Augusta, foi que compreendi o raciocínio daquele “Zé Doidim”. Lembrei que em alguns textos aqui no Patativa ressaltei o quão ilógica e irracional era a paixão clubística, capaz de aglutinar pessoas tão diferentes sob a mesma bandeira, a mesma camisa. No mínimo ele deve ter interpretado que a paixão clubística era capaz, por si só, de enlaçar pessoas diferentes, sem afinidades e sem atração mútua. Que viagem! Enfim, acho que preciso tomar um pouco mais de cuidado com as coisas que escrevo nesse blog.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Eu, Didi e o futebol.

Hoje faz uma semana que meu pai se foi. Nem preciso dizer o quão difícil têm sido esses últimos dias. Ainda estou tentando digerir tudo o que está acontecendo. Mas, mais do que escrever sobre a ausência, a perda, quero utilizar esse espaço do Patativa pra falar sobre futebol e sobre a relação da minha família, do meu pai com o futebol.

Inicialmente, esclareço que meu pai cresceu nos anos 1940. Antes do Maracanaço, antes de Pelé brilhar nos campos da Suécia, antes de o futebol brasileiro, definitivamente, conquistar o mundo. Mas, mesmo assim, o Brasil já era o país do futebol. Sem tanta grana, sem arenas multiuso, sem transmissão de tevê. Ao invés disso, existia um amor inexplicável pelo futebol, que era jogado nos campos de terra batida e assistido por um séquito de fanáticos pelo nobre esporte bretão. Sem novela ou Netflix, o futebol era o verdadeiro passatempo nacional e Leônidas da Silva era o seu maior astro.

Ser reconhecido como grande jogador naqueles tempos era algo um pouco mais difícil do que nos dias de hoje. Não existia videotape ou DVD editado por empresários. Aliás, acho que nem empresário tinha. Numa época em que praticamente todos os garotos nesse país jogavam futebol, os craques somente eram reconhecidos por quem testemunhava in loco as suas habilidades. A fama vinha no boca a boca mesmo.

Meu pai jogou futebol nos anos 1950 e 1960. E, tenho que acreditar que jogou muito bem. Um craque, na opinião de quem o assistiu em campo, comandando o meio de campo das equipes por onde jogou. Ganhou o apelido de Didi. Aquele mesmo da “folha seca”. Mas, nunca foi profissional. Chegou até os juniores do São Paulo FC. Após, foi servir o exército e nunca mais tentou lugar num grande clube. Afinal, os tempos eram outros. Não existia tanto dinheiro no futebol como nos dias de hoje. Não dava pra alimentar o sonho de ser jogador de futebol por muito tempo. Era preciso arrumar um emprego, sustentar a casa, etc... e tal. Mas, isso não impediu que ele jogasse, como amador, por diversos times da várzea, pela Seleção da Federação Paulista de Futebol e, dizem até que jogou no Maracanã.

Eu nunca vi meu pai jogar futebol. Na verdade, acho que assisti, ainda criança, um jogo de futebol de salão, numa quadra perto de casa. Não lembro ao certo. Sei que, naquela época, meu pai já sofria com dores nas articulações do joelho, o que, provavelmente, tornavam o futebol uma experiência mais dolorosa do que prazeirosa.

Quando criança, lembro mais de meu pai me levando à escola ou saindo pra trabalhar e voltando do trabalho já de noitinha. Depois, já aposentado, lembro que era eu quem saía para o trabalho enquanto ele ficava em casa, mas, a sua carreira de jogador parecia algo tão longínquo, tão distante quanto a descoberta do fogo. E, para falar a verdade, meu pai só falava dessa época quando perguntado. Esse passado aparecia, ocasionalmente, sob a forma de uma pergunta dirigida a mim, por quem, em algum momento, viu meu pai jogar: “Você também joga bola?” - talvez tentassem encontrar em mim um novo craque. Logo após, talvez um pouco desapontados com a minha resposta negativa emendavam: “Seu pai jogava muita bola, era craque”! Tem sido assim, e foi assim até no dia do velório de meu pai.

Mas, amigos, por uma dessas ironias da genética nunca joguei futebol na minha vida. No máximo, corri atrás da bola e da canela dos adversários. Sou um cabeça de bagre assumido. O talento com a bola não foi herdado. Atualmente, fujo de qualquer situação que possa me colocar num mesmo espaço físico que um campo e uma bola de futebol. Fiquei, sim, com a paixão pelo São Paulo FC que, na minha família, tem passado de pai pra filho(a) e é quase proporcional à aversão que sinto pelo Corinthians. Aprendi a ser são paulino com o meu pai. Isso mesmo. Ninguém nasce torcedor, a gente aprende a curtir as alegrias e tristezas que um time de futebol proporciona, com o tempo, com a vontade de compartilhar até mesmo o sofrimento. Acho que foi assim com meus irmãos também.

Engraçado. Lembro agora que o último jogo que assisti com meu pai foi já nesses tempos difíceis de hospital, internação, medicação etc. Foi um São Paulo e Corinthians pela Libertadores, transmitido pela televisão do quarto do hospital. Ganhamos o jogo. Meu pai, mesmo acamado, vibrou com a vitória. Foi o nosso último jogo do Tricolor, um clássico contra o Corinthians. E, vencemos. Fico feliz que tenha sido assim. Nenhum corintiano vai tirar sarro no dia seguinte. Você riu por último.

Missão cumprida, Sêo Didi!

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O bem intencionado


Futebol é escola, aprendizado para a vida. E quem diria que no jogo de ontem a noite eu receberia uma lição tão preciosa a ponto de desmentir a sabedoria popular.


De boa intenção o inferno tá cheio.

Repito essa frase há quarenta anos e, até ontem, no final do jogo entre São Paulo e Cruzeiro esse ditado era a expressão máxima do pragmatismo popular. Afinal, caros leitores, a frase do autor desconhecido faz todo o sentido. Não basta que as intenções sejam boas, é fundamental que o resultado seja igualmente bom. Na noite de ontem, um Morumbi apinhado de gente pôde testemunhar que a frase é uma bobagem e que o seu autor, esse sim, merecia ir pro inferno. Explico.

O São Paulo é um time de jogadores bem intencionados. Não digo aqui do caráter dos futebolistas, mesmo porque não conheço nenhum deles. O jogador bem intencionado é aquele que cumpre o plano de jogo do treinador, mas, executa mal quase todas as funções com a bola nos pés. A boa intenção não é traduzida em gols ou em jogadas de efeito. A boa intenção, no campo de jogo, é só suor. E sua porque não domina a técnica do jogo, não conhece os atalhos do campo. O Messi não sua. O Cristiano Ronaldo também não. Mas, o jogador bem intencionado está sempre suando, ofegante, esparramado no chão, gritando de dor ou de desespero e com o uniforme sujo.

Na noite de ontem, tínhamos um time de onze homens bem intencionados, comandados por um treinador interino, igualmente bem intencionado, enfrentando onze camisas azuis do Cruzeiro. Não vi jogador algum do time mineiro, apenas as camisas. Acredito que o time ficou em Belo Horizonte mesmo, assistindo o jogo em algum telão na Savassi. Mandaram pra São Paulo somente o varal de roupas. Bom, isso não é um grande problema, afinal, recentemente, assisti derrotas terríveis do São Paulo para onze baldes, onze cones de sinalização e até mesmo para onze fogos buscapé.

O time Tricolor dominou a posse de bola e a marcação no meio campo, desde o primeiro minuto de jogo. Infelizmente, os nossos meio campistas eram bem intencionados demais para acertar aquele último passe, a chamada assistência e, mesmo quando acertavam, os nossos atacantes eram bem intencionados demais para anotar os gols que poderiam decretar uma derrota de Scolari às camisas do Cruzeiro. Mas, nada feito. A bola só podia estar com má intenção, porque até o árbitro do jogo, um conhecido gatuno sulamericano, parecia que estava bem intencionado também. Mas, aí acho que num outro sentido.

Quando o desespero já tomava conta das arquibancadas do Morumbi e a saliva já escorria do canto da boca desse blogueiro, eis que um dos jogadores mais bem intencionados em campo, o argentino Centurión, aproveitando um cruzamento que veio da direita, anotou de cabeça, num mergulho daqueles que poderia ilustrar a capa do jornal no dia seguinte, se ainda existisse jornal impresso. O mergulho só não foi mais acrobático que o salto que esse blogueiro deu da poltrona, assustado, no despertar de um sono já bem prazeiroso. Mais importante que isso, foi a queda do mito.

Após o apito final do árbitro, ninguém mais poderia gritar num campo de futebol que de boa intenção o inferno tá cheio. O inferno mencionado na frase, seria a derrota ou até mesmo um empate em casa, mas, às vezes, num campo de futebol, a boa intenção é suficiente pra garantir o resultado. E foi exatamente isso que aconteceu. O gol do argentino bem intencionado, de um time bem intencionado, comandado por um técnico igualmente bem intencionado levou o São Paulo e a sua torcida aos céus.










quarta-feira, 6 de maio de 2015

Treino, paciência e canja de galinha aos boleiros da rede pública estadual

O Patativa, agora, atende a uma vontade narcisista desse blogueiro expor as suas experiências pessoais e voltar no tempo, mais especificamente o ano de 1989. No que diz respeito ao futebol, se o leitor não for vascaíno, o ano em questão não teve nada de significativo, exceção feita ao folclórico jogo de Eliminatórias entre o Brasil e o Chile, no Maracanã, que alçou a fogueteira Rosemery como a grande celebridade.

Fogos de artifício à parte, aciono a máquina do tempo desse DeLorean escrito para falar do maior acontecimento daquele ano: a greve dos professores da rede pública do Estado de São Paulo. Foram oitenta dias de paralisação e ameaças de represálias do governo. A maior greve da história da categoria. Se os professores não ganharam tudo que reivindicavam, ao menos ganharam uma boa parte, com um aumento significativo do piso salarial. Entre os perdedores da paralisação estavam os alunos, entre os quais esse blogueiro, que, presos na "Ilha de Lost" do conhecimento, perderam grande parte do currículo previsto para aquele ano letivo.

Como o regulamento daquela paralisação prejudicou todo mundo, não houve rebaixamento, ninguém repetiu o ano. Na verdade, alguns até repetiram, mas, conseguiram sair da zona da degola no tapetão, por meio de recursos que fugiam à lógica matemática. Se bem que esse é um assunto para uma outra oportunidade.

A greve desse ano já dura mais de 50 dias. É mais longa que o Paulistão, por exemplo. E, como veterano do assunto não posso deixar de dar algumas dicas aos estudantes boleiros para o melhor aproveitamento do tempo disponível:

1 – Treine os fundamentos do jogo – se não tem professor na escola pra ensinar, o jeito é rever aquilo que já foi lecionado. Pode parecer bobagem, num primeiro momento, mas, os espanhóis começaram a ganhar tudo quando começaram a treinar exaustivamente os fundamentos do jogo.

2 – Estude os próximo adversários – o segredo desse jogo é antecipação. O técnico não está dando treino, mas, a tabela do campeonato já é conhecida. Não custa nada ir até uma biblioteca pública pra ler os livros que sempre são exigidos nos vestibulares mais concorridos. O jogo ainda está no começo pra vocês, não tem essa de tocar pro lado.

3 – “Treino secreto” - esse assunto é um pouco polêmico. Nos meus tempos de greve alguns professores, extraoficialmente, iam à escola e ministravam aulas, sem anotação de presença dos alunos. Isso, de maneira alguma, significa furar a greve, mas sim, oferecer aos estudantes uma alternativa para o cumprimento do currículo escolar. Agradeço a todos os Mestres que adotam o “treino secreto” em tempos de greve.

Por fim, um pensamento. A luta dos professores não é somente pela grana, pelo vil metal, mas, por condições profissionais dignas. Algo que todo ser humano almeja. Deus me livre ser professor. Não tenho vocação e nem vontade pra isso, mas, respeito e admiro que utiliza o seu tempo, paciência e carinho pra botar algo que preste na cabeça de um semelhante.

Dois anos após a greve, sofri um bocado pra tentar colocar o currículo escolar em dia para o vestibular tal foi o prejuízo da greve, mas, a luta dos professores na campanha de 1989 permitiu, ao menos, sensível melhoria nas condições de trabalho para os professores, diretores e para os alunos que vieram depois. Infelizmente, no perverso jogo político que nos cerca, tais mudanças somente são possíveis pelo instrumento da greve, da paralisação.