quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Com o mundo aos nossos pés.


13 de dezembro de 2012. De fato, é uma data especial. Para nós, são paulinos com mais de 30 anos de idade, o dia de hoje deve ser comemorado. Há vinte anos o São Paulo Futebol Clube ganhava um de seus troféus mais importantes. Para minha geração, foi o troféu mais importante; o nosso primeiro título mundial. Claro que, para o torcedor, todos os títulos, todas as vitórias, todos os grandes momentos do nosso clube do coração ficam guardados num lugar especial da memória, mas, é impossível lembrar daquela noite sem, ao menos, esboçar um sorriso.

Foi realmente uma conquista grandiosa, principalmente, porque reuniu as duas melhores equipes do futebol mundial naquela oportunidade. O Barcelona ainda comemorava o seu primeiro título europeu com um time de dar inveja montado pelo Johann Cruyff. A esquadra tricolor vinha de seu primeiro título sul-americano, sob o comendo do Mestre Telê Santana. Os dois clubes queriam o seu primeiro título intercontinental e o encontro estava marcado para o dia 13 de dezembro de 1992 no lendário Estádio Nacional de Tóquio.

Por uma ironia do destino, as duas equipes se encontraram alguns meses antes no torneio Teresa Herrera, um desses torneios de pré-temporada europeus que, infelizmente, deixamos de participar. O Barcelona, com as pernas pesadas, típicas do início de temporada, não foram páreo para os comandados de Telê Santana. Foram goleados por 4 a 1. Naquela oportunidade o Telê já tinha alertado que o jogo em Tóquio seria bem diferente. Enfrentaríamos um Barcelona voando, em plena temporada, enquanto nós estaríamos no final de uma desgastante temporada brasileira.

O Projeto Tóquio, como ainda era carinhosamente chamado pela torcida, mídia e jogadores envolvia uma verdadeira operação de guerra. Não bastava ter um baita time de futebol, precisávamos nos preocupar com o clima frio japonês, com a comida, com o fuso horário. Felizmente, na época, tínhamos no nosso laboratório o grande Dr. Turíbio Leite de Barros e, em campo, um time acostumado a superar qualquer adversidade, seja no inverno japonês ou no altiplano boliviano. E estávamos preparadíssimos para a peleja contra os catalães.

Nos dias de hoje toda essa preparação, fisiológica, nutricional e física parecem óbvias, mas, no início da década de 1990 o Brasil ainda patinava na união de esporte e ciência e o São Paulo era vanguarda nesse particular com uma comissão técnica multidisciplinar de dar inveja.


No dia do jogo, ou melhor, na noite do jogo, todos os são-paulinos estavam otimistas com a vitória. É lógico que o Barcelona tinha um timaço, com Koeman, Stoichkov, Zubizarreta, Guardiola e Laudrup, mas, eu não percebia no alto da minha sabedoria de dezessete anos nenhuma apreensão. Aliás, eu nunca ficava lá muito apreensivo com aquele time. O grande barato daquele time do Sêo Telê era o fato de que todos os torcedores tinham certeza da vitória, mesmo quando o time perdia.

Na entrada das duas agremiações em campo notei a tranqüilidade e confiança no semblante dos nossos heróis, principalmente do nosso capitão Raí. A vitória seria uma questão de tempo. Recentemente, o nosso Capitão Raí disse que, no primeiro lance do jogo, queria fazer uma jogada de efeito, pra motivar o restante do elenco e mostrar que o bicho do outro lado não era tão feio. Tentou um chapéu, justamente no seu marcador, o jovem Pep Guardiola.

Logo no início do jogo a surpresa; o Barcelona sai na frente com um gol do Stoichkov de fora da área, sem chance para o nosso arqueiro Zetti. A vantagem inicial do Barcelona serviu para atiçar a nossa equipe que partiu com tudo para cima dos espanhóis. Numa jogada genial do Muller, pela esquerda, que driblou de maneira desconcertante o Ferrer e cruzou para a área para a conclusão do Raí. 1 a 1 no placar e jogo equilbrado em campo.

Na lateral do campo, tanto o Telê quanto o Cruyff permaneciam tranqüilos, meio que admirando a exibição futebolística das duas equipes. O jogo continuou equilibrado durante toda a segunda etapa, mas, mesmo assim, eu continuava acreditando na vitória: Não era possível! Ou o Muller, ou o Palhinha ou o Raí tirariam algum coelho da cartola no final do jogo, pensei. E, pasmem, foi exatamente isso que aconteceu. O Palhinha sofreu uma falta na entrada da área e o Raí foi pra batida. Close no rosto do nosso capitão - “O Raí vai meter essa bola na gaveta”. Dito e feito. 2 a 1 pro Tricolor. Até o Sêo Telê levantou do banco pra comemorar.

Falta pouco mais de dez minutos. Vamos segurar esses gringos na unha. Acabou! Vitória! Festa em São Paulo, festa no Brasil! O Brasil estava carente de títulos mundiais, então, valia a pena comemorar, brindar o resgate de nosso futebol, independente da cor da camisa. Para os são-paulinos, aquela noite foi inesquecível. Foi difícil pegar no sono depois. E quem precisa dormir? Que o dia amanheça logo para eu rever os gols do Raí dezenas de vezes, para desfilar o orgulho de ter o melhor futebol do mundo. Para o nosso time, aquela foi a cereja no bolo de uma geração que cresceu perdendo uma final de título brasileiro, em 1990, para o arqui-rival Corinthians, mas deu a volta por cima, conquistando o Brasil, a América e o Mundo. Para o nosso saudoso Mestre Tele Santana aquele título representou a redenção de seu nome. Se era o título mundial que faltou em 1982, agora não faltava mais nada.

Parabéns Tricolores de todo o mundo.

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