quinta-feira, 28 de junho de 2012

Homenagem – 500 postagem – Copa 1982



Pois bem, amigos.

Chegamos à postagem número 500.

Não sei quantos de vocês nos acompanham desde o início. Também não sei quanto tempo durará esse nosso bate papo sobre o esporte. Chegamos a um número de postagem significativa, pelo menos para nós. E creio que continuaremos com essa nossa brincadeira por alguns anos.

Para comemorar esse feito, decidimos todos nós, os colaboradores, escrever sobre a Copa de 1982. Sim, a mais enigmática passagem do futebol arte. A história da Copa para a Seleção Brasileira, eliminada pela Itália, é traumática e nostálgica para uma geração de torcedores; parte dessa geração está aqui, mostrando um pouco do que sentiram e presenciaram naquela época.

Espero que apreciem os textos elaborados pelos colaboradores do Patativa da Bola.:

Alexandre Bianchini,
Mario Gambetti,
César Augusto de Oliveira e
Sérgio de Oliveira.







A PERDA DA INOCÊNCIA
Por Alexandre Bianchini


O país esperava muito da seleção de 1982. Tínhamos perdido o “Complexo de vira-latas” com o título de 1958, reafirmado o bom momento com o título de 1962 e sofrido um tropeção em 1966, mas recuperado a confiança com o inédito terceiro título em 1970, com uma mescla de jogadores experientes dos títulos anteriores e novos talentos. As copas de 1974 (vítimas da magia tática da Laranja Mecânica) e 1978 (onde perdemos o título numa semi final, digamos, estranha) não tinham sido suficientes para abalar a confiança no talento do jogador brasileiro, que encantava a torcida com seu futebol arte.

Temos ainda de situar historicamente a coisa: o último título tinha vindo no momento em que o regime militar começava a esticar suas asas. O AI-5 tinha apenas 2 anos, e militantes da esquerda acreditavam que a solução para o fim do regime militar era a luta armada, que tinha sido bem sucedida na Rússia pós 1ª Grande Guerra e em Cuba, mas que já tinha fracassado na vizinha Bolívia. O futebol serviu para “distrair” a atenção popular dessa situação interna conflituosa. Em 1982, o país vivia uma fase de abertura democrática gradual, com a população empolgada, a MPB passando por um auge após o relaxamento da Censura, eleições livres e com a participação de mais partidos (no regime militar tínhamos apenas a Arena – governista – e o MDB, para onde foi a oposição que não foi cassada e/ou exilada), e essa “onda positiva” se refletia no “escrete canarinho”.

O time de 1982, no papel, era excelente. Que seleção poderia escalar jogadores do calibre de Careca, Eder, Sócrates, Serginho, Zico, Falcão, Cerezo, Júnior e Leandro? Um time que jogava com habilidade, toque de bola refinado, e mesmo os integrantes mais “trombadores” eram habilidosos. Não tinha como não dar certo. Não era um time que fosse muito eficiente na defesa, mas o ataque compensava com louvor essa deficiência – ou característica, como preferem alguns. Enquanto os europeus se agarravam à ortodoxia do futebol de resultados, o Brasil tinha um time de virtuoses, que “jogava por música”, um time que relembrava épocas mais inocentes, a pureza do futebol arte.

Admito que minhas lembranças do jogo em sí não eram das melhores, então fui buscar as imagens no São You Tube para relembrar o que tinha acontecido com a “seleção dos sonhos” e como esse sonho virou pesadelo. Pesquisei diversas imagens, e paradoxalmente as que encontrei em melhor estado estavam justamente com narração em italiano... Ví e reví as imagens, conversei com colegas mais velhos que se lembravam melhor da partida, e não encontrei uma certeza. Itália merecia ganhar? Brasil merecia perder? Onde a partida foi ganha pela Itália? Onde o Brasil a perdeu? Mesmo vendo a gravação na íntegra do jogo (sim, o You Tube a tem...) não dá para encontrar uma resposta defintiva para essas questões.

Um amigo sustenta a tese que o que selou a eliminação do Brasil foi o 3º gol italiano, fruto de uma bobagem homérica da defesa brasileira, onde um recuo de bola para o goleiro absolutamente desnecessário originou o 1º escanteio que a Itália cobrou no jogo e que resultou no gol.

Minha tese é um pouco diferente: o Brasil perdeu o jogo no 2º gol italiano. Vejamos: a Itália fez o 1º gol com 5 minutos, numa distração da zaga brasileira. O Brasil reagiu e no 12º minuto empatou. Até aquí, tudo bem, OK? Aí, numa saída de bola em que Valdir Peres colocou a bola em jogo com a mão na direção do lateral direito, este preferiu passar a bola para o lado ao invés de a lançar para o ataque. O jogador que a recebeu também preferiu passar a bola para o lado – afinal, para que a pressa? O talento e o futebol arte acabariam vencendo, como já tinham vencido anteriormente na primeira fase da Copa e no jogo contra a arquirrival Argentina. O jogador com a bola, Cerezo, poderia ter passado a bola para frente, devolvido para o lateral direito, feito um lançamento longo... ao invés disso, preferiu manter a bola na defesa. Tinha 3 jogadores à sua esquerda (Oscar, Luizinho e Falcão), e poderia ter passado a bola diretamente para qualquer um deles. Lançou a bola no meio deles, afinal, como jogadores habilidosos qualquer um deles poderia dar prosseguimento à jogada. Nenhum viu Paolo Rossi, que já tinha feito o primeiro gol, marcando a saída de bola. Na hesitação de quem iria pegar a bola, Rossi correu, dominou a bola, foi na direção do gol e chutou na saída de Valdir Peres, colocando a Itália novamente na frente. A imagem pós gol é emblemática: os jogadores voltam na direção do meio campo cabisbaixos, sem acreditar no que tinha acontecido. Psicologicamente derrotados. A partir desse momento, os jogadores brasileiros passaram a errar jogadas de ataque e chutes a gol que normalmente acertariam. Tanto que o segundo gol do Brasil veio apenas no 2º tempo, num chute a distância de Falcão. Sete minutos depois, a falha de Luizinho, recuando de cabeça para o goleiro uma bola que ele poderia perfeitamente ter deixado passar, dominado com os pés e passado para o meio de campo brasileiro – o jogador italiano mais próximo estava a mais de 4 metros de distância –, mas que resultou no escanteio e no 3º gol italiano.

Depois disso o Brasil foi para o ataque, mas a Itália fez o que sabia fazer de melhor – se fechara na defesa – e só não ampliou o placar num contra ataque pois o bandeirinha viu um impedimento inexistente no lance do 4º gol italiano. E assim o Brasil foi eliminado da Copa de 1982.

Foi o momento da perda da inocência. Dalí para frente, o Brasil ainda teria um time que jogava bonito na Copa de 1986 (onde foi eliminado nas quartas de final pela França), teve um amontoado de jogadores ao invés de um time na Copa de 1990 e só voltaria a ser campeão na Copa de 1994, onde os habilidosos Romário e Bebeto eram o toque de arte numa seleção defensiva dominada pelo “xerifão” Dunga. Uma seleção que venceu mas não convenceu, e que como compensação trouxe o caneco de campeão para casa, ao contrário da talentosa seleção de 1982.











O BOTECO E O GUARANÁ
Por Sérgio Oliveira

O boteco cheio. É quase hora do jogo. Eu ainda era criança, continuo sendo quando lembro daquela época. O mascote é minha maior e mais querida lembrança. A Copa da Espanha foi o meu primeiro contato com a competição mais importante do mundo. Não sabia ainda a dimensão de tudo aquilo. Só sabia que o boteco estava cheio. Desce mais um guaraná, hoje é dia. Os comentários de que a Seleção Brasileira de Pelé havia renascido naquele ano, depois de doze anos do último título nacional.

Exagero ou não, a seleção marcou história. Marcou não apenas pelos números, mas pelo jeito. Parte dela formada de um time que arrancava risos e sorrisos dos torcedores, o Flamengo. Outra parte dos melhores jogadores dos times espalhados pelo Brasil. Naquela oportunidade estavam os melhores em campo, sem bandeira ou politicagem. No banco um gênio: Telê Santana. Técnico que tinha na bagagem apenas  alguns títulos estaduais como treinador. Foi ele quem recriou para o mundo o futebol arte.

Era dia da seleção. Dia em que a nação parava. Ninguém hoje imagina uma única torcida de futebol, com a mesma bandeira, as mesmas buzinas e as ruas cheias. Na parte da manhã ajudei pintar as ruas com as cores do Brasil; eu estava agora no boteco. E ele estava cheio. Mais um guaraná? Guaraná que era nome genérico de qualquer refrigerante. Tempo ufanista, talvez. As ruas pintadas, pessoas eufóricas. Homens, mulheres (quando não era tão comum mulher gostar e acompanhar futebol); todos estavam com o Brasil em campo.

Chegando a hora, vamos embora. O boteco iria continuar cheio. Entro na sala e fico perto da televisão. Não lembro quem narrava, nem lembro de todos os jogadores. E resolvi escrever assim mesmo, com a falta de nitidez do tempo. Quem são eles? Lembro-me de Sócrates, Zico, Falcão e Éder. Lembro-me de Valdir Peres e Toninho Cerezo. E lembro dos gols. Gols maravilhosos. Lembro-me que apenas a seleção brasileira possuía a bola. Algo que o Barcelona anda fazendo; para referência dos novos idolatras do futebol arte.

Mas lembro o desânimo do final do jogo. Lembro que alguma coisa não tinha dado certo. Afinal, como um time daqueles poderia perder? Pois, a derrota ficou no passado como uma injustiça. E do time fantástico ainda recordamos de forma nostálgica, romântica  e entusiástica. O Brasil é o país do futebol! Nunca tinha visto o Brasil ser campeão! Um time como aquele, então, seria maravilhoso. Não apenas os brasileiros ficariam felizes, mas o mundo inteiro. O nascimento de um futebol que até hoje queremos ressuscitar, mas que sempre perde fôlego quando o negócio é resultado. Perdeu. Derrota tão incompreensível como tantas que acontecem por ai. Perdeu como faz parte o mundo do futebol.

O boteco estava cheio, mas o barulho era diferente. Eu na sala não sabia se chorava ou se voltava para a ficção da infância. As coisas são mais fáceis quando somos crianças. Mas alguma coisa ficou estranha, alguma sensação que até hoje incomoda. Aquela da injustiça, da derrota ser amarga, imerecida. Não compreendo ainda, depois de tantos anos, que o direito do futebol é torto para muita gente. Brasil da Copa de 1982 foi uma das mais belas equipes de futebol, mas assim como outras seleções grandiosas, venceu apenas na história.

As ruas foram perdendo as cores durante os anos. O brilho da seleção brasileira ainda ficou fortalecido por mais algumas copas. Mas o futebol tinha mudado seu curso (mais uma vez), pegando um atalho que até hoje faz sucesso; com o futebol defensivo; tacanho e covarde. E nossa nostalgia é livre e honesta, quando queremos rever a seleção brasileira em algum momento jogando por ai; mas ao mesmo tempo é fingida; já que nos torcedores nos acostumamos com o futebol de resultados.

O boteco continuou cheio em 1994, mas o barulho era diferente.







A ESTREIA
Por Mário Gambetti.

Estava chegando a hora. O clima de Copa do Mundo já estava tomando conta de todos: ruas pintadas, decoradas com bandeirolas, propagandas na TV com álbuns de figurinhas, promoções, e jogos já sendo televisionados. Claro, que para mim (um garoto de 8 anos) tudo aquilo era uma novidade.

Morava ainda com meus avós e tios, que ainda estavam para casar. Muita gente em casa, e quando tinha jogo de Copa, se transformava num verdadeiro evento, com a casa cheia de gente pois também havia convidados. Muita expectativa e otimismo para a estreia da Seleção Brasileira na Copa, pois tínhamos um baita time e um técnico que era praticamente uma unanimidade. Minha mãe trabalhava numa loja, e comprou pra mim uma camisa do Brasil e algumas bandeiras de plástico, que vendiam muito naquela época. Um bandeirão verde-amarelo também foi estendido na janela da sala que ficava na parte superior do sobrado.

Voltemos agora ao dia 14 de junho de 1982. Brasil x URSS, jogo da estreia da Seleção. Na sala, todos já reunidos:

“Futebol de laboratório”, um dos comentários na sala que lembro pouco antes de começar a partida contra a União Soviética: “É um futebol baseado no preparo físico” tentava explicar alguém. Outra pessoa (meu tio, se não me engano) dissera: “Futebol de laboratório é um estudo que se faz para saber qual o melhor jogador para cada posição” (complementava, e certo ou não, esta deveria ter sido a explicação mais contundente, pelo menos para mim). A verdade é que o tal “futebol de laboratório” dos soviéticos foi um termo que surgiu na Copa de 1958 e não em 1982. Também não sei se o pessoal sabia disto. Mas isto eu só descobriria muitos anos mais tarde. Foi com esta formação que a Seleção estreou na Copa da Espanha, em Sevilha: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Luizinho, Júnior; Falcão, Zico, Sócrates; Dirceu (Paulo Isidoro), Serginho e Éder. 

Começa o jogo e a seleção canarinho, é quem comanda as ações do jogo, atacando a URSS. Mas por volta dos 30’ do primeiro tempo, o tal do Bal arrisca um chute de fora da área e Valdir Peres engole um frango. Aí... já viu. Indignado, me dirigi ao meu tio (aproveitando o coro da sala que reclamava do goleiro) e disse: “Tá vendo. O Valdir Peres é frangueiro!” Meu tio (são-paulino) tentou defendê-lo: “Não é não!”. Fim do primeiro tempo, e o tal do “futebol de laboratório”, vencia o futebol-arte por 1x0.

Na segunda etapa, um verdadeiro massacre da Seleção. Foi a hora de aparecer o goleiro Dasayev. “Este tal goleiro de laboratório pega tudo mesmo”, parecia que a bola nunca iria entrar. Dasayev aguentou bem o bombardeio. Até aparecer a genialidade de Sócrates. Aos 30’ ele se livrou de dois soviéticos e chutou de fora da área no ângulo direito do goleiro. Que golaço! Que vibração! Rojões por toda parte. A angústia pelo gol havia terminado, nós comemorávamos e eu vi, em forma de pintura, o primeiro gol da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo.

Mas queríamos mais. E o segundo gol veio aos 42’. Passe de Paulo Isidoro (que fez um partidaço quando entrou no segundo tempo) para Falcão que deixara a bola passar no meio das pernas, chegando a Éder que deu um leve toque, levantando a bola e enganando o goleirão Dasayev, que como um robô enferrujado nem se moveu. Outro golaço, e eu corria feito um besta pela casa querendo abraçar quem estivesse na minha frente, afinal todos também se abraçavam e se cumprimentavam. Que alegria foi.

Primeiro desafio vencido: 2x1 e o tal futebol de laboratório não nos botava mais medo. Encerrava-se uma invencibilidade de 23 jogos da União Soviética. 32 finalizações brasileiras contra 7 soviéticas. A Seleção era puro ataque e pura arte. Buzinaços nas ruas, rojões e aquelas comemorações que virariam depois rotina. Mas para mim todo este clima e comemorações ainda eram novidade. Afinal foi apenas a estreia. A da Seleção Brasileira naquela edição, e a minha, em Copas do Mundo. Há 30 anos...






O DIA QUE NÃO ACABOU
Por César Augusto de Oliveira

É bom demais ter sete anos. Principalmente quando você é garoto, no Brasil, e gosta de futebol (oras, que garoto de sete anos não gosta?) e, em ano de Copa do Mundo, então, é o paraíso na terra. O sonho, ou melhor, a Copa do Mundo, começa muito antes do apito inicial. Sabem todos aqueles Guias da Copa, que são publicados em tudo quanto é jornal, revista, caixa de sucrilhos e bula de remédio? Pois bem, guardei todos durante semanas. Todos eles tinham alguma informação valiosa ao pequeno fã de futebol. “O que significa mesmo essa sigla da União Soviética? Ah tá, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas”. “Como é mesmo o nome do craque da Alemanha Ocidental? Eu sei, é o Karl Heiz Rummenigge”. Se não tinha a informação no Guia, o jeito era buscar na Enciclopédia Barsa e, se nessa também não tinha, era porque a informação nem era tão importante. Deixa pra lá.

Da nossa seleção eu sabia o nome, posição e clube em que jogava cada um de nossos craques. Nem podia ser diferente. O Brasil parava pra assistir todo e qualquer amistoso preparatório. Se durante o jogo da seleção não tivesse uma televisão ligada no escritório ou na repartição era certeza que algum torcedor mais aflito ia sair para um café ou um cigarro e dar aquela bisbilhotada no jogo. Acompanhei todos os jogos amistosos e as partidas das Eliminatórias. Iríamos para o Mundial para levantar o caneco, sem sombra de dúvidas. E eu estava feliz por fazer parte de um momento tão importante, talvez o mais importante e solene da minha existência de apenas sete primaveras.

A abertura da Copa, num sábado, foi demais. Argentina e Bélgica fizeram um jogo tenso, nervoso, só não estavam mais tensos do que eu, que praticamente não dormi na noite anterior e, ainda, após o jogo tive que anotar o resultado do match em cerca de cinquenta tabelas da Copa que estavam espalhadas pela casa. O dia da estreia da nossa seleção só aumentou a expectativa inicial. O jogo ia ser duro. A gente ia enfrentar os russos da União Soviética e o seu goleiro Dassaev. O medo tornou-se realidade no gol soviético. Um chute de longe que o nosso Valdir nem viu. Saímos para o intervalo perdendo o jogo e eu, a paciência. Mas, no segundo tempo, em dois lances geniais do Sócrates e outro do Falcão que culminou no golaço do Éder viramos o jogo e ganhamos na estreia. Noite de festejar nas ruas, com direto a buzinaço e fogos de artifício.

Passado o susto inicial a nossa seleção começou a jogar o seu melhor futebol, com passes precisos no meio campo, tabelas, triangulações, enfim, com muito daquilo que convencionamos chamar de futebol-arte. Ganhamos com facilidade da Escócia e da Nova Zelândia. A festa, a empolgação tomou conta do nosso país, ou melhor, do meu bairro, o que para um garoto de sete anos é quase um mundo inteiro. A Copa só não era melhor porque as aulas ainda não tinham acabado. Era difícil chegar em casa no início da tarde, assistir ao jogo das 12 horas, estudar e ainda acompanhar o jogo das 16 horas. Rotina difícil, mas que tinha data pra acabar. Dia 05 de julho era o último dia de aulas e, depois, férias, ou melhor, eu poderia dedicar todo o meu dia à Copa do Mundo, principalmente ao hábito de organizar as minhas tabelas que já estavam desatualizadas.

A segunda fase do Mundial estava pra começar e o nosso time ia enfrentar a Argentina e a Itália. Sabia que a Argentina era a atual campeã (informação do Guia) e que tinha um jovem muito talentoso na sua equipe, um tal de Maradona. Confesso que não achava esse time argentino tão bom assim e, de mais a mais, o Guia não falava nada que esse país vizinho era o nosso maior rival. No jogo contra Argentina o nosso time estava bem relaxado, tocando a bola. Alguns argentinos ficaram um pouco nervosinhos e abusaram da pancadaria. O Maradona pareceu-me um jogador sujo, não no seu futebol, mas, no cabelo mesmo. Achava que aquela cabeleira devia estar cheio de piolhos, afinal, não por outro motivo, as professoras mandavam a gente manter o cabelo bem cortadinho. Ganhamos tão fácil que nem fiquei preocupado. Pude curtir cada lance daquele jogo e da atuação do Zico. Pelo que vi até aquela altura ninguém podia segurar o nosso time. Passadas as festas juninas, quadrilhas e outros festejos era chegado o último dia de aulas, o último sinal de chamada, a última recomendação da tia, como eram carinhosamente chamadas as nossas professoras; “Não esqueça de cortar o cabelo, hein!” Tá vendo Sr. Maradona?

Naquele dia o jogo era contra a Itália, o mesmo time que empatou com os Camarões (um país com nome de petisco de praia?). Almocei tranquilo, sem pressa alguma. Cada garfada uma plano para aquelas férias de muito futebol. Nem me importei tanto quando o Luciano do Valle que, num grito abafado, sem empolgação alguma narrou o primeiro gol italiano. Alguém grita da sala: “Foi gol deles!” Sem pânico, afinal, isso já aconteceu em outras partidas. E quem tem Zico, Sócrates, Falcão, Cerezo, Junior e Serginho não fica preocupado com gol de Itália nenhuma.  Nem bem tomei o meu assento no sofá e o nosso Doutor Sócrates empata o jogo.  Quase no final do primeiro tempo perdemos uma bola na intermediária e os italianos marcam de novo. 2 a 1 e final de primeiro tempo. Só precisamos de um empate pra classificar. E o fizemos da forma mais espetacular possível. Numa trama de nosso meio campo o Falcão empatou o jogo e tranquilizou a nossa torcida. Mas, por incrível que pareça, logo em seguida os italianos desempataram. 3 a 2 e pouco tempo no relógio. Pressionamos o adversário e até conseguimos um ultimo lance, mas, o goleiro deles defendeu. O árbitro apita o final do jogo.

Como assim final de jogo? É só isso? Estamos fora da Copa? E as minhas férias? E as minhas tabelas, os meus guias? Acabou tudo? Quando você é um menino de sete anos de idade sonha em ser o rei do mundo, de um mundinho bem pequeno, pra falar a verdade. Aquele era o meu mundo, a única coisa que realmente importava e sobre a qual eu pensava ter o domínio. A Copa, com todas as suas cores, bandeiras, camisas, tabelas e guias era o meu reino. E, de uma hora pra outra o reino caiu.  Nem sei se, na época, eu tinha a exata dimensão do que era um jogo de futebol. Acho que até hoje não sei. Não consegui sentir raiva ou pena de nossos jogadores. Nem tampouco coloquei a culpa no nosso técnico. Nada disso. Afinal, como bem disse o Jorge Mautner em uma de suas pérolas: “tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento ”. A minha sorte foi ter apenas sete anos. Nessa idade nenhum sofrimento, por mais profundo que seja, é tão duradouro. No dia seguinte, primeiro dia de férias, um céu ensolarado dá as boas vindas aos jovens torcedores. Enquanto alguns já preparam o cerol para as suas pipas maranhão outros começam a separar os times na quadra da pracinha. Será que eu consigo jogar no próximo?

Enfim, nem o futebol, nem o meu mundo acabou. Permanece aquele distante dia 05 de junho de 1982 na memória, vindo à mente como uma miragem, de tempos em tempos,lembrando, caso algum dia eu esqueça, do quão belo pode ser o jogo de futebol, mesmo que o placar, ao final do jogo, não dê tantos motivos para celebrar.






2 comentários:

Cesar Augusto disse...

Bom, a idéia do texto a 8 mãos pareceu, no início, muito boa, depois bateu uma apreensão. Imaginei que 4 textos sobre o mesmo assunto ia parecer chato, enfadonho, repetitivo. No final, lendo o resultado, acho que foi legal. Não imaginei que os textos fossem ficar tão diferentes. Ainda bem. Podemos repetir em outras oportunidades.

No mais, fico feliz que após 500 textos a gente ainda tenha o mesmo fôlego do primeiro texto e continuamos falando sobre futebol, com a suavidade que o assunto exige, sem cafajestada, sem impor a sua paixão clubística na base das ofensas e do dedo na cara. Legal. Vida longa ao nosso Patativa da Bola.

Sérgio Oliveira disse...

Ficou bom mesmo. Conhecendo um pouco o jeitão que cada um escreve, fiquei imaginando que os textos seriam diferentes. Mário um pouco mais estatístico (detalhista, talvez) era uma das minhas certezas.....kkk

Gostei também....