“...nossa
cidade é muito grande
e tão
pequena
tão
distante do horizonte
do país...”
Fui até o album dos Engenheiros
do Hawaii, do ano de 1986, pra buscar a inspiração pro post que reinaugura esse
espaço, meio documental meio Forrest Gump desse blogueiro; as Histórias do
Brasileirão. A letra da música Longe
Demais das Capitais, que dá nome ao disco da banda gaúcha de pop/rock caiu
como uma luva no título desse post sobre o Campeonato Brasileiro de 1966, que,
pela primeira vez, em 06 anos, não teve como campeão uma equipe do Estado de
São Paulo, nem tampouco do Rio de Janeiro; os dois maiores centros do futebol
brasileiro.
A Taça Brasil de 1966 reuniu 22
equipes, representando 21 federações nacionais. Eram elas: Rio Negro/AM,
Confiança/SE, ABC/RN, Sampaio Correa/MA, Campinense/PB, Flamengo/PI,
Desportiva/ES, Rabello/DF, Paysandu/PA, CSA/AL, Internacional/SC, Fortaleza/CE,
Anápolis/GO, Ferroviário/CE, Americano/RJ, Vitória/BA, Grêmio/RS, Náutico/PE,
Santos e Palmeira/SP, Fluminense/GB e Cruzeiro/MG. O formato de disputa era
muito parecido com os anos anteriores, em rodadas eliminatórias, sendo que o
Palmeiras entraria apenas numa fase de quartas de final, para enfrentar o
vencedor das regiões Norte e Nordeste, que naquele ano foi o Náutico/PE e
Santos e Fluminense entravam direto na fase semifinal.
O Palmeiras, então vice-campeão
paulista, foi derrotado pelo Náutico em 03 jogos e eliminado da competição. Melhor
sorte não tiveram os pernambucanos que, após eliminar o Palmeiras tiveram que
enfrentar o Santos na fase semifinal. Após uma vitória santista por 2 a 0 e uma
revanche pernambucana de 5 a 3, em pleno Pacaembú a decisão ficou para uma
terceira partida, apenas 02 dias depois, na capital paulista. O glorioso time
alvirrubro do atacante Bita, desta vez não aguentou a melhor técnica do time
santista e saiu derrotado por 4 a 1. Apesar disso, se vale como consolo para os
torcedores do Náutico, anos após esse confronto, o Rei Pelé, ao ser perguntado
sobre quais foram as melhores equipes que enfrentou ele teria respondido; - o
Cruzeiro de Tostão, o Palmeiras de Ademir da Guia e o Náutico de Bita. Okay! Não sei discute com o Rei, mas,
acho que nesse caso ele quis fazer uma média com a torcida pernambucana.
Enfim, o Santos já estava na
grande final, faltava saber quem seria o vice-colocado. O Fluminense era uma
referência técnica na época. Sabem aqueles times que brilhavam nas exibições do
“Canal 100”, nas salas de cinema, com jogadores movimentando-se como bailarinos?
Se não sabem é só assistir aqui. Bom
o Fluminense enfrentaria o campeão das regiões Central e Sul, que naquele ano
era o Cruzeiro/MG. Um time que já era conhecido dos cariocas por ter conseguido
algumas vitórias contra times do Rio de Janeiro. No primeiro jogo, no Mineirão,
o técnico tricolor Tim, que não era bobo nem nada, sabendo da impetuosidade dos
mineiros resolveu controlar o jogo com muito toque de bola, bem a moda do
futebol carioca. Logo na saída os
tricolores resolveram fazer a bola voltar para o goleiro Jorge Vitório, para
tentar esfriar o time da casa. Só que Tostão interceptou o passe do zagueiro
Caxias e entregou a bola para Evaldo abrir o placar com 30 segundos de jogo.
Nem bem o torcedor mineiro tinha chegado ao estádio o jogo já estava decidido, restando
aos cariocas somente defender os ataques rápidos dos mineiros e torcer pra não
tomar mais gols. A partida terminou em 1 a 0.
No jogo de volta, no Maracanã, o
Rio de Janeiro presenciou uma invasão mineira não vista em nenhum período de
férias de verão ou feriado prolongado. Dezenas de ônibus foram fretados para
levar os torcedores cruzeirenses para o jogo. Com a ajuda da torcida do
Flamengo, do Botafogo e do Vasco a torcida celeste conseguiu dividir o
Maracanã, meio a meio com o time da casa. Sim, meus leitores, esse negócio de
invasão ao Maracanã não é uma invenção de corintiano. Dez anos antes os
mineiros já dividiam o estádio com os tricolores cariocas. Num gramado pesado,
devidos ás fortes chuvas na cidade do Rio de Janeiro, os mineiros colocaram o
time tricolor na roda. Fizeram três gols com absoluta tranquilidade, sem dar um
milímetro de chance ao time do Fluminense. Superioridade incontestável. Até o
gol do Fluminense foi anotado por um jogador do Cruzeiro, Piazza, que tentou
cortar um cruzamento que acabou estufando as redes do arqueiro Raul (sim, o
comentarista). O lance valeu uma provocação até certo ponto desnecessária na
manchete do jornal Diário da Tarde: “Cruzeiro
fez até o gol do Fluminense”. Fim de papo com 3 a 1 no placar a favor dos
mineiros. Apesar da incontestável vitória, ao final do jogo, o técnico
cruzeirense Aírton Moreira ainda deu um sutil recado para o pessoal da baixada
santista; “Estamos satisfeitos, mas devemos dizer que o Cruzeiro não jogou tudo o
que sabe e pode”.
Antes de contar como acaba essa
Taça Brasil, vale a pena destacar que o mapa do futebol, naquela época, era bem
diferente do que é hoje. Pra falar a verdade, o mapa do futebol brasileiro
resumia-se a dois estados; São Paulo e o Estado da Guanabara. Qualquer time
fora desses dois lugares era parte da periferia do futebol brasileiro. Essa
hegemonia, além de técnica, era sobretudo política. Logo a seleção brasileira na
época tinha que contar com um número equivalente de atletas paulistas e
cariocas e a escolha do técnico sempre gerava discórdia, pois, se o técnico
fosse carioca, a imprensa paulista metia-lhe a porrada, exigindo esse ou aquele
jogador de algum time de São Paulo. Se o técnico fosse paulista a recíproca também
era verdadeira. Não é exagero afirmar que, até o ano de 1966, o maior torneio
do futebol brasileiro era o Rio-São Paulo. Portanto, quando um time fora desse
eixo, ou seja, longe das capitais do futebol brasileiro, alcançava uma vitória
contra os grandes times paulistas ou cariocas, era motivo de grande satisfação,
uma façanha heroica mesmo.
Com o Mineirão lotado, no que
viria a ser a maior renda da época, o Cruzeiro entrava em campo para enfrentar
o poderoso time do Santos. No primeiro tempo de jogo a equipe da baixada não
viu a cor da bola. Jogadores como Evaldo, Tostão e Dirceu Lopes deram o tom a
uma verdadeira sinfonia celeste, enquanto que Pelé, do outro lado, permanecia
muito bem vigiado pelo cão de guarda Piazza. Os gols cruzeirenses foram sendo
anotados com uma naturalidade espantosa. A primeira metade do jogo termina 5 a
0 para os mineiros, mas, o público ficou com aquela sensação de que poderia até
ter sido mais. No segundo tempo Toninho Guerreiro anota dois gols para os
santistas, mas, um gol de Dirceu foi a pá de cal no ímpeto dos comandados de
Lula e o jogo terminou 6 a 2. Athiê Cury, o presidente do Santos, não se sabe
se por superstição ou deboche mesmo, mandou a taça do torneio para o vestiário
do Cruzeiro, para que ficasse em Belo Horizonte até a segunda partida. O então
presidente cruzeirense Felício Brandi além de não aceitar a cortesia, mandou
devolver a taça com o seguinte recado: “Tá
bom, é muito bonita, mas, agora que já a conhecemos, podem levá-la de volta;
semana que vem vamos buscá-la em São Paulo”.
Num Pacaembú com aproximadamente
30 mil pessoas, Santos e Cruzeiro voltaram a se enfrentar. Muita chuva, campo
enlameado e a estratégia paulista era clara; forçar as bolas longas para a
velocidade de Pelé e Toninho Guerreiro. O Santos, com mais força no meio campo
dominou as ações no primeiro tempo. Não demorou muito para o Santos abrir
vantagem de 2 a 0 no placar. Após incessante pressão santista o primeiro tempo
termina com uma vitória parcial que garantiria uma terceira partida. Foi aí que
Athiê Cury, sempre ele, foi ao vestiário cruzeirense, acompanhado do presidente
da Federação Paulista, para combinar com Felício Brandi a data e horário da
terceira partida. Foi expulso imediatamente. A situação criada pelo presidente
santista encheu de brios os jogadores mineiros que voltaram dos vestiários
confiantes na virada. Nem o pênalti perdido por Tostão no início da segunda
etapa foi suficiente para esmorecer o time celeste. Jogando o fino da bola, como
na primeira partida e com Pelé praticamente casado com Piazza, não foi difícil
ao Cruzeiro empatar e virar o jogo. Final da partida e vitória cruzeirense por
3 a 2. Era o início da festa nas Minas Gerais.
Na chegada do Cruzeiro a Belo
Horizonte, milhares de pessoas esperavam o time no Aeroporto da Pampulha. Numa
festa sem igual na capital mineira, os jogadores desfilaram em carro aberto com
a recém-conquistada Taça Brasil. Um título que não foi apenas inédito para
Minas Gerais, mas, serviu para mudar o eixo Rio-São Paulo no futebol
brasileiro. Existia,sim, futebol além da via Dutra. A partir daquele momento
Minas Gerais estava definitivamente incorporada ao mapa do nosso futebol, com
seus craques e times fantásticos. A seleção brasileira, também, nunca mais foi
a mesma após a conquista cruzeirense. A partir daquela noite de 1966, paulista
e cariocas tiveram que aceitar que jogadores vindos de outros centros poderiam
ser titulares da camisa canarinho. A conquista da Copa de 1970, quase quatro
anos depois deixou isso bem claro. Em
1967, o grande torneio nacional, o Rio São Paulo, pela primeira vez abria as
suas portas para times de outros estados, como Minas, Paraná e Rio Grande do
Sul e passava a ser chamado pelo nome de Torneio Roberto Gomes Pedrosa, ou
Robertão para os mais íntimos. A partir desse momento começamos a abandonar o
velho pensamento bairrista, provinciano, de paulistas e cariocas. A conquista
do Cruzeiro abriu uma nova página no futebol brasileiro, o início de uma
mentalidade realmente nacional.
Um comentário:
Teve até repercussão internacional, e muitos cruzeirenses consideram a maior façanha alcançada pelo clube. Definitivamente mudou a geografia do futebol brasileiro.
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