segunda-feira, 27 de maio de 2013

Longe Demais das Capitais (As histórias do Brasileirão chegam ao ano de 1966)

“...nossa cidade é muito grande
e tão pequena
tão distante do horizonte
do país...”

Fui até o album dos Engenheiros do Hawaii, do ano de 1986, pra buscar a inspiração pro post que reinaugura esse espaço, meio documental meio Forrest Gump desse blogueiro; as Histórias do Brasileirão. A letra da música Longe Demais das Capitais, que dá nome ao disco da banda gaúcha de pop/rock caiu como uma luva no título desse post sobre o Campeonato Brasileiro de 1966, que, pela primeira vez, em 06 anos, não teve como campeão uma equipe do Estado de São Paulo, nem tampouco do Rio de Janeiro; os dois maiores centros do futebol brasileiro.

A Taça Brasil de 1966 reuniu 22 equipes, representando 21 federações nacionais. Eram elas: Rio Negro/AM, Confiança/SE, ABC/RN, Sampaio Correa/MA, Campinense/PB, Flamengo/PI, Desportiva/ES, Rabello/DF, Paysandu/PA, CSA/AL, Internacional/SC, Fortaleza/CE, Anápolis/GO, Ferroviário/CE, Americano/RJ, Vitória/BA, Grêmio/RS, Náutico/PE, Santos e Palmeira/SP, Fluminense/GB e Cruzeiro/MG. O formato de disputa era muito parecido com os anos anteriores, em rodadas eliminatórias, sendo que o Palmeiras entraria apenas numa fase de quartas de final, para enfrentar o vencedor das regiões Norte e Nordeste, que naquele ano foi o Náutico/PE e Santos e Fluminense entravam direto na fase semifinal.

O Palmeiras, então vice-campeão paulista, foi derrotado pelo Náutico em 03 jogos e eliminado da competição. Melhor sorte não tiveram os pernambucanos que, após eliminar o Palmeiras tiveram que enfrentar o Santos na fase semifinal. Após uma vitória santista por 2 a 0 e uma revanche pernambucana de 5 a 3, em pleno Pacaembú a decisão ficou para uma terceira partida, apenas 02 dias depois, na capital paulista. O glorioso time alvirrubro do atacante Bita, desta vez não aguentou a melhor técnica do time santista e saiu derrotado por 4 a 1. Apesar disso, se vale como consolo para os torcedores do Náutico, anos após esse confronto, o Rei Pelé, ao ser perguntado sobre quais foram as melhores equipes que enfrentou ele teria respondido; - o Cruzeiro de Tostão, o Palmeiras de Ademir da Guia e o Náutico de Bita. Okay! Não sei discute com o Rei, mas, acho que nesse caso ele quis fazer uma média com a torcida pernambucana.

Enfim, o Santos já estava na grande final, faltava saber quem seria o vice-colocado. O Fluminense era uma referência técnica na época. Sabem aqueles times que brilhavam nas exibições do “Canal 100”, nas salas de cinema, com jogadores movimentando-se como bailarinos? Se não sabem é só assistir aqui. Bom o Fluminense enfrentaria o campeão das regiões Central e Sul, que naquele ano era o Cruzeiro/MG. Um time que já era conhecido dos cariocas por ter conseguido algumas vitórias contra times do Rio de Janeiro. No primeiro jogo, no Mineirão, o técnico tricolor Tim, que não era bobo nem nada, sabendo da impetuosidade dos mineiros resolveu controlar o jogo com muito toque de bola, bem a moda do futebol carioca.  Logo na saída os tricolores resolveram fazer a bola voltar para o goleiro Jorge Vitório, para tentar esfriar o time da casa. Só que Tostão interceptou o passe do zagueiro Caxias e entregou a bola para Evaldo abrir o placar com 30 segundos de jogo. Nem bem o torcedor mineiro tinha chegado ao estádio o jogo já estava decidido, restando aos cariocas somente defender os ataques rápidos dos mineiros e torcer pra não tomar mais gols. A partida terminou em 1 a 0.

No jogo de volta, no Maracanã, o Rio de Janeiro presenciou uma invasão mineira não vista em nenhum período de férias de verão ou feriado prolongado. Dezenas de ônibus foram fretados para levar os torcedores cruzeirenses para o jogo. Com a ajuda da torcida do Flamengo, do Botafogo e do Vasco a torcida celeste conseguiu dividir o Maracanã, meio a meio com o time da casa. Sim, meus leitores, esse negócio de invasão ao Maracanã não é uma invenção de corintiano. Dez anos antes os mineiros já dividiam o estádio com os tricolores cariocas. Num gramado pesado, devidos ás fortes chuvas na cidade do Rio de Janeiro, os mineiros colocaram o time tricolor na roda. Fizeram três gols com absoluta tranquilidade, sem dar um milímetro de chance ao time do Fluminense. Superioridade incontestável. Até o gol do Fluminense foi anotado por um jogador do Cruzeiro, Piazza, que tentou cortar um cruzamento que acabou estufando as redes do arqueiro Raul (sim, o comentarista). O lance valeu uma provocação até certo ponto desnecessária na manchete do jornal Diário da Tarde: “Cruzeiro fez até o gol do Fluminense”. Fim de papo com 3 a 1 no placar a favor dos mineiros. Apesar da incontestável vitória, ao final do jogo, o técnico cruzeirense Aírton Moreira ainda deu um sutil recado para o pessoal da baixada santista;  “Estamos satisfeitos, mas devemos dizer que o Cruzeiro não jogou tudo o que sabe e pode”.

Antes de contar como acaba essa Taça Brasil, vale a pena destacar que o mapa do futebol, naquela época, era bem diferente do que é hoje. Pra falar a verdade, o mapa do futebol brasileiro resumia-se a dois estados; São Paulo e o Estado da Guanabara. Qualquer time fora desses dois lugares era parte da periferia do futebol brasileiro. Essa hegemonia, além de técnica, era sobretudo política. Logo a seleção brasileira na época tinha que contar com um número equivalente de atletas paulistas e cariocas e a escolha do técnico sempre gerava discórdia, pois, se o técnico fosse carioca, a imprensa paulista metia-lhe a porrada, exigindo esse ou aquele jogador de algum time de São Paulo. Se o técnico fosse paulista a recíproca também era verdadeira. Não é exagero afirmar que, até o ano de 1966, o maior torneio do futebol brasileiro era o Rio-São Paulo. Portanto, quando um time fora desse eixo, ou seja, longe das capitais do futebol brasileiro, alcançava uma vitória contra os grandes times paulistas ou cariocas, era motivo de grande satisfação, uma façanha heroica mesmo.

Com o Mineirão lotado, no que viria a ser a maior renda da época, o Cruzeiro entrava em campo para enfrentar o poderoso time do Santos. No primeiro tempo de jogo a equipe da baixada não viu a cor da bola. Jogadores como Evaldo, Tostão e Dirceu Lopes deram o tom a uma verdadeira sinfonia celeste, enquanto que Pelé, do outro lado, permanecia muito bem vigiado pelo cão de guarda Piazza. Os gols cruzeirenses foram sendo anotados com uma naturalidade espantosa. A primeira metade do jogo termina 5 a 0 para os mineiros, mas, o público ficou com aquela sensação de que poderia até ter sido mais. No segundo tempo Toninho Guerreiro anota dois gols para os santistas, mas, um gol de Dirceu foi a pá de cal no ímpeto dos comandados de Lula e o jogo terminou 6 a 2. Athiê Cury, o presidente do Santos, não se sabe se por superstição ou deboche mesmo, mandou a taça do torneio para o vestiário do Cruzeiro, para que ficasse em Belo Horizonte até a segunda partida. O então presidente cruzeirense Felício Brandi além de não aceitar a cortesia, mandou devolver a taça com o seguinte recado: “Tá bom, é muito bonita, mas, agora que já a conhecemos, podem levá-la de volta; semana que vem vamos buscá-la em São Paulo”.

Num Pacaembú com aproximadamente 30 mil pessoas, Santos e Cruzeiro voltaram a se enfrentar. Muita chuva, campo enlameado e a estratégia paulista era clara; forçar as bolas longas para a velocidade de Pelé e Toninho Guerreiro. O Santos, com mais força no meio campo dominou as ações no primeiro tempo. Não demorou muito para o Santos abrir vantagem de 2 a 0 no placar. Após incessante pressão santista o primeiro tempo termina com uma vitória parcial que garantiria uma terceira partida. Foi aí que Athiê Cury, sempre ele, foi ao vestiário cruzeirense, acompanhado do presidente da Federação Paulista, para combinar com Felício Brandi a data e horário da terceira partida. Foi expulso imediatamente. A situação criada pelo presidente santista encheu de brios os jogadores mineiros que voltaram dos vestiários confiantes na virada. Nem o pênalti perdido por Tostão no início da segunda etapa foi suficiente para esmorecer o time celeste. Jogando o fino da bola, como na primeira partida e com Pelé praticamente casado com Piazza, não foi difícil ao Cruzeiro empatar e virar o jogo. Final da partida e vitória cruzeirense por 3 a 2. Era o início da festa nas Minas Gerais.

Na chegada do Cruzeiro a Belo Horizonte, milhares de pessoas esperavam o time no Aeroporto da Pampulha. Numa festa sem igual na capital mineira, os jogadores desfilaram em carro aberto com a recém-conquistada Taça Brasil. Um título que não foi apenas inédito para Minas Gerais, mas, serviu para mudar o eixo Rio-São Paulo no futebol brasileiro. Existia,sim, futebol além da via Dutra. A partir daquele momento Minas Gerais estava definitivamente incorporada ao mapa do nosso futebol, com seus craques e times fantásticos. A seleção brasileira, também, nunca mais foi a mesma após a conquista cruzeirense. A partir daquela noite de 1966, paulista e cariocas tiveram que aceitar que jogadores vindos de outros centros poderiam ser titulares da camisa canarinho. A conquista da Copa de 1970, quase quatro anos depois deixou isso bem claro.  Em 1967, o grande torneio nacional, o Rio São Paulo, pela primeira vez abria as suas portas para times de outros estados, como Minas, Paraná e Rio Grande do Sul e passava a ser chamado pelo nome de Torneio Roberto Gomes Pedrosa, ou Robertão para os mais íntimos. A partir desse momento começamos a abandonar o velho pensamento bairrista, provinciano, de paulistas e cariocas. A conquista do Cruzeiro abriu uma nova página no futebol brasileiro, o início de uma mentalidade realmente nacional.


   

Um comentário:

Mario disse...

Teve até repercussão internacional, e muitos cruzeirenses consideram a maior façanha alcançada pelo clube. Definitivamente mudou a geografia do futebol brasileiro.