Paulo André
na China. Ganha os dirigentes esportivos, perde o Bom Senso FC. Pelo menos é
isso que diz a maioria da imprensa esportiva. Não quero pensar diferente. No
entanto, mesmo sabendo que haverá um enfraquecimento, isso não me incomoda. Até
porque não encontrei nenhum motivo para apoiar a causa. Sinto dificuldade em
revoluções desse tipo, onde só existe o dedo na ferida, mas não a proposta de
cura. Todos nos sabemos que o calendário precisa ser reformulado, que jogadores
precisam de melhores condições de trabalho (pelo menos a maioria dos
profissionais não têm uma parte do privilégio dado aos trabalhadores das
grandes equipes) e que há uma necessidade de se organizar o futebol de fora do
campo para dentro.
O Bom Senso
dizia tudo isso, mas não ia além. A proposta de mudança não pode ignorar
grandes personagens de todo esse complexo mundo do futebol. Não existe melhoria
sem a concordância de quem manda. Globo, CBF e os patrocinadores não podem ser
colocados de lado, esperando que obedeçam sem queixas as reclamações (ou mesmo
imposições) dos jogadores de futebol. O primeiro erro do movimento foi
exatamente a falta de política, apoio das pessoas influentes e uma organização
mais homogênea. Dentro do movimento, ou pelo menos os poucos que falavam em
nome dele; existia certa confusão que transmitia um grupo sem uma identidade.
Uns concordavam e outros não. Uns criticavam o próprio movimento do qual faziam
parte. Paulo André, portanto, era a única voz coerente, mas única.
A ida de
Paulo André é enigmática. Afinal de contas, parece ser uma piada de mal gosto o
jogador querer brigar tanto por melhores condições de trabalho e ir direto para
a China. Nada contra o país, nem seu povo; mas todos nós sabemos os problemas
enfrentados naquela região. Embora o futebol chinês tenha crescido nos últimos
anos (e precisa crescer muito para se tornar mediado), ainda é ignorado por
completo pela mídia nacional. Assim, se Paulo André não desistiu das ideias do
Bom Senso, é quase certo que ele fará discurso para um público bem menor, e
praticamente sem qualquer interesse em reivindicações sindicais.
Há quem diga
que o seu papel ficou facilitado. Já que havia uma pressão dentro do próprio
clube para que ele maneirasse no falatório. Não parece ser um absurdo que o corporativismo
tenha sido um obstáculo na iniciativa de melhoria proposta pelo jogador e seus
companheiros. Os jogadores mais influentes estão satisfeitos com seus empregos,
com modo de gerenciamento dos clubes e se adaptaram ao calendário corrido e
confuso do Brasil. Caso contrário, a iniciativa do Bom Senso teria ganhado um
eco maior, revertendo situações; corrigindo falhas. Mas não foi isso que vimos
nos últimos meses. Até mesmo a questão da segurança, item colocado às pressas
na agenda do movimento, não foi necessariamente uma unanimidade.
Paulo André
terá melhores condições de colocar a cabeça no lugar estando fora do olho do
furacão. Quem sabe crie um manifesto mais detalhado, melhor discutido e
amplamente divulgado. Do jeito que está hoje, e pela repercussão do movimento, não dá para ter saudade. Nem dá para se sentir
frustrado. A proposta poderia ser nobre, correta e muito eficiente para o
futebol; mas foi por completo ignorado. Culpa nossa, que não nos interessamos pela
discussão; culpa dos jogadores que não abraçaram a ideia. Mas a maior culpa
mesmo é do movimento, que se organizou sem imaginar, por exemplo, que a ausência de uma
pessoa poderia interferir tanto no futuro da empreitada.
Enfim, se
existia algo de novo com o Bom Senso, parece que acontecerá apenas no final do
contrato de Paulo André com o seu atual clube e quando ele voltar aposentado da
China. De resto vamos aguardando o aparecimento de outro líder, de novas
propostas e novamente a indicação aos dirigentes de futebol que algo precisa
ser mudado.
Uma hora dá
certo.
2 comentários:
Eu acho que esse foi o primeiro grande buraco na barca do Bom Senso. O Paulo André, ao que tudo indica, entregou os pontos após o silêncio do movimento no episódio da invasão do CT. O movimento precisa de líderes, com espaço na mídia e que carreguem um certo tipo de apoio popular pra que possam discutir em igualdade de condições com os dirigentes e a televisão, sem deixar os jogadores famosos com o pé atrás. Ou seja, os ídolos do futebol brasileiro precisariam aparecer, mostrar a cara. Do jeito que estava só o Paulo André dava a cara a tapa, o restante só ficava nos bastidores. A gota d'água, na minha opinião, foi o silêncio complacente da "classe" dos jogadores de futebol paulistas, principalmente dos ídolos das torcidas, por pura conveniência e interesse político. As políticas do "beija mão" e do "bom cabrito não berra", ainda parecem ser as únicas que os boleiros entendem. Infelizmente, Paulo André é mais um visionário que entregou os pontos no futebol brasileiro. Estava aguardando pra o Bom Senso nesse espaço, mas, acho que nem será preciso. Sem o Paulo André, ou melhor, sem o boi de piranha esse movimento morre no nascedouro.
Digo: "Estava aguardando pra discutir o Bom Senso nesse espaço, mas, acho que nem será preciso..."
Postar um comentário