quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Paulista perdeu a graça, ainda que seja de graça.

 

Eis que chegamos à terceira rodada do campeonato paulista. Confesso que nunca me senti tão confortável ao escrever um torneio de tanta importância com letras minúsculas. Há muito tempo é minha forma de protesto, ainda que um protesto sutil. Estou amparado não pela gramática; mas por muitos fatores que estão transformando a maior competição regional do país em uma anedota. Condições técnicas, calendário e regras malucas acabam contribuindo mais um pouco com o desleixo de nós, torcedores, pelo campeonato. A coisa ficou um pouco pior depois de ouvir declarações de dois grandes nomes de dois grandes clubes paulistas: Rogério Ceni e Paulo André não esconderam a insatisfação por tudo que está acontecendo com o futebol em São Paulo.

O primeiro disse claramente, através de um questionamento irônico e revelador: Afinal o campeonato paulista nos leva para onde mesmo? É claro que há razão no que ele disse, mas também existe uma distorção do entendimento sobre o futebol. O jogo é jogado, é o ditado; e se joga pelo título. Essa mania de que uma competição precisa condecorar uma equipe para uma competição com status melhor é coisa inventada recentemente, mais um dos malefícios da sede pela Libertadores. Rogério Ceni deveria ficar muito feliz por um título, mesmo que esse título seja o de Campeão Paulista.

Paulo André foi um pouco mais discreto, mas também muito coerente. Revelou que se fosse torcedor não gastaria o valor cobrado pelo ingresso por uma partida do campeonato paulista. Existe ai a situação de custo versus benefício: o futebol apresentado é muito ruim para o preço, ou o preço é muito alto pelo futebol apresentado? Torcedores brasileiros vão pagar o triplo por um jogo das seleções na Copa do Mundo. Vale a pena o preço pelo que andam apresentando as equipes no campeonato paulista?

Tenho dúvidas se vale assistir, de graça, pela televisão.

Frases como as duas servem para desprestigiar ainda mais o campeonato paulista. Se os jogadores não acreditam nele, qual o motivo que eu tenho para acreditar na competição? Também serve de alerta, que não apenas os torcedores (que andam esvaziando cada vez mais os estádios e ficando fãs virtuais de clubes estrangeiros) estão decepcionados como o futebol brasileiro, como os próprios jogadores se cansaram dele. Um paradoxo incrível, já que são os jogadores os principais elementos do futebol.

A vontade da mudança ainda é discreta, quase imperceptível. Tanto que há grande tendência de que os dirigentes que comandam nosso futebol sejam reverenciados em novas eleições. O mais do mesmo está por vir, como acontece há mais de três décadas. Deve existir uma explicação interessante para tudo isso, mas com certeza uma explicação que nos deixará ainda mais distante do futebol. Os acordos, lobbys, ganhos extraordinários com uma indústria que move milhões e milhões todos os anos. Possivelmente ninguém perdeu tanto dinheiro, caso contrário alguma revolução já teria acontecido. A verdade é que no mundo político, tanto para cidadãos como para torcedores, deve ser cheio de enigmas indescritíveis, impublicáveis e um tanto decepcionantes.

O que resta para mim, ou para torcedores tão desiludidos como eu, é a opção de um desinteresse pelo futebol, uma total alienação de “notícias que cercam o mundo do futebol”.  Não saber, ou saber com tanta indiferença, que hoje se realizará um grande clássico do campeonato paulista, mas que acaba sendo visto de forma vulgar, quase sem sentido.


Amanhã me contem o resultado, vou dormir depois da novela.



2 comentários:

Cesar Augusto disse...

Não entendi bem os comentários de Rogério Ceni e Paulo André. Desculpe, talvez, seja porque eu sou do tempo que o jogador promovia o torneio que o seu clube participava e não utilizava a imprensa para bombardeá-lo. Parece que jogadores, federações, clubes e a televisão estão em disputa, numa guerra que vitima apenas os torcedores, aqueles que querem ter o prazer de curtir a sua paixão inocente pelo futebol e pelo seu clube de coração. Eu não acompanho o Paulista e não acompanharia esse torneio mesmo que garantisse vaga pra Champions League. Eu pretendo assistir quando começar a valer mesmo, nas fases mais agudas, quando o jogo é importante por si mesmo e não porque vale vaga pra alguma coisa. Vaga é só pra vestibulando e concursando; time grande tem que ganhar título, mesmo que seja o do paulista.
Se o campeonato é ruim, é culpa das federações que organizam, dos clubes que aceitam, da televisão que paga e não promove e, também, dos jogadores. O nível técnico é baixo. Paulo André tem razão, em parte. Eu não pagaria o preço dos ingressos que são cobrados no regional, como, também, não pagaria no Brasileiro (que dá vaga) e na Libertadores (que dá vaga pro vice campeonato mundial)? Por que? Porque é o espetáculo é de baixa qualidade.
A discussão é um pouco longa e eu tenho sérias reservas aos comentários de Rogério Ceni, Paulo André e de outros jogadores do movimento Bom Senso. Na minha opinião, o "bom senso" era uma boa idéia, mas, na execução, age como um Black Bloc da bola e, como tal, não terá vida longa. Mas, esse é um assunto para uma outra discussão.

Mario disse...

Antigamente eu assistia até XV de Jaú x XV de Piracicaba se passasse, pois sabia que o jogo seria bom. Agora, conforme o Sérgio disse, um clássico desperta pouco interesse nesta competição. Assisto jogos do meu time (o que já requer uma boa dose de paciência), mas não paro mais pra ver outro jogo, a não ser que contenha algum atrativo, o que tem sido difícil ultimamente.