Eis que
chegamos à terceira rodada do campeonato paulista. Confesso que nunca me senti
tão confortável ao escrever um torneio de tanta importância com letras minúsculas.
Há muito tempo é minha forma de protesto, ainda que um protesto sutil. Estou amparado
não pela gramática; mas por muitos fatores que estão transformando a maior
competição regional do país em uma anedota. Condições técnicas, calendário e
regras malucas acabam contribuindo mais um pouco com o desleixo de nós,
torcedores, pelo campeonato. A coisa ficou um pouco pior depois de ouvir
declarações de dois grandes nomes de dois grandes clubes paulistas: Rogério
Ceni e Paulo André não esconderam a insatisfação por tudo que está acontecendo
com o futebol em São Paulo.
O primeiro
disse claramente, através de um questionamento irônico e revelador: Afinal o
campeonato paulista nos leva para onde mesmo? É claro que há razão no que ele
disse, mas também existe uma distorção do entendimento sobre o futebol. O jogo é
jogado, é o ditado; e se joga pelo título. Essa mania de que uma competição precisa
condecorar uma equipe para uma competição com status melhor é coisa inventada
recentemente, mais um dos malefícios da sede pela Libertadores. Rogério Ceni
deveria ficar muito feliz por um título, mesmo que esse título seja o de Campeão
Paulista.
Paulo André
foi um pouco mais discreto, mas também muito coerente. Revelou que se fosse
torcedor não gastaria o valor cobrado pelo ingresso por uma partida do
campeonato paulista. Existe ai a situação de custo versus benefício: o futebol
apresentado é muito ruim para o preço, ou o preço é muito alto pelo futebol
apresentado? Torcedores brasileiros vão pagar o triplo por um jogo das seleções
na Copa do Mundo. Vale a pena o preço pelo que andam apresentando as equipes no
campeonato paulista?
Tenho dúvidas
se vale assistir, de graça, pela televisão.
Frases como
as duas servem para desprestigiar ainda mais o campeonato paulista. Se os
jogadores não acreditam nele, qual o motivo que eu tenho para acreditar na
competição? Também serve de alerta, que não apenas os torcedores (que andam
esvaziando cada vez mais os estádios e ficando fãs virtuais de clubes estrangeiros)
estão decepcionados como o futebol brasileiro, como os próprios jogadores se
cansaram dele. Um paradoxo incrível, já que são os jogadores os principais
elementos do futebol.
A vontade da
mudança ainda é discreta, quase imperceptível. Tanto que há grande tendência de
que os dirigentes que comandam nosso futebol sejam reverenciados em novas eleições.
O mais do mesmo está por vir, como acontece há mais de três décadas. Deve existir
uma explicação interessante para tudo isso, mas com certeza uma explicação que
nos deixará ainda mais distante do futebol. Os acordos, lobbys, ganhos
extraordinários com uma indústria que move milhões e milhões todos os anos. Possivelmente
ninguém perdeu tanto dinheiro, caso contrário alguma revolução já teria
acontecido. A verdade é que no mundo político, tanto para cidadãos como para
torcedores, deve ser cheio de enigmas indescritíveis, impublicáveis e um tanto
decepcionantes.
O que resta
para mim, ou para torcedores tão desiludidos como eu, é a opção de um
desinteresse pelo futebol, uma total alienação de “notícias que cercam o mundo
do futebol”. Não saber, ou saber com
tanta indiferença, que hoje se realizará um grande clássico do campeonato
paulista, mas que acaba sendo visto de forma vulgar, quase sem sentido.
Amanhã me
contem o resultado, vou dormir depois da novela.
2 comentários:
Não entendi bem os comentários de Rogério Ceni e Paulo André. Desculpe, talvez, seja porque eu sou do tempo que o jogador promovia o torneio que o seu clube participava e não utilizava a imprensa para bombardeá-lo. Parece que jogadores, federações, clubes e a televisão estão em disputa, numa guerra que vitima apenas os torcedores, aqueles que querem ter o prazer de curtir a sua paixão inocente pelo futebol e pelo seu clube de coração. Eu não acompanho o Paulista e não acompanharia esse torneio mesmo que garantisse vaga pra Champions League. Eu pretendo assistir quando começar a valer mesmo, nas fases mais agudas, quando o jogo é importante por si mesmo e não porque vale vaga pra alguma coisa. Vaga é só pra vestibulando e concursando; time grande tem que ganhar título, mesmo que seja o do paulista.
Se o campeonato é ruim, é culpa das federações que organizam, dos clubes que aceitam, da televisão que paga e não promove e, também, dos jogadores. O nível técnico é baixo. Paulo André tem razão, em parte. Eu não pagaria o preço dos ingressos que são cobrados no regional, como, também, não pagaria no Brasileiro (que dá vaga) e na Libertadores (que dá vaga pro vice campeonato mundial)? Por que? Porque é o espetáculo é de baixa qualidade.
A discussão é um pouco longa e eu tenho sérias reservas aos comentários de Rogério Ceni, Paulo André e de outros jogadores do movimento Bom Senso. Na minha opinião, o "bom senso" era uma boa idéia, mas, na execução, age como um Black Bloc da bola e, como tal, não terá vida longa. Mas, esse é um assunto para uma outra discussão.
Antigamente eu assistia até XV de Jaú x XV de Piracicaba se passasse, pois sabia que o jogo seria bom. Agora, conforme o Sérgio disse, um clássico desperta pouco interesse nesta competição. Assisto jogos do meu time (o que já requer uma boa dose de paciência), mas não paro mais pra ver outro jogo, a não ser que contenha algum atrativo, o que tem sido difícil ultimamente.
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