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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Não seremos mais os mesmos?



Alguma coisa grave aconteceu. Embora eu ainda não saiba definir exatamente, uma coisa é certa: o futebol em mim não é mais o mesmo. Pode ser que a coisa mude com o passar do tempo, pode ser que daqui alguns dias eu desista dessa bobagem; de querer o futebol brasileiro como algo grandioso, cheio de elogios; os maiores e melhores comentários. Por hora, por meses; quem sabe até o final do ano, tudo é péssimo, desagradável e sem sentido. Perdi o interesse em assistir, torcer e aquilo que mais me preocupa: escrever sobre futebol.

Acho que a gota que faltava foi a humilhação. Às vezes lidamos bem com a derrota, mas a humilhação quase sempre é arrebatadora. Não esperava uma grande exibição da nossa seleção brasileira, mas perder do jeito que foi, contra a Alemanha; não é para qualquer um. Podem até justificar o mal resultado a fatos estranhos ao futebol, teorias conspiratórias ou mesmo politicagem. Para amenizar, podem dizer que a seleção não representa uma nação, que a CBF é coisa e tal; e assim por diante. Mas tanto na alegria, quanto na tristeza; os brasileiros estão vinculados à história da seleção. Por mais que a torcida de alguns tenha sido contra, ainda assim, o brasileiro; em qualquer lugar que esteja, estampará a figura da amarelinha. Bom; passou, chegou; já deu. O assunto seleção brasileira ficará para uma outra oportunidade.

Mas os clubes? O futebol da televisão, aquele do nosso dia-a-dia. Como ele fica? Meu medo era que a seleção brasileira e seu vexame esfriasse também minha relação com o futebol. De certo modo é como abandonar uma paixão na primeira desilusão. Sim, a paixão pelo futebol estremeceu. Ficou abalada. Olhar para o futebol do resto do mundo e perceber que alguma coisa em nós anda errada não é coisa fácil. Pior que a traição é a passividade diante dela. O futebol brasileiro, e tudo que envolve o esporte; andam querendo muito, retribuindo com o pouco. Jogos terríveis, jogadores muito mal formados em princípios básicos para o esporte. Torcedores que acham mais vibrante saírem na porrada. Onde fomos parar?

Depois da Copa do Mundo um balde de água gelada caiu sobre nossas cabeças. Enfim, depois de trinta e dois anos descobrimos que o país não é do futebol. Não temos os campeonatos mais atrativos, a média de público perde para as principais praças onde o esporte é praticado; jogadores mal estruturados dentro e fora de campo; uma reclamação infantil de um disse-me-disse que chega a dar vergonha em programas de fofoca. Mulheres, carrões; chuteira colorida. Cabelos desalinhados e tingidos; pulseira e corrente de ouro. O nosso futebol pé-descalço anda se perdendo na promoção futebol-hollywood: imagem é tudo.

Despencando a cada ano, o futebol ainda é receita valiosa para o negócio que gira milhões de reais por ano. Talvez por isso, ainda que muito tarde; o desinteresse pelo esporte tenha causado algumas discussões do pessoal que comanda e ganha dinheiro com ele. Nada é mais assustador para a velha elite da bola que, de uma hora para outra; o número de pessoas que não querem saber de futebol seja maior, ou igual, a soma de todas as outras torcidas. O produto perde a força, perde o investimento; perdendo o investimento, perde a qualidade. O fim do futebol não será pela minha causa, ou pela sua. O fim estará próximo quando as empresas, empresários e gente do poder achar lugar melhor para obter lucros, fazer dinheiro. Quando o desinteresse pelo futebol não ficar restrito apenas às questões técnicas, ou a dor da humilhação; ai deveremos ficar preocupados.


Por hora, é apenas uma queixa, uma depressão pós-Copa do Mundo; algo passageiro e sem importância. Mas quando deixarmos de seguir o futebol, quando todo mundo achar que não vale mais as horas perdidas; pode contar que estaremos preparados para um renascimento. Por enquanto, aqueles que deveriam e podem mudar não estão se importando muito, apesar de começarem a sentir os efeitos no bolso.




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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Mudanças para o futebol: Quem quer e quem pode mudar?



Eu sei que pisei na bola. Não foi feio, como o Brasil contra a Alemanha. Mas pisei. Passei o período da Copa do Mundo em completo ostracismo. Não foi proposital, embora não queira revelar os motivos. Não foi falta de tempo, visto que continuo tendo as noites de insônia para continuar com os textos, aqui e nos outros espaços. Mas alguma coisa me incomodou, tudo que ouvi e li sobre a Copa do Mundo, sobrou. A overdose de informações foi tão cruel que pretendi o silêncio. Se é para ser óbvio, prefiro ficar no meu canto.

Tudo bem, na maioria das vezes sou óbvio; mas dessa vez seria consciente.

Fiquei feliz com a Copa com tudo que deu certo. E a maioria das coisas funcionaram bem. Tirando a seleção brasileira – que eu até achava que não faria um papel tão extraordinário, mas também não suspeitava um vexame histórico – o resto foi fantástico. Assisti a maioria dos jogos, alguns ouvi pelo rádio. Embora não tenha mais paciência para tantos jogos, confesso que esses da Copa foram prazerosos. Algumas boas surpresas, outras nem tanto.

Sinto apenas pelo registro histórico, aqueles rabiscos que faço e que me auxiliam a memória, não muito privilegiada por natureza. Mas basta uma vasculhada por ai para sabermos mais da Copa do Mundo, para quem ainda se interessa por ela. Sim, a Copa do Mundo é um evento arrebatador, mas que morre quase de véspera. Quem se lembra hoje dos jogos da Copa? Quem se lembra das seleções que foram consideraras “sensações”? Qual foi o craque da copa? Em sua maioria, torcedores ou não; não saberão responder tais perguntas. Eu, que gosto de futebol e acompanhei os jogos, também não sei. Tudo isso me faz pensar: se eu fiquei feliz com o evento ter dado certo, qual o motivo de não ficar empolgado com a história?

A Copa do Mundo foi pouco para o nosso futebol?

Evidente que não. As seleções chegaram ao Brasil empolgados com o país. Seria extraordinário fazer um bom papel no país do futebol. Acreditamos nisso ainda. Acreditamos que somos responsáveis pelas maiores mudanças dentro do campo. Acreditamos na nossa genialidade, criatividade; técnica. E é ótimo para as outras seleções que continuemos dessa forma: somos mais frágeis um tanto quanto menos humildes. A crítica ao futebol brasileiro, que vinha numa avalanche inacreditável depois do mundial, perdeu sua força; transformou-se novamente numa marola, sem querer ou mudar nada.

Dirigentes se empenham em mais privilégios com o dinheiro público. E antes que a discussão se torne política, digo que isso independe de Dilma, BNDES, opiniões de Aécio e Eduardo Campos. A discussão em relação ao futebol brasileiro não pode passar pela política, ainda que precise dela para sair do papel. A discussão por um dos tesouros nacionais deveria ser uma discussão civil, do povo; dos jogadores, técnicos; jornalistas e afins. Mas isso é impossível. Isso é dar ao futebol uma prioridade que não pode ter: não se faz um país com o futebol.

A derrota do país em campo, pode ser uma vitória do país fora dele, escreveu Tostão e sua coluna.

Embora não acredite que coisas possam mudar, quando se mantem no poder pessoas tão ultrapassadas; ainda acredito que o negócio futebol é mais forte do que se pode imaginar. Exatamente por isso, empresas e mídia andam se incomodando; tentando imaginar alternativas, mudar o jogo. Mais que a derrota histórica, a pior coisa que o futebol pode fazer hoje por eles é a falta de retorno de investimento, falta de público; desinteresse do consumidor. Assim como aconteceu com a Fórmula 1, que corre o risco de não passar na televisão aberta em 2015; pode acontecer com nosso futebol daqui vinte anos.








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quarta-feira, 30 de julho de 2014

A ressaca foi brava: ainda não passou a dor de cabeça

Brasil não ganhou a Copa do Mundo, mas o Mundo ganhou o Brasil. Tudo que era para dar errado, não deu. Aquilo que achamos que daria certo, deu errado. Coisas do futebol, dos futurólogos e dos palpiteiros de plantão. Tudo era mais ou menos sabido, a seleção brasileira não era a melhor em tantos anos; mas a derrota para a Alemanha marcou a história, demarcou o orgulho; refez os caminhos. Pelo menos por parte dos torcedores, a mudança era necessária. Os aeroportos funcionaram, os hotéis e os restaurantes. Boas recomendações dos turistas, que pretendem voltar um dia. Alemanha campeã no futebol, Brasil humilhado. Mas as coisas não pararam por ai, exigimos mais.

Mas nossa exigência, às vezes, é tão vã; sem argumentos. Não sabemos reivindicar. Não temos esse cacoete. Política ou não, economia ou não; o futebol não mudou absolutamente nada. Nem mudará, por enquanto. Basta ver os mandatários, basta ver o nosso novo treinador; basta ver o coordenador; basta assistir a mídia que se interessa no produto futebol. Tudo como antes dos sete, como se nada fosse tão ridículo. Não somos mais o país do futebol, mas quem se importa? Ninguém. Dunga fará uma seleção melhor que a de 2014, pois não temos mais buraco para cavar. Ou temos? A mudança que parte da torcida esperava, numa derrota da seleção brasileira, não aconteceu. Não valeu a pena torcer contra, como também não valeu torcer a favor. Enfim, a Copa do Mundo no Brasil serviu mesmo ao campeão, de resto nada mudou.

Dunga é a velha mentalidade, mesmo trazendo mudanças. É possível que comece a olhar mais para os jogadores nacionais, que disputam caneladas em campos esburacados; pernadas em padrão FIFA. Outra coisa boa: em alguns estádios, torcedores e jogadores não poderão reclamar. Mas o futebol brasileiro precisa muito mais que isso, mas precisa disso tudo na base; onde começa tudo. A reformulação do futebol não poderá ser estética; mas reencarnatória. Precisamos do Governo, das leis; dos clubes, das Federações, Confederações e Amigos de Bairro. Precisamos renovar tudo que sabemos, olhamos e queremos do nosso futebol. Não é fácil, por isso não foi feito.

Mas continuamos na mesma. O futebol no Brasil não vai melhorar. Perdi a esperança. Perdi a vontade. Vou me acostumar com tudo isso, pois gosto de futebol. Ainda escrevo sobre futebol. Verei meu time ganhar do arqui-inimigo por dois gols, chutando apenas quatro vezes no gol. Acharei maravilhoso! Comprarei o jornal no dia seguinte, postarei nas redes sociais. Mas lá no fundo, sei que estou me enganando. Como estão sendo enganados os tricolores, com os mais novos velhos ídolos, que realmente sabem jogar bola, mas que ainda assim é muito pouco.

Eu já nem sei se o futebol brasileiro deve realmente mudar. Acho que não iriamos nos acostumar a falta de assunto. É bom mesmo que façam isso conosco, vai saber se não gostamos. Um chororô daqueles. As crianças aprendem com derrotas, se tornam melhores. Os adultos sofrem com derrotas, fortalece a esperança. As mulheres se descabelam com as derrotas, e ficam sabendo enfim o motivo do futebol ser tão apaixonante. Não quero nenhuma mudança, acabei de crer. Vou virar aqueles ranzinzas, que não enxergam nada de bom; mas que, às vezes ficam emocionados com o esporte – Acabo de ler uma coluna do Tostão falando sobre o futebol do Brasileirão, onde ele diz que “às vezes” vê coisas boas – Pois bem, não esperem de mim mais críticas, elas não virão.

Dunga fará uma seleção competitiva, como Felipão fez. Mas é melhor não discutir as questões fora do campo, as ordens e desordens que não sabemos de onde nem como vem. Basta torcermos, reclamar de um pênalti, um impedimento; um jogo sem chute ao gol. Basta aos torcedores brasileiros a mesmice, da qual estamos tão acostumados nos últimos dez anos (ou mais, não sei).


Só não vale mais goleada, pois isso é muita humilhação.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Um último suspiro sobre a Copa das Copas

A Copa acabou e deixou aquele gostinho de dever cumprido. E, com o perdão da expressão grosseira, realizamos uma Copa boa pra cacete. Apesar da chateação da cartolagem internacional com o famigerado “Padrão Fifa”, a verdade é que a Copa de 2014 foi uma Copa com cara de Brasil. Lembro aqui de uma frase dita há alguns anos atrás pelo ex-técnico argentino Cesar Luis Menotti, ao criticar a escolha da África do Sul como sede da Copa anterior: "No mundo todo há somente oito ou dez lugares sérios para um Mundial. O resto é negócio.” O que o Menotti quis dizer é que a Copa é um espetáculo de alto nível que precisa de um grande palco e de uma platéia selecionada, que saiba apreciar a beleza do jogo de futebol e não de pessoas que simplesmente pagam o preço do ingresso e passam os noventa minutos de jogo somente esperando o gol.

Ainda que dentro das arenas muita gente estivesse mais interessada em aparecer na televisão ou registrar aquele selfie pra publicar na rede social, a verdade é que nos quatro cantos do país a Copa pulsava em nossas entranhas. A Copa foi vivida pelo brasileiro nos telões espalhados nas ruas, no televisor portátil do vigia, na tela do notebook, na conversa animada do café ou na mesa do bar. Vivemos o evento de uma forma que nem acreditávamos ser possível, principalmente após a onda de manifestações do ano passado. E nem me venham com esse velho discurso do pão e circo ou aquele do futebol como instrumento de alienação das massas, que são usados indiscriminadamente pelas esquerdas e direitas desse país de acordo com a conveniência. Como já diziam os Titãs, lá pelos anos 1980: A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. Então, se o palco da Copa foi montado no nosso quintal, por que ficar trancado em casa?

No que diz respeito à estrutura do evento pouco posso dizer, afinal, não assisti a nenhum jogo in loco. Mas, pelo que ouvi, se a organização não foi excelente tudo funcionou direitinho, principalmente se for levado em consideração o fato de que eram doze cidades sede. Mas, do ponto de vista técnico, das quatro linhas, a Copa do Brasil foi sensivelmente melhor que as três ou quatro edições anteriores. Sem exageros. Mas, o acréscimo de qualidade dessa edição não tem muito a ver com os ares que se respira aqui nos trópicos, mas sim, com uma tendência do futebol europeu atual de privilegiar a técnica, o controle de bola, o passe, enfim, tentar imitar a experiência bem sucedida do Barcelona. E, na minha opinião, qualquer tentativa de agregar técnica ao jogo de futebol merece aplausos.

Por falar em Europa, a grande decepção foi justamente a seleção da Espanha que sucumbiu logo na primeira fase e jogou um futebol cansado, pouco inspirado e com jogadores enfastiados com todos títulos que ganharam nos últimos anos. No muro da vergonha da Copa vale incluir, ainda, menções desonrosas às seleções da Italia, Portugal e Inglaterra que foram uma completa perda de tempo. Deu pena de assistir às três seleções em campo. Entre os que realmente jogaram bola gostei demais da França, da Bélgica e, claro, da campeã Alemanha. E a Holanda? Sinceramente, não gostei muito do time holandês. Talvez seja resultado de uma fantasia que eu ainda tenho da seleção holandesa campeã européia em 1988 que acredito tenha sido a última grande seleção internacional que eu vi jogar. Não sei. Apesar da presença de um Robben em boa forma, achei apenas bonitinha, mas, ordinária.

Entre os sul americanos os grandes decepcionaram com o mesmo futebol “pão dormido” dos últimos anos. Falta qualidade técnica, falta dinâmica na movimentação de ataque e falta craque. Tanto Brasil, como Uruguai e até mesmo a finalista Argentina deixaram a desejar. Mostraram serem equipes de pouca qualidade técnica e com estrutura de jogo extremamente conservadora. As três equipes apostando no talento de Neymar, Suárez e Messi, sempre jogando por uma bola. Gostei muito do vi do Chile, que se tivesse um grande atacante poderia ter chegado longe na competição, e da Colômbia que não decepcionou aqueles que gostam do futebol bem jogado, exceção feita àquela batalha campal nas quartas de final contra o Brasil.

E, por falar em Brasil, sinto pena do torcedor de Copa que foi obrigado a tomar de um veneno que nós, torcedores do futebol nosso de cada dia, já conhecemos muito bem. O que aconteceu no jogo contra a Alemanha era uma bola mais que cantada nos últimos anos. Aqui mesmo nesse espaço cansamos de enfatizar a pobreza técnica e tática do nosso futebol e ressaltar a qualidade da atual geração do futebol alemão. A surpresa, na minha opinião, foi a fragilidade emocional do time verde amarelo. Sinceramente, cansei desse popstar arrogante, mimado, incompetente e chorão chamado jogador de futebol brasileiro. Não sofri nem um pouco com a derrota vergonhosa. Na verdade, se alguma lágrima escorreu dos meus olhos foi pela lembrança de caras como Zico, Sócrates, Romário, Careca, Bebeto, Mauro Silva, Ronaldo, Rivaldo, enfim, todos aqueles que ajudaram, num passado recente, a construir essa marca tão rentável para os cartolas que é a nossa seleção.

O futuro do futebol brasileiro, meus caros, é pra lá de incerto, mas, passa, obviamente, por uma reformulação total nas categorias de base. Precisamos de métodos diferentes de identificação do talento e treinamento dos jovens jogadores, para quem sabe colher alguns frutos no futuro. Esse seria o primeiro passo, bem como capacitar os técnicos de futebol no país, principalmente aqueles que trabalham com os jovens. Entretanto, numa estrutura dirigida por CBF, federações estaduais e clubes, quem abraçará essas reformas? A quem interessa? É mais fácil apostar na justificativa fantasiosa do apagão, assim, ninguém precisa assumir responsabilidade alguma pela decadência do futebol brasileiro. O Sobrenatural de Almeida está sempre disposto a livrar a cara da incompetência. Por ora, para nós, torcedores, o jeito é torcer para que brotem da terra mais uns dois ou três Neymares no futebol brasileiro, porque um só já não faz verão.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O maior vexame (da história).

Foi o maior. A maior goleada, o maior vexame, a maior tragédia, como queiram. A maior goleada em uma semifinal, a maior derrota de uma seleção anfitriã, ou a maior derrota de uma seleção tradicional em copas do mundo. Um recorde negativo, que se fuçarmos nas estatísticas, vamos encontrar mais números.

Goleada de 7x1. Placar que remonta à época amadora do nosso futebol. Sim, nossos jogadores são profissionais, os preparadores físicos, os médicos, chegando ao roupeiro, todos muito bem qualificados. Mas no que se refere à administração, ou dirigentes, ainda estamos no amadorismo, aliado ao velho “jeitinho” brasileiro: não há planejamento e tudo na base do imediatismo. Deu certo na Copa das Confederações, um torneio amistoso que a Fifa chancelou como oficial. Não deu certo na Copa e o vexame veio contra a primeira seleção qualificada.

Sempre tive restrições com relação a esta Seleção. Provavelmente a única - desde 1914 no qual comemoramos nesta Copa 100 anos de uma liga de futebol nacional, que originaria a CBD – que dependia apenas de um craque. Muito pouco para uma história de tradição. Mas a vontade de vencer uma Copa em casa, fez com que nós torcedores ocultasse ou transformasse esta deficiência em algo referente à superação, principalmente quando este jogador se contundiu. E um time que só tinha como referência Neymar e ainda perdera seu principal zagueiro Thiago Silva, ficou totalmente perdido em campo, aliado a um esquema tático totalmente ultrapassado.

E já comentamos aqui algumas vezes, em que o Felipão não teve um “upgrade” uma atualização desde 2002. O auxiliar Parreira idem, desde 1994, aquele mesmo discurso de “jogar sem a bola”. Pois é, jogamos sem ela. Nem vimos a cor. E o futebol brasileiro como um todo, sem nenhuma novidade e cada vez mais empoeirado. Adicionando-se a este quadro, também entram em campo os idiotas da subjetividade: narradores, comentaristas e até ex-jogadores consagrados, que colocam o futebol brasileiro em condição de inferioridade ao europeu, como se a Europa fosse o único caminho para o “aperfeiçoamento” dos nossos jogadores.

Evidente que estamos atrás, e bem atrás. E em boa parte por culpa desta mentalidade mercantilista e exportadora. “Revelamos os jogadores aqui, e o aperfeiçoamento, o toque final, ocorrerá na Europa.” Plantamos a cana, mas o açúcar, só pode ser refinado na metrópole. E porque os jogadores não podem serem formados aqui? Esta é a pergunta que os idiotas da subjetividade não respondem, porque ficam com os olhinhos brilhando toda vez que algum jogador brasileiro vai para alguma equipe europeia.

O resultado é uma seleção brasileira sem jogadores para colocar no meio de campo, sem jogadores no ataque que não possuem competência para fazer gols (mal acertam aquele retângulo), um Hulk, um Fred, laterais medianos, dois zagueiros razoáveis e só um cara bom lá na frente. Esta é a síntese do time e que reflete a carência de jogadores capazes de vestir a camisa de uma seleção brasileira.

Conseguimos organizar uma Copa, coisa que muitos duvidavam, mas não conseguimos organizar um time. Não só não conseguimos, como não estamos conseguindo, e, se nada mudar, não vamos conseguir. Passado (só tradição), presente (eliminação e vexame histórico) e futuro (ainda incerto).

E se quisermos “aprender”, o caminho não é cultivar alguns poucos craques e “refiná-los” nos campos europeus. O que temos que assimilar desta cultura é o profissionalismo e organização que não existem aqui. Tempo e paciência. Enchemos nosso calendário com excesso de competições e jogos ruins, para encher a grade televisiva, e com pouco tempo para formar um jogador. Alguns clubes daqui são tão bem estruturados quanto os de lá, mas só academia e fisioterapia não bastam.

Podemos ter uma visão pessimista ou otimista deste fiasco. A visão pessimista é que pouca coisa vai mudar e continuaremos “colocando medo” nos adversários, somente com a nossa tradição. O Santos é um exemplo. Não aprendeu nada com a derrota para o Barcelona por 4x0, e pior, marcou depois um amistoso e com o Neymar do outro lado.  Uma “brilhante” jogada de marketing dos dirigentes que ridicularizou uma marca também centenária. E a Seleção teve que esperar 100 anos e mais uma Copa em casa, para também ser humilhada em rede mundial.

E a visão otimista? Colocar a prepotência e os pezinhos no chão, e tentar tirar algum proveito deste vexame histórico. Precisaria de uma reformulação quase que total. Pois se continuarmos com esta penca de treinadores pragmáticos, prepotentes e defensivos, e com esta enxurrada de jogos ruins no principal campeonato nacional, ao qual somos “agraciados” toda quarta-feira e domingo, pouca coisa vai acontecer em 2018, na próxima Copa.



Obs: E não acabou, ainda tem a disputa do terceiro lugar. Se ganhar, fica como está, não fizeram mais que a obrigação. E se perder ainda pode piorar um pouquinho, se é que ainda é possível. Dependerá de quantos cacos a Seleção vai conseguir juntar para este jogo.





segunda-feira, 30 de junho de 2014

A "deselegância" dos torcedores brasileiros

 

Entre tantas coisas na Copa do Mundo, uma me chamou atenção. Não há qualquer relação com o futebol dentro de campo, mas o comportamento dos torcedores. No último jogo do Brasil, contra o Chile, um fato está sendo criticado como uma das nossas piores marcas: a vaia ao hino nacional chileno. É claro que, num primeiro momento, parece tão óbvio que faltou educação aos torcedores que estavam no estádio. Mas, numa análise mais fria dos acontecimentos; podemos tirar algumas lições: será que devemos condenar assim aquela parcela que estava representando os brasileiros?

Vamos por partes:

É conhecido que a torcida brasileira anda criando um modo muito curioso de torcer. Se não existe uma unidade desses torcedores durante o jogo, vemos que a grande massa apoia e se sensibiliza quando o hino nacional toca. A mania brasileira da capela passou a ser marca registrada. Chegamos, em alto e bom som - mesmo com o encerramento da parte instrumental exigido pela FIFA - até a última palavra da primeira parte do hino: Pátria amada, Brasil! Um coro de torcedores, comissão técnica e jogadores mostram que estamos em maior número, em nossa casa. Se está dando certo ou não, não é motivo dessa discussão. O que eu quero dizer é que o hino em capela é coisa de torcedor, de quem está no estádio; quem torce pelo time de futebol; mesmo que este se apresente como um selecionado.

Tinha escutado alguns jornalistas comentando sobre a presença dos torcedores sul-americanos, e como eles, diferente da torcida brasileira; estavam mais integrados à sua seleção. No dia do jogo do Brasil o comentário era: os brasileiros serão educados no momento do hino, mas temo a repercussão quando se iniciar a capela. Foi ai que eu decidi prestar atenção quando tocou o hino chileno: Não houve qualquer vaia, qualquer manifestação de desrespeito enquanto a parte instrumental e os torcedores cantavam: o protocolo estava sendo cumprido à risca. As vaias começaram quando a torcida, tal qual a torcida brasileira; quis que o hino chegasse até uma determinada parte, em capela. E relação ao acontecimento: a vaia cidadã não existiu, mas a vaia ao adversário, sim.  

É certo que eu ainda não tenho um conceito formado em relação aos selecionados nacionais: Onde começa e onde termina a relação patriótica. A seleção de cada país, antes de tudo, é um time. É uma equipe que carrega todos os itens do jogo de futebol. O adversário a ser batido é idêntico ao adversário das agremiações. As regras, a ética própria; os torcedores. Na maioria das vezes eles agem e se comportam como um torcedor normal; mas com um quesito diferente: as cores do país. Mas isso é o comum, o corriqueiro; minha sensação.

Se as vaias feriram não apenas os torcedores chilenos, mas a nação representada dentro do estádio; podemos considerar que foi um erro dos mais graves cometidos pelos torcedores presentes. Deveríamos aceitar que do outro lado, os torcedores carregam de forma tão intensa, ou ainda maior; o amor pelo selecionado, que naquele momento está representando uma nação. Deveríamos esperar que o hino em capela terminasse, apoiado em nosso silêncio, e aplausos ao término da cerimonia cívica.

Mas, se as vaias não foram para a nação; mas uma maneira de inibir a torcida – que mesmo em número menor, era tão importante quanto a brasileira no sentido de apoio à equipe – acho que não há uma condenação tão justa como estamos vendo. As vaias eram para o adversário, como palmeirenses vaiam corintianos; flamenguistas os vascaínos. A vaia não deveria ser tão criticada, mas deveríamos pontuar que houve o silêncio e o respeito durante o hino, como tem acontecido em todas as partidas da Copa do Mundo.

A discussão não termina aqui, pois o item principal da discussão eu ainda não consegui decifrar: Até que ponto a seleção representa uma nação?






quinta-feira, 26 de junho de 2014

A dentada que engole o craque

Nessa quinta feira de Copa no Brasil, o único assunto que realmente importa é a dentada do Luizito Suárez, ou melhor dizendo é a punição “Padrão Fifa” que o atacante uruguaio recebeu hoje.

Se foi ombrada no dente, como afirmam os uruguaios, ou se foi dentada no ombro, como acusa o restante do mundo, o fato é que a punição foi severa demais. Nove jogos oficiais da Fifa, quatro meses longe do futebol e mais uma multa em dinheiro. Só faltava os cardeais da moralidade da Fifa exigirem que o rapaz voltasse pro Uruguai de joelhos, em súplicas.

Eu também sou adepto do Fair Play, do jogo limpo, como prega a Fifa, mas, sou mais devoto ainda do tal do Jogo Bonito. Se o Luiz Suárez fosse um desses cabeças de bagre que assistimos aos borbotões nos últimos dias, vá lá, faz sentido uma punição desse tamanho, mas, o Luizito é craque, e essa raça em vias de extinção precisa ser preservada pela Fifa.

Concordo que o atacante errou, o lance foi feio, pegou mal, principalmente por ter ocorrido no evento mais televisado do mundo. Compreendo. É preciso manter a boa imagem do torneio, mas, não precisava de tanto. Dois ou três jogos de punição já estaria de bom tamanho, mesmo porque a seleção uruguaia sem o Luizito é quase um Íbis/PE falado em espanhol. A suspensão do atacante é quase que a decretação da eliminação do time sulamericano.

Sem Suárez a Copa perde um pouco do sabor, da magia e do inesperado que somente os craques conseguem proporcionar ao público. Faltou cabeça ao Suárez e sensibilidade à Fifa. O Luizito, na minha opinião é um doido varrido. Cem por cento emoção. A qualidade do seu futebol está relacionada à intensidade com a qual ele vive cada lance, cada jogo. É um desses jogadores que jamais conseguiremos entender, apenas, talvez, aceitar e torcer para que ele não exploda numa final de campeonato ou coisa parecida. Por essa razão é um alvo fácil para as provocações dos zagueiros.

Não crucifico o Suárez. Tive o prazer de assistir ao Serginho Chulapa jogar e o desprazer de acompanhar a suas inúmeras suspensões por tudo quanto era maluquice que aquele homem fazia em campo. Assisti também ao Edmundo que, pasmem, durante um certo período da sua carreira, talvez, tenha sido o melhor jogador do mundo e era um doidivanas que arrumava as piores confusões dentro de campo. Outros tantos como Gascoigne, Renato Gaúcho, Neto e Cantona, grandes jogadores e que, também, padeciam do mesmo desparafusamento momentâneo das ideias.

Nove jogos, quatro meses de gancho é muita coisa. Não é possível deixar um craque tanto tempo assim fora dos gramados. É muita crueldade. Se é pra punir, sei lá, manda o rapaz pra uma terapia intensiva, pra alguma clínica de repouso em Campos do Jordão, mas, não afaste por tanto tempo esse tipo craque, de comportamento pouco convencional, do único ambiente no qual ele pode fugir da normalidade de uma forma bonita e lúdica; o campo de futebol.

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Ilustração:http://www.df.superesportes.com.br/app/noticias/colunistas/2012/01/31/noticia_colunista,28238/com-a-faca-entre-as-gengivas.shtml

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Naquele tempo



Vi uma reportagem sobre a Copa de 82. Surpreendente, histórica e mítica. A Copa de 82 não é motivo desse texto, mas é um parâmetro. Naquele tempo a gente torcia pela seleção brasileira. Ainda que muitos problemas socioeconômicos fizessem a cabeça dos mais politizados, a seleção brasileira era à parte. Tudo bem, sempre existiu quem acreditasse numa tabela mais promissora, indecente; entre jogadores e ditadura: a Copa de 70 foi vista como muitos como uma alienação, o circo; sem o pão. Uma jogada muito bem tramada pelos nossos generais, como se eles realmente estivessem preocupados em nos dar qualquer satisfação de suas decisões. Não, heróis do jogo de futebol não foram os políticos, mas os jogadores.

De certo modo, não é a política que afastou o povo brasileiro da seleção, e não é por ela que nos aproximaremos. O distanciamento entre a seleção do povo e o povo é um tema que muitos estudiosos estão nesse instante debruçados; pesquisando história e dados; tentando decifrar as razões. Juro que não sei, se soubesse tentaria explicar. A verdade é que a cara da seleção brasileira não é a cara do Brasil. Mas qual o motivo de ainda torcemos pela seleção? Afinidade? Orgulho? Paixão nacional? Não. Não é paixão nacional. Brasileiro gosta de futebol, mas hoje não vive por ele; nem escolhe candidato para presidente de acordo com a campanha da seleção.

O distanciamento entre os torcedores e a seleção brasileira não tem relação com política.

Mas naquele tempo as ruas estavam todas pintadas. Sabíamos e escalávamos a seleção de cor, salteado; contando o inverso; número de camisa e tudo. O que fizeram da nossa seleção? Hoje a seleção brasileira é quase toda estranha: jogadores que mal sabíamos serem brasileiros. Mal sabíamos a origem, qual clube jogaram; que posição nasceram nos campos de terra vermelha. São jogadores nascidos profissionalmente na Europa; pois não nascemos mais profissionais por esses lados. São brasileiros, com muito orgulho e muito amor (que música irritante). Jogadores que tem satisfação de jogar pelo Brasil, ganhar pelo Brasil. E é por isso que ainda torcemos por eles.

Se a desculpa da oposição em não torcer pela seleção brasileira é para derrubar a Dilma nas pesquisas, fiquem espertos. Dados demonstram que a lógica da pesquisa eleitoral e o campo de futebol é um tanto estranha. A Copa do Mundo só serviu para prejudicar ainda mais a figura arranhada e questionada da nossa presidenta. Diferente daquilo que se pensa, as derrotas de 1998, 2006 e 2010 colocaram o PT no Governo. A vitória de 1994 deu a eleição para FHC e a vitória de 2002 o segundo mandato para Lula (naquele instante a aprovação do governo, mesmo com toda baderna do mensalão era pela permanência do presidente). Seleção brasileira não ajuda alavancar nenhum candidato.

Naquele tempo a gente discutia política e discutia futebol. E mesmo colocando as duas coisas na mesma cesta, era evidente que a paixão por um não estava relacionada a razão pelo outro. A política, como diz meu amigo sociólogo Luiz Lourenço, é vista pelo povo como a virtude prática: vale mesmo é comida na mesa. Vamos esquecer a ética, o conluio e as negociatas. O povão quer saber como ele vai encarar o seu dia-a-dia, com qual ajuda do governo, ou na pior das hipóteses, que o governo não atrapalhe o seu cotidiano. Por isso, não concordo com a justificativa em relação a seleção brasileira se tornar política: não torcemos ou torcemos pela seleção brasileira por outros tantos motivos.


Naquele tempo a galera se vestia de verde e amarelo e hoje há um sentimento de repulsa, de vergonha e de arrependimento. O orgulho de sermos brasileiros, ainda que o país tenha melhorado nas últimas décadas; é o verdadeiro desperdício que a Copa poderia nos dar, dentro; mas principalmente fora do campo.


terça-feira, 27 de maio de 2014

Copa no Brasil: Impressões dentro e fora do campo

A Copa do Mundo chegou e com ela várias contradições. O futebol dentro do campo e a estrutura do país fora dele: relações distantes mas que ficaram muito próximas. Afinal de contas a Copa do Mundo é responsável por todos os nossos problemas?


Está chegando o grande momento para o futebol mundial. Depois de uma longa espera de sessenta e quatro anos, sediaremos mais uma vez uma Copa do Mundo. No entanto, nem tudo parece festa. Muitas críticas e poucos elogios até agora. Copa do Mundo passou a ser o elemento mais importante do país, avaliado num contexto intrigante de questões econômicas, políticas e sociais. Será a Copa capaz de mudar nossa visão do nosso próprio país? Será item primordial para uma análise mais profunda sobre a organização do esporte no Brasil? Será a Copa esse grande monstro pintado aos quatro ventos?

Uma coisa para mim parece evidente: estamos falando de dois eventos contraditórios. O primeiro é aquele que acontece dentro do campo e o segundo que está fora dele: A Copa-Futebol e a Copa-Cenário. O “Futebol” é tudo que envolve o próprio espetáculo: as seleções, a organização da competição; a televisão e toda mídia. O “Cenário”: não há qualquer relação com o esporte, mas foi identificado como um nó na garganta, um desmando dos políticos; um gasto desnecessário para um país tão necessitado. Ou seja: a gota d´água.

O evento dentro de campo conta com as melhores seleções do mundo. Portanto, para quem gosta de futebol; já é uma goleada. Se olharmos para a história veremos que em poucas oportunidades teremos condições de receber um número tão grande de jogadores de alto nível. São craques de bola na concepção mais simples e exigível para os tempos atuais: Messi, Cristiano Ronaldo, Schweinsteiger, Xavi, Iniesta entre outros. Não há, portanto, qualquer dúvida que a Copa-Futebol é um evento extraordinário e imperdível.

Por outro lado, a Copa-Cenário tem uma exigência que ultrapassa os limites compreensíveis ao seu próprio negócio. A Copa do Mundo fez emergir problemas seculares do nosso país, dos quais, nem a Copa; nem o período de preparação poderiam dar conta. São questões importantes que foram jogados para debaixo do tapete não apenas pelo governo atual, mas por quase todos que passaram por ele. Então, a Copa-Cenário nos fez rever feridas das quais a Copa não foi causadora; nem ela poderia ser a resolução. Mais educação, mais moradia e mais hospitais não podem passar pela análise da organização de um evento esportivo; mas por um exame mais sério sobre nossa condição e responsabilidade como cidadãos.

Portanto, a Copa do Mundo não trouxe os problemas, mas nos fez, de alguma forma, percebê-los.

Uma das críticas mais pontuais em relação a Copa do Mundo são os gastos desnecessários para um país com tantos problemas. Segundo a reportagem do Yahoo![1] estima-se que a Copa do Mundo teve investimento público em torno de 26 bilhões de reais. Para se ter uma ideia, esse valor equivale a 10% dos investimentos anuais em educação. Seria tamanho desperdício de investimento algo que pode fomentar diversos setores da economia do país? Um outro dado curioso é que parte desse investimento, feito pelo BNDES, tem que ser devolvido, pago; como acontece com inúmeras operações realizadas pelo banco. O caso mais evidente está diante de nós: A Arena Corinthians não saiu de graça.

As críticas em relação a Copa-Cenário foram ganhando uma importância muito maior que a Copa-Futebol. E, como consequência, acabamos acreditando que determinados negócios tão obscuros foram inaugurados no Brasil dos últimos anos. A Copa-Cenário foi jogada no ventilador de uma inquisição tão legítima quanto arbitrária, e que mantém aceso uma revolução feita de maneira equivocada por motivos ainda mais escusos: afinal o que há de tão nebuloso nas negociações para construção e reforma dos estádios? Sim. Parece que não fomos devidamente informados em relação aos gastos e que, de uma maneira indecente, muitos ganharam dinheiro com a Copa do Mundo.

Mas onde nós estávamos quando milhões foram roubados dos nossos bolsos quando ainda não havia Copa? Onde estávamos quando não havia investimento para educação, saúde e moradia? Onde estávamos quando políticos agiam como bem entendessem criando para si mais direitos que deveres? A Copa-Cenário foi o estopim de uma bomba ainda muito maior que imaginamos.

Ouvi algumas entrevistas de diversos especialistas informando que a Copa do Mundo sempre foi um evento que alavancou a economia dos países que se propuseram a sediar o evento. Investimentos, melhorias e empregos. Fomentando o turismo, a indústria local e consequentemente os empregos. O evento de pouco mais de dois meses tinha reflexo positivo nos três anos anteriores e nos quatro anos posteriores ao seu acontecimento. Qual foi o problema no Brasil que parece haver mais ônus que bônus? Qual a atitude brasileira, como nação, criou tantos problemas em relação ao evento? De quem é o interesse um evento tão importante e que gera tanto dinheiro ser visto como uma coisa já falida?

O legado Copa-Cenário pode ser pior que os bilhões gastos com estádios e infraestruturas mal acabadas. Pode revelar aquilo que todos sabemos, mas que insistimos em empurrar para o outro: nossa responsabilidade. Não soubemos exigir acerto de contas em relação aos gastos públicos, pois mal sabemos aquilo que é feito. Não exigimos escolas e hospitais, por mais que tenhamos aprendido a reclamar da falta de estrutura no país. Cochilamos quando de nós é cobrado desempenho. Decidimos pelo feriado quando para alguns é hora do trabalho.

A verdade é que a Copa do Mundo no Brasil não serviu nem serviria para corrigir todos os nossos erros políticos, econômicos e sociais. É um evento que fomenta um setor da economia (ou pelo menos deveria ser assim), trazendo empregos e melhorias para um determinado grupo de pessoas: Donos de hotéis, restaurantes, produtos esportivos e uma outra infinidade de produtos relacionados com o evento. Determinar agora que a Copa do Mundo não pode acontecer é um grande erro.

As críticas válidas em relação a Copa-Cenário, em relação aos atos de superfaturamento, falta de investimento em questões de seguridade social, são essenciais para a construção de um país mais digno, mas não devem ser apenas feitas de forma pontual, mas devem ir além do evento esportivo, mas uma conduta do cidadão e do eleitor. A crítica de suposto dinheiro desviado deve ser feita pela sociedade naquela ponte construída, no recapeamento das ruas; na construção da escola assim como estamos fazendo em relação aos estádios.

A Copa do Mundo não merece a crucificação por um crime que não cometeu.









[1] https://br.esporteinterativo.yahoo.com/noticias/custo-da-copa-equivale-a-apenas-9--do-investimento-anual-em-educa%C3%A7%C3%A3o-175028048.html

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Tem coisa que não muda: Apelido é uma delas

 

Itaquerão foi inaugurado. Enfim a novela do novo estádio do Corinthians chega ao fim. Pensam que acabou? Nada disso. Existirá uma discussão interminável em relação à Arena de São Paulo. A principal delas em relação ao nome: Itaquerão. Informalmente é assim que o estádio ficou conhecido. Referência maior da Zona Leste, ao bairro e a estação do metrô: Itaquerão! O metrô chegou primeiro, mas ali já sabiam ser o ponto final do clube: Corinthians- Itaquera. Ficou, colou e pegou. Pior que apelido, quando se odeia, é nome que cai bem. Itaquerão não pode ter outro nas conversas afiadas dos adversários; na alcunha carinhosa dos torcedores. E assim ficou, assim parece ter marcado território.

Acontece que no meio dessa discussão existe uma questão importante: grana! Grana de um direito que os brasileiros ainda não estão acostumados: o namig rights. Nome complicado e um conceito ainda mais assustador. Quer dizer, é uma coisa simples, mas, mesmo assim, não é coisa tradicional no país. Naming rights é a concessão de direitos de nome: Itaquerão será chamado de qualquer nome, de qualquer empresa, de qualquer parte do mundo; que compre esse direito. Um exemplo é Credicard Hall. Mas para o futebol? Alguém conhece Kyocera Arena? Itaipava Arena? Allianz? Esses batismos são complicados no mundo do futebol.

Andrés Sanches, tutor do estádio do Corinthians, anda irritado com a mídia por causa dessa questão. Irritou-se agora com a CBF, que em seu site resolveu “oficializar”, ainda que “não oficial”, o estádio em Itaquera: Itaquerão. No entendimento do ex-dirigente corintiano, será mais difícil negociar o direito de nome; principalmente quando o apelido ficar incrustado na memória dos torcedores e adversários. Morumbi, Maracanã e Pacaembu: todos apelidos que pegaram. Itaquerão? Todos sabem agora do que se trata. Assim, em partes, concordo com Andrés; mas, por outro lado, ele não tem como mudar a cultura de um povo. E sabe qual o motivo de chamarem o “sem nome” de Itaquerão? Pois é. Batismo ao acaso, batismo de órfão. Batismo com um nome mais simpático, menos burocrático; cheio de estrangeirismos. Itaquerão passou a chamar Itaquerão, pois nunca o pai deu-lhe qualquer nome mais convincente. Itaquerão todos sabem onde.

Então, o Itaquerão foi inaugurado. Depois de uma novela terminável de burocracia, incentivo e política; Itaquerão está quase pronto. Há poucos dias da Copa do Mundo, o palco de abertura escancara nosso modo de fazer as coisas: na última hora sempre é mais divertido. Lembrando bem: aqui não é a Alemanha. Na última hora decidiriam fazer uma homenagem aos antigos e muito antigos craques e não craques que vestiram a camisa corintiana. Foi uma festa: à moda brasileira. Gente brigando por não ter sido chamado, gente fazendo birra por ter sido chamado; e grande parte dos jogadores da história do Corinthians não estava lá. Era impossível que todos fizessem parte, humanamente impossível.

Itaquerão, que Andrés quer chamar de um nome impronunciável, está moderno; simples e quase pronto. Dizem as más línguas que foi projeto do governo, financiado pelo governo; com dedo do governo - Vai ver que é por isso que demorou. Mas outras línguas dizem que a casa corintiana foi construída com dinheiro emprestado, e pegar dinheiro emprestado não é crime. Fico com a última opção, e o resto é conversa da oposição. Bom, deixando esse papo burocrático, acadêmico e político de lado, o estádio está lá. É a casa que o Corinthians merecia. É a casa que eu esperava há pelo menos trinta e cinco anos; quando vi pela primeira vez uma das inúmeras maquetes e promessas de uma casa para a torcida.

Está lá, e pelo menos nesse primeiro contato, foi para a torcida; com a cara da torcida. Nenhuma reclamação de quebradeira, de bagunça e de depredação. Só aquela famosa desorganização que estamos acostumados no Brasil. Enfim, a torcida cuidou do estádio, chorou com o estádio e fez dele um pouco do seu lar.

O resto é conversa fiada.
  











sábado, 10 de maio de 2014

O abrasileiramento do nosso futebol (ou da Seleção).


Estava lendo sobre a Copa de 1958 num livro que tenho sobre as Copas. Já vimos e revimos os lances, gols e o futebol arte protagonizado pela Seleção Brasileira neste período. O que era comum por estes lados dos trópicos, era uma novidade para os europeus.
Felipão fez sua convocação e até aí, nenhuma grande surpresa. Nomes que já estamos acostumados a ver pela seleção, com alguns jogando em grandes clubes europeus, e outros, em times medianos do velho mundo. Confesso que até serem convocados, alguns nomes eram estranhos para mim: David Luiz, Dante, Marcelo, Luiz Gustavo, Fernandinho, Willian, Hulk... Jogadores cujas trajetórias sabemos muito pouco, e duvido que você leitor, saiba me dizer de “bate-pronto”, os clubes de todos estes jogadores (sem falhar nenhum!) ou quais clubes atuaram no Brasil antes destes partirem para a Europa. Não que eu esteja fazendo uma crítica ou discutindo o quesito técnico destes jogadores. Meu questionamento vai além disto, ou seja, a quantas anda o futebol em solos guarani e tupiniquim, e não sobre a “família Scolari”.
A “luzinha” acendeu para escrever este post quando o glorioso Jornal Nacional passou a falar da vida dos convocados de Felipão, que soa mais como uma espécie de cartilha de apresentação destes jogadores do que outra coisa. Pois é, isto mesmo. Se para mim, um cidadão com alguns recursos, já fica difícil reconhecer alguns selecionados, imagina pra boa parcela da população que não tem TV a cabo ou acesso a jogos internacionais. Ontem a figurinha mostrada (Paulinho), foi fácil, jogador revelado pelo segundo clube mais popular do país. Aí também não vale. Mas outros, vamos sim precisar da cartilha do JN para conhecê-los melhor.
Faz-se necessário trazer estes jogadores não apenas para conhecê-los melhor, como disse, mas também para “abrasileirar” nossa seleção. Apresentá-los para o público leigo ou comum. Mostrar que eles possuem raízes brasileiras, apesar de toda fama e dinheiro conquistados na Europa e de estarem longe daqui já algum tempo. Continuam “gente como a gente”, apesar de jatinhos particulares e hotéis seis estrelas. Foi o que fez também o Globo Repórter com uma espécie de “especial Felipão”, mostrando os tempos de docente do treinador, e de zagueiro botinudo do time de Caxias do Sul, que sinceramente, não sei se ele tem muita saudade desta época. E o programa terminou mostrando os jogadores cantando efusivamente o hino na final da Copa das Confederações, um artifício talvez, de intimidar os espanhóis.

Podemos ser campeões, mas não com o futebol que se joga por aqui. Caso o Brasil for campeão, e acho que tem boas chances para isto, será com um futebol jogado mais com cara de Europa. Talvez não tão pragmático como em 1994, pois jogando em casa, fica difícil manter a serenidade e a frieza. Mas muito diferente do que aconteceu em 1958, quando os europeus conheceram o futebol arte e pela primeira vez ouvia-se gargalhadas nas arquibancadas, quando Garrincha pegava algum zagueiro para “João”. Não estou propondo uma volta a este “futebol romântico”, que se nos informarmos um pouco, também vamos descobrir que não era tão romântico assim. Mas não acho que seria impossível segurar nossos principais jogadores, e dar uma melhora substancial no futebol praticado aqui e manter a nossa identidade. Mas para isto, tornar-se-ia necessário a interrupção desta cadeia que segue esta “lógica” de mercado criada, que começa com as ervas-daninhas que vivem da exportação de jogadores; os empresários de futebol. Além disto, há também os “Gaviões Buenos” da vida, que estão aí para engrossar o coro internacional, e por consequência estamos vendo cada vez mais nossos jovens torcendo ou comprando camisas de times europeus, o que não deixa de ser pernicioso ao nosso futebol de certa maneira.
Nada como inverter esta lógica e traçar um caminho inverso. Mas isto requer primeiro uma mudança de mentalidade. Temos que abrasileirar novamente nosso futebol e nossa Seleção, mas não através e - somente - da mídia, como está sendo feito. Pois talvez o "brasileiro", ainda gosta de se vangloriar de pertencer ao “país do futebol”. Ou pelo menos, já foi ou pertenceu algum dia. Disto temos certeza.

 

 

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Não podia (tinha como) ser melhor

 

Felipão convoca os vinte e três jogadores. Tantas dúvidas eram meras especulações. A base da seleção está formada desde a Copa das Confederações. Jornalistas dispersos esperando a mera formalidade. Alguns jogadores são figuras carimbadas. Outros são surpresas, mas não causam grande discussão. Talvez o murmurinho apenas pela troca de Henrique pela quase unanimidade Miranda. Hernandes ganhou a vaga pendente no meio de campo. Robinho, a torcida de parte da crônica esportiva, principalmente de São Paulo, não vingou. Sem grandes surpresas, sem grandes discussões. Uma seleção normal, excelente para o padrão brasileiro; e com tudo isso, favorita.

Em 7 de março eu relatei uma lista dos meus convocados. Acertei a maioria dos nomes. E não é por ser um expert no negócio, mas pela simples falta de opção. Jogadores mais velhos estavam fora, isso estava cravado quando Mano assumiu a seleção. Kaká, Robinho e Luiz Fabiano sem qualquer chance. Talvez Júlio César seja o grande entrave da renovação, pois ele não pode ser enquadrado no perfil dos novos jogadores. Mesmo assim ele está lá, incontestável. Sem jogar numa grande equipe e participando de algumas peladas. Nome indiscutível de Felipão, que bate no peito e diz que o goleiro é titular. Dentro do ambiente deve existir um motivo, uma razão fortíssima para a escolha; pois mesmo nesse cenário, ninguém ousou discutir sua convocação na coletiva de hoje.

Júlio César titular e os goleiros Jefferson e Victor. Jefferson é o emblema que queremos esquecer. Dizem alguns torcedores que goleiro negro não traz boas lembranças. Pura babaquice de um pessoal tão supersticioso. Barbosa não perdeu a Copa de 50 sozinho, nem foi o culpado. Queria ganhar com Jefferson no gol, apesar de sua campanha razoável numa equipe para lá de mediana. Victor em melhor fase anda fazendo milagres mesmo num Atlético Mineiro tão displicente em 2014. Nas laterais Maxwell no lugar de Rafinha e Maicon no lugar de Filipe Luis. Na zaga a surpresa por conta de Henrique no lugar de tantos outros zagueiros que jogam mais ou menos da mesma forma.

Nas mãos do Felipão a relação daquilo que temos de melhor para montar uma seleção. Jogadores acostumados com campeonatos europeus apesar da idade. Jogadores que conseguiram a confiança do técnico. E confiança tem um percentual importante na regularidade de uma equipe. Felipão chamou não só aqueles que estão melhores tecnicamente, mas fez a opção por aqueles que ele se relaciona melhor. É uma versão menos escrachada daquela que chamaram “Família Scolari”. No entanto, obedece a mesma lógica hierárquica. Todos jogarão por Felipão, pois ele encarará todas as críticas por eles.

De todos os nomes, em sua maioria, pouco se ouve falar de grandes movimentações extracampo. Estamos falando de futebol, evidente; mas a fofoca em torno da vida pessoal de um jogador explica muito de sua condição dentro de campo. São jogadores que parecem menos “baladeiros” do que estamos acostumados. Num campeonato tão curto e tão intenso, nada melhor que jogadores focados. Jogadores novos para uma competição que promete exigir muito da condição física. Jogadores em sua maioria fora do Brasil, acostumados com a pressão de grandes competições.

O lado negativo é que, sendo praticamente “estrangeiros”, podem não entender direito o Brasil dos últimos dois ou três anos. O país com uma sede desenfreada de justiça não é mais aquele país que muito reclamava e pouco agia. Agimos de maneira torta, sem sentido; sem uma ideologia; mas agimos. Uma derrota, um jogo ruim pode pesar uma tonelada nas costas desses bons jogadores; que nada têm com os bolsões para construtores e politização de um evento esportivo. Uma derrota que pode trazer graves prejuízos ao futebol do país, que já anda empurrando sua autoestima para debaixo do tapete.


quinta-feira, 20 de março de 2014

Minhas impressões e descontentamento nos tempos de Copa.


Ando malcontente com futebol. Talvez os amigos tenham percebido a diminuição da minha frequência aqui no Patativa. Parte por falta de tempo, parte por este motivo. Só vemos o futebol daqui piorar, apesar da roupagem “bonita” que estão querendo criar. O futebol está mal das pernas, dentro e fora de campo, apesar de muito dinheiro que anda rolando.
Para mim, pra começar, estes estádios “padrão Fifa” acabam com a alegria do futebol. Encarecem o evento (nem vou chamar de “espetáculo”) e deixam de fora quem trouxe esta paixão e tornou o esporte popular: o povão. Lindos por fora e por dentro, mas melancólicos e cheio de regrinhas. É isto que os estádios da Fifa são.
 
Só que o padrão Fifa não conseguiu acabar com a violência. Evidente que isto não é responsabilidade da entidade, pois é um caso de segurança pública e de quem organiza os eventos. Mas os principais responsáveis por tirar o torcedor comum dos estádios são os próprios clubes. Financiam estas gangues em troca de apoio político. Quando criança, me lembro da festa que era quando ia com meu pai e amigos assistir a um clássico. E o território era demarcado conforme as torcidas iam chegando. Havia até “apostas” sobre qual torcida iria prevalecer naquele dia. Tudo isto sem ninguém matar o outro. Havia brigas sim, muitas até, mas acabavam ficando nas “vias de fato”. O maior prejuízo, era um olho roxo. Acabou o jogo, ônibus da CMTC até o Anhangabaú e volta pra casa. Fim de papo.
 Por estas, que acho ridículo quando há clássico hoje e a torcida visitante fica apenas com dois mil ingressos ou com apenas um “alqueire” de estádio, que acabam sempre destinado para as organizadas. Estamos assinando nosso atestado de incompetência, por não dar civilidade a um evento e com isto acabando com a democracia no futebol.
Outro fator que está minando o futebol e a paciência são estes campeonatos inchados, terríveis, e intermináveis. Todos tem que participar, sim, mas desde que tenham nível para tal. Caso contrário, nivelamos por baixo, e é o que estamos fazendo. Aproveitando o jogo de ontem, quem é que merece assistir um “Bahia de Feira de Santana” (com todo respeito que o clube merece pois sabemos a dificuldade que possuem até em colocar um time em campo) x Corinthians, time campeão mundial (não estou querendo puxar o saco, apenas usando um exemplo). A Copa do Brasil é um torneio que perdeu a razão de ser, não leva mais os representantes de cada estado, com seus campeões e vices; pois seu intuito passou a ser basicamente o de levar a outra competição que está cada vez mais horrorosa: a Copa Libertadores.
O auge do absurdo aconteceu no ano de 1979, com a “V Copa Brasil” (sem o “do”), nome oficial do campeonato brasileiro da época. Governo militar, tempos de ditadura e inúmeros apadrinhamentos. Muitos convidados para a festa. O resultado foi uma competição com 96 clubes. Nem me perguntem como conseguiram. Em 1980, diminuiram a quantidade e mudaram o nome e o formato: Passou a se chamar “Taça de Ouro” com 40 clubes (o que já era muito) e para não tirar o doce da boca do restante das agremiações, criaram uma segunda divisão camuflada, que se chamou “Taça de Prata”, com 64 clubes. Explico: Segunda divisão camuflada porque os 4 melhores times da Taça de Prata, entravam na Taça de Ouro que era dividida em quatro grupos. Sobrava um grupo pra cada. Portanto, se seu clube participou da Taça de Prata, vai ter muita discussão se ele já jogou ou não uma “segunda divisão” do nacional. Olha só a confusão. Obs: Este formato foi até 1983, quando mudou tudo novamente.

Citei a fase áurea da quantidade de clubes do futebol brasileiro para mostrar que estamos recorrendo no mesmo erro do passado. Inchando campeonatos, estendendo o calendário, e bombardeando o espectador com jogos ruins e apenas para encher linguiça e também a programação da TV, utilizando o português bem claro. A diferença é que o futebol de hoje está bem pior que naquela época. E mais triste como citei no início. A Taça Libertadores foi vulgarizada, e está cada vez menos interessante. Clubes que pelo quesito técnico e tradição, quiçá chegariam ou chegarão a uma final, quanto mais a um título deste torneio.
Mais desgosto é quando vemos uma Champions League, só que agora pelo efeito inverso. Times que tratam muito bem a bola, como Bayer, Borussia, Barcelona, Real Madrid. Mas também não são muitos, estes poucos que me vieram à cabeça. Mas já são suficientes para transformar a Champions numa vitrine. Como deveria ser a nossa Libertadores.
Por estas e outras que “dentre as coisas menos importantes” como diz Milton Neves, o futebol para mim está se tornado cada vez menos importante. Acompanho e torço pelo meu clube do mesmo jeito como sempre fiz, mas tenho procurado algo mais interessante pra fazer, principalmente nas noites de quarta-feira e domingos.

 
Temas destacados: Padrão Fifa, Organizadas, Torneios Inchados.

 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Contagem Regressiva para a Copa do Mundo: Passividade letárgica.

Texto escrito para o site Informação Virtual - Resolvi publicá-lo no Patativa da Bola como um desabafo, contradizendo um pouco o teor esportivo do espaço. Quero, de antemão, pedir desculpas aos colaboradores, por introduzir um assunto tão destoante daquilo que geralmente acompanhamos por aqui. 


O Brasil não quer a Copa do mundo. Vimos como clareza essa manifestação nos quatro cantos do país; num movimento em massa, uma verdadeira invasão nos espaços públicos, de pessoas portando faixas de reprovação e descontentamento: Não queremos a Copa do Mundo no nosso país! Antes mesmo da entidade máxima de futebol, a FIFA, tirar o papel com o nome do Brasil, diante das autoridades democráticas brasileiras, o povo já sabia que a Copa não se fazia com hospitais. Mas, infelizmente, naquele momento nos comemoramos.

Era notório nossa queixa, e por elas, os organizadores resolveram cortar gastos. A primeira ação foi tirar projetos inviáveis, enxugar o desperdício. Não construir estádios de futebol onde quase não se pratica esse esporte. Depois resolveram excluir decisões políticas na escolha das sedes dos jogos. Em terceiro, talvez o importante: projetos sóbrios, viáveis e sem dinheiro público. Tudo isso com um elaborado plano de melhorias da infraestrutura da redondeza onde os estádios seriam construídos.

E mais uma vez o povo não foi ouvido.

Estavam todos reunidos, pintando as ruas de verde e amarelo. Pisamos em nossas cores, sempre. Jogamos contra nossa história. Manchamos a nossa identidade. A nossa revolução sofre de uma intriga manifestação letárgica. Fomos para a rua apenas discutir o leite derramado - Quer dizer, alguns poucos brasileiros se sentiram incomodados - Outros esperam apenas o circo pegar fogo. Torcem para que as coisas não funcionem, desejam o pior, profetizam a catástrofe. Tudo nos leva a pensar que as coisas não funcionarão na Copa, pois também não funcionam sem ela. A Copa do Mundo não se faz com hospitais, mas um país se faz com uma porção de coisas que não temos e que nunca reivindicamos.

Esses profetas escatológicos são as pessoas comuns da sociedade. Pegam trem todos os dias, estão nos ônibus, usam todos os serviços públicos. Já foram assaltadas, sequestradas, sofreram algum tipo de violência. Sou eu, você nas filas. Aqueles que fazem conta todo final do mês esperando ter algum trocado. Quem viu ou precisou usar o serviço público de saúde. São pessoas que perderam todas as esperanças em seu país, aqueles que repetem aos quatro cantos: já pensou na Copa? Já pensei na Copa, meus caros, e nada vai ser pior nem melhor, pois continuamos brigando com as pessoas erradas e de maneira errada.

Não queremos a Copa do Mundo, não queremos os gastos de um evento tão privado e elitista. Não queremos melhores estádios onde não saberemos quando iremos usufruir. Não queremos políticos e empresários ganhando dinheiro que é nosso, dos nossos impostos; as contas que não batem e que são ajustas em planilhas como se ninguém realmente estivesse preocupado em dar qualquer satisfação. Mas reclamamos tarde demais, quem ganhou, e se ganhou dinheiro de forma ilegal, já está rindo à toa. Já está olhando para a Copa do Mundo como um evento do qual ele não faz parte. Sobrou para todo mundo a conta e a vergonha. Imagina na Copa?

O sentido vira-lata usa um país em iguais condições para mostrar nossa derrota: A África do Sul. País que tem tantos ou mais problemas que o nossos, país financeiramente inferior, no entanto saiu vitoriosa em muitos aspectos. Afinal, porque o Brasil não consegue? O quê em nosso povo é tão desprezível e indiferente que não sabemos como nos comportar nem mesmo quando estamos sendo prejudicados? Nossa educação? Nosso sentido coletivo? Nossa maneira de tirar o corpo fora de qualquer crítica que, em muitas ocasiões, também somos responsáveis?

Infelizmente o fracasso da Copa do Mundo, se realmente acontecer, tem lá sua coautoria. E não pensem que os políticos agem sozinhos, eles tem a nossa concordância. Os gastos absurdos, a falta de planejamento; a infraestrutura capenga. Tudo tem uma explicação. Os aeroportos sucateados, os meios de transportes ineficientes, a desvalorização do ser humano, estrangeiro ou não, tudo isso é um pouco do Brasil, ai ai.  Somos nós, junto aos nossos eleitos, responsáveis por todo e qualquer fracasso. E depois da Copa do Mundo, ainda assim continuaremos sem hospitais, pois pouco sabemos cobrar, criticar e melhorar. Continuaremos apontando o dedo na nossa ferida, como se o outro ficasse ofendido.


O Brasil não quer a Copa do Mundo, mas irá comemorar seus dias, com cerveja e churrasco; como sempre faz em seus dias de glória e alegria. A cidadania continuará em segundo plano, ou em caso de derrota da Seleção Brasileira.







sexta-feira, 7 de março de 2014

O curinga do Felipão


Tudo bem, o jogo contra a África do Sul foi divertido. Vitória por goleada nem sempre é parâmetro, mas qualquer vitória sempre é uma pista. Felipão está no caminho certo. Depois da tumultuada passagem do Mano Menezes, que teve que fazer a faxina - o jogo sujo - restou ao Felipão arrumar a casa. E está dando jeito. Definido quase a totalidade do time que disputará a Copa do Mundo no Brasil. Segundo ele, a lista está 95% completa. A mudança na relação ocorrerá por contusão ou por um fenômeno qualquer que possa acontecer nesses três meses: o surgimento de um novo Pelé não foi descartado, por exemplo.

A responsabilidade da seleção brasileira é grande: tanto no aspecto esportivo quanto social. Uma crise dentro de campo pode fomentar ainda mais a crise política. O grupo Black Bloc adoraria ver a seleção brasileira cair na primeira fase: é o empurrão necessário para derrubar a lona do circo. Pão e circo, secular matemática política, maquiavélica ou não, mas muito contemporânea. Aqui não é a nossa intenção sugerir um novo modelo econômico, nem fazer críticas ao planejamento estratégico da construção dos Estádios. Isso quem deve julgar é o poder público, a sociedade. Espaço sobre esporte, ainda que alienado, mas focado em seu assunto principal: o futebol.

Então, voltamos aos percentuais.

Segundo alguns especialistas, alguns nomes estão sendo estudados por Felipão por serem considerados jogadores diferenciados. Se eles são diferenciados, qual afinal é a dúvida em convoca-los? É simples: a fase dos jogadores em seus respectivos clubes não são as melhores. Casos como Lucas e Robinho se enquadram nessa característica. Outros nomes têm chances remotas. Casos como Kaká e Hernanes são emblemáticas. Kaká é sempre lembrado pelos jornalistas e comentaristas, mas nunca pelo Felipão. Há quem considere um nome mais tarimbado em relação ao Robinho, por exemplo.

Considerando as convocações, as entrevistas e tudo que se falou da seleção brasileira nos últimos meses, segue um apanhado da possível relação de convocados para a Copa do Mundo no Brasil. Em relação às oito vagas do meio de campo para frente, existe uma única dúvida: Hernanes ou Robinho. Essa interrogação não é causada por problemas técnicos, mas por problemas físicos do Fred. Caso Felipão não possa contar com o jogador durante a Copa do Mundo, precisará de um nome que possa fazer duas funções: ou de centroavante ou de meio campo. O nome do Robinho aparece mais forte como esse curinga.


Goleiros:
Júlio César (t) - Jefferson (r) e Victor.

Lateral direito:
Daniel Alves (t) - Rafinha (r)

Lateral esquerdo:
Marcelo (t) - Filipe Luis (r)

Zagueiros:
Thiago Silva e David Luiz (t) - Dante e Réver (r)

Volantes:
Luiz Gustavo e Paulinho (t) - Ramires e Fernandinho (r)

Meio:
Oscar, Neymar e Hulk (t) - Bernard, Willian e Hernanes* (r)

Centroavante:
Fred (t) - Jô (r)


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Carrinho sem freio



Demorou, mas, voltei. E pronto pra mais uma temporada de muito futebol e bate papo nesse espaço. Estaduais, Brasileiro, Copa do Mundo, etc. O ano de 2014 será cheio de futebol, pra quem gosta e, para aqueles que não gostam... bem,  sempre existe alguma ilha paradisíaca no sul do Pacífico esperando pela sua visita. Feitas as saudações, como diria Odorico Paraguaçu, vamos deixar de lado os entretanto e partir logo pros finalmente.

Acabo de ler que o atacante colombiano Falcão Garcia, provavelmente, ficará de fora da Copa do Mundo em razão de uma lesão ocorrida num jogo da Copa da França, entre o seu time, o Monaco e o Chasselay, clube das divisões inferiores.  A ruptura dos ligamentos do joelho do atacante ocorreu num carrinho do defensor adversário Ertek já no final do match, como o leitor pode conferir aqui. Confesso que assisti ao lance repetidas vezes, em diferentes ângulos de câmera e não vi nada de mais. Nenhuma rusga de maldade ou canalhice do defensor que pudesse taxá-lo como vilão. Foi um carrinho, ou como diriam os ingleses, um slide tackle¸ proferido corretamente, por baixo, dentro das regras. Se não me falha a memória, o lance não valeu nem um cartãozinho amarelo para o zagueiro.  Segundo as regras do tal do Fair Play, foi um lance normalíssimo. Talvez, seja esse, meus caros, o grande problema da história.

O carrinho, independentemente da intenção do defensor, é uma jogada perigosíssima e com resultados imprevisíveis. Durante anos os “cardeais da bola” debateram o que seria um bom carrinho, aquele normal do jogo, do carrinho maldoso, que poderia causar lesões aos atacantes. Ao final, decidiram que nada precisava ser alterado e que o único lance a ser coibido seria o carrinho aplicado por trás no adversário. Reparem que no caso do Falcao Garcia o carrinho foi aplicado pelo lado, ou seja, dentro da regra. Isso demonstra o tipo de preocupação que as autoridades do esporte têm com a segurança do jogo e a preservação de seus maiores estrelas. O carrinho é uma jogada desnecessária e, na minha opinião, não deveria fazer parte do jogo de futebol.

?E é possível abolir o carrinho do jogo de futebol? Claro que sim. Os jogadores profissionais, nos dias atuais, são mais rápidos, mais fortes e mais atléticos que há trinta anos atrás, além disso, a bola, o gramado e as regras de reposição tornaram o jogo mais dinâmico. O carrinho é hoje o resquício de uma forma antiquada de jogo. A maioria dos times joga numa marcação por zona, com um jogador na sobra, ou seja, sempre há ao menos um jogador em condições de defender a jogada. Ademais, reparem, o carrinho, mesmo quando bem sucedido, não garante a retomada da posse de bola. Enfim, é uma jogada desnecessária e devastadora quando atinge o adversário.

A discussão sobre o carrinho deveria ter sido encarada com mais seriedade há muitos anos atrás, mas, como tudo que não gera receita aos cofres das federações, foi arquivada. Por ora, azar do Falcão Garcia que não jogará Copa do Mundo após passar mais de 02 anos em jogos eliminatórios tentando levar a seleção de seu país de volta ao Mundial, por conta de uma jogada que as autoridades do jogo recusam-se a abolir. O defensor Ertek, por sua vez, remoído pela culpa, terá que buscar o perdão por um crime que sequer cometeu. Um crime sem culpados, mas, como uma vítima já bem conhecida; o nosso bom e amado futebol.