quinta-feira, 27 de março de 2014

Narciso contra todos.



Narciso dos Santos nasceu em 23/12/1974, em Neópolis, Sergipe. Surgiu para o futebol entre 1993/94, e após uma passagem pelo Paraguaçuense, equipe do interior paulista, foi tentar a sorte no Santos Futebol Clube. Uma época difícil para o Alvinegro Praiano: 10 anos sem títulos, o clube não tinha estrutura, e vivia em situação financeira crítica.
Me lembro do surgimento do Narciso no Santos. Um zagueiro, rápido, bom em bolas altas, se arriscava no ataque, mas não tinha a técnica que o santista almejava. Muitas críticas ao jovem Narciso, e eu também não sentia muita firmeza no zagueiro. Mas Narciso se firmou, ganhou personalidade e passou a ser o capitão da equipe. Depois de uns dois anos como zagueiro, Narciso passou a ser volante. Não lembro agora qual treinador o colocou nesta posição, mas seu futebol cresceu muito. Chegou até a ser convocado para a Seleção, apesar das críticas, antes da Copa de 1998.
Disputa do título da Copa Conmebol de 1998, no jogo que ficou conhecido como Batalha de Rosário, contra o Rosário Central da Argentina. Jogo tenso, estádio acanhado e apinhado de gente. Jogo temido pela segurança e integridade dos jogadores. Tudo aquilo que já estamos acostumados: arremesso de objetos no campo, cusparadas, xingamentos. Um empate era suficiente para garantir um título internacional para o Santos, depois de sei lá quanto tempo. Fim de jogo (0x0), e após o apito do árbitro, a primeira atitude de Narciso foi reunir todos os jogadores ao círculo do meio-campo; não para comemorar, mas para garantir a segurança, da mesma forma que uma manada de búfalos se protege dos leões. Foi uma cena que me marcou como torcedor e uma constatação do espírito de liderança daquele jogador.
Na melhor forma e fase se sua carreira, Narciso é diagnosticado com leucemia, e sua luta agora era para manter-se vivo e achar algum doador.  Me impressionou a primeira vez que vi Narciso na TV após sessões de quimioterapia: cara pálida e desfigurada, e um físico que nem lembrava ser de um atleta. Doença terrível essa. Teve um declínio no seu padrão de vida, já que o Santos não pagava o que ele recebia como jogador. Não achava-se doador para Narciso, e se não me engano, houve até rejeição de um transporte que havia feito. Mas por sorte, o doador compatível estava bem próximo a ele: sua irmã.
Mas “apenas” a cura para Narciso não bastava. Queria dar um “chute” de vez nesta doença e voltar a jogar bola. Depois de mais ou menos três anos de tratamento, Narciso volta aos gramados em 2003, no estádio Couto Pereira em Curitiba, mesma cidade em que fizera tratamento. Evidente que não começou jogando, e foi aplaudido de pé quando entrou em substituição. E Narciso teve até chance de gol para o Santos. Mas em virtude de uma doença que mina o sistema imunológico e ser um esporte que exige cada vez mais do físico, o jogador não conseguia ter uma sequência e também ficava mais vulnerável a contusões. Em 2005 pendurou as chuteiras e passou a ser auxiliar técnico no Santos.
E Narciso deu prosseguimento. Foi treinador das categorias de base do Santos e ganhou títulos com a molecada e também faturou uma Copa São Paulo pelo Corinthians. Tem sido a revelação neste atual campeonato paulista com o modesto Penapolense. E a façanha de eliminar o São Paulo no Morumbi e até agora o único time que venceu e goleou o Santos no certame.
O Penapolense não possui nenhum esquema tático revolucionário como tentou o Audax, mas vejo que a equipe encarna este espírito do Narciso, que é o de luta e superação. E o “filho” agora, torna à casa, no duelo contra o clube que o revelou, pela semifinal do estadual. E num cenário que tem sido terrível para os adversários até o momento, a Vila Belmiro. E como nada tem sido impossível para Narciso, vai saber se o time de Penápolis apronta novamente. Mas independente do que ocorra, o ex-jogador e treinador é um vencedor. Por tudo que passou desde os tempos de jogador, passando pela doença, e pela superação espelhada na sua equipe. E acredito que estes jogadores se espelham na história do Narciso.
"Na mitologia grega, Narciso era um herói do território de Téspias, famoso pela sua beleza e orgulho. Filho do deus Cefiso e da ninfa Liríope. O adivinho Tirésias vaticinou que Narciso teria vida longa caso não contemplasse a própria imagem". Será que há alguma semelhança para o nosso Narciso contemporâneo? Tudo bem, pode até parecer um esforço de imaginação, mas mesmo assim deixo para os amigos concluírem...
 

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