Narciso dos Santos nasceu em 23/12/1974, em Neópolis,
Sergipe. Surgiu para o futebol entre 1993/94, e após uma passagem pelo
Paraguaçuense, equipe do interior paulista, foi tentar a sorte no Santos Futebol Clube. Uma época difícil
para o Alvinegro Praiano: 10 anos sem títulos, o clube não tinha estrutura, e
vivia em situação financeira crítica.
Me lembro do surgimento do Narciso no Santos. Um zagueiro,
rápido, bom em bolas altas, se arriscava no ataque, mas não tinha a técnica que o santista almejava. Muitas críticas ao jovem Narciso, e eu também não sentia muita firmeza
no zagueiro. Mas Narciso se firmou, ganhou personalidade e passou a ser o
capitão da equipe. Depois de uns dois anos como zagueiro, Narciso passou a ser
volante. Não lembro agora qual treinador o colocou nesta posição, mas seu
futebol cresceu muito. Chegou até a ser convocado para a Seleção, apesar das
críticas, antes da Copa de 1998.
Disputa do título da Copa Conmebol de 1998, no jogo que
ficou conhecido como Batalha de Rosário, contra o Rosário Central da Argentina. Jogo tenso, estádio acanhado e
apinhado de gente. Jogo temido pela segurança e integridade dos jogadores. Tudo
aquilo que já estamos acostumados: arremesso de objetos no campo, cusparadas,
xingamentos. Um empate era suficiente para garantir um título internacional
para o Santos, depois de sei lá quanto tempo. Fim de jogo (0x0), e após o apito
do árbitro, a primeira atitude de Narciso foi reunir todos os jogadores ao
círculo do meio-campo; não para comemorar, mas para garantir a segurança, da
mesma forma que uma manada de búfalos se protege dos leões. Foi uma cena que me
marcou como torcedor e uma constatação do espírito de liderança daquele
jogador.
Na melhor forma e fase se sua carreira, Narciso é
diagnosticado com leucemia, e sua luta agora era para manter-se vivo e achar
algum doador. Me impressionou a primeira
vez que vi Narciso na TV após sessões de quimioterapia: cara pálida e desfigurada,
e um físico que nem lembrava ser de um atleta. Doença terrível essa. Teve um
declínio no seu padrão de vida, já que o Santos não pagava o que ele recebia
como jogador. Não achava-se doador para Narciso, e se não me engano, houve até
rejeição de um transporte que havia feito. Mas por sorte, o doador compatível
estava bem próximo a ele: sua irmã.
Mas “apenas” a cura para Narciso não bastava. Queria dar um
“chute” de vez nesta doença e voltar a jogar bola. Depois de mais ou menos três
anos de tratamento, Narciso volta aos gramados em 2003, no estádio Couto
Pereira em Curitiba, mesma cidade em que fizera tratamento. Evidente que não
começou jogando, e foi aplaudido de pé quando entrou em substituição. E Narciso
teve até chance de gol para o Santos. Mas em virtude de uma doença que mina o
sistema imunológico e ser um esporte que exige cada vez mais do físico, o
jogador não conseguia ter uma sequência e também ficava mais vulnerável a
contusões. Em 2005 pendurou as chuteiras e passou a ser auxiliar técnico no
Santos.
E Narciso deu prosseguimento. Foi treinador das categorias
de base do Santos e ganhou títulos com a molecada e também faturou uma Copa São
Paulo pelo Corinthians. Tem sido a revelação neste atual campeonato paulista
com o modesto Penapolense. E a façanha de eliminar o São Paulo no Morumbi e até
agora o único time que venceu e goleou o Santos no certame.
O Penapolense não possui nenhum esquema tático
revolucionário como tentou o Audax, mas vejo que a equipe encarna este espírito
do Narciso, que é o de luta e superação. E o “filho” agora, torna à casa, no
duelo contra o clube que o revelou, pela semifinal do estadual. E num cenário
que tem sido terrível para os adversários até o momento, a Vila Belmiro. E como nada tem sido
impossível para Narciso, vai saber se o time de Penápolis apronta novamente.
Mas independente do que ocorra, o ex-jogador e treinador é um vencedor. Por tudo
que passou desde os tempos de jogador, passando pela doença, e pela superação
espelhada na sua equipe. E acredito que estes jogadores se espelham na história do Narciso.
"Na mitologia grega, Narciso era um herói do território de Téspias, famoso pela
sua beleza e orgulho. Filho do deus Cefiso e da ninfa Liríope. O adivinho
Tirésias vaticinou que Narciso teria vida longa caso não contemplasse a própria
imagem". Será que há alguma semelhança para o nosso Narciso contemporâneo? Tudo bem, pode até parecer um esforço de imaginação, mas mesmo assim deixo
para os amigos concluírem...

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