Quem diria? Enquanto o desânimo e
a apatia tomavam conta do torcedor de futebol, eis que na noite de ontem, no
lendário Estádio Urbano Caldeira, foi escrita mais uma bela e inusitada página
do nosso futebol brasileiro. Algo a ser tatuado na memória do torcedor por
muitos anos. Uma goleada indiscutível, absoluta do time santista contra os seus
rivais corintianos.
Não, não é exagero. Considero o 5
a 1 o placar mais insuspeito do futebol. Todos os outros resultados, sem
exceção, admitem, no mínimo, cinco minutos de discussão. Sempre haverá um lance
discutível, um erro do bandeira, um minuto a menos de acréscimo ou até mesmo um
corpo mole do time pra derrubar o técnico. Tudo isso vale o debate. No 5 a 1,
meus amigos, dispensa-se o falatório. Não há argumentos que desabonem ou
desqualifiquem o 5 a 1. Fecha a conta, passa e régua e vamos embora. O 5 a 1 é
a demonstração numérica da superioridade técnica, tática, física e emocional de
um time sobre o outro.
Um revés de 5 a 1 é doloroso
demais para o torcedor, independente da importância do jogo em disputa. Quando
o vareio, o chocolate, a saraivada, o sapeca iaiá ,ocorre num clássico, então,
estamos diante de um tragédia digna da novela do Walcyr Carrasco (Amor à Vida),
que se encerra amanhã. A sensação de impotência do torcedor diante da goleada é
incompreensível para quem não torce enão ama de verdade o clube do coração.
Somente o Dr. César da novela, agora cego, desiludido e mal amado entenderia esse sentimento.
A vontade do torcedor é de invadir
o campo, apagar as luzes do estádio, tirar o time de campo. A humilhação nessas
horas dá de goleada na razão. O Fair Play do torcedor transborda num copinho
plástico atirado violentamente contra o banco de reservas do adversário, contra
o árbitro, contra qualquer um que faça pouco de sua dor.
Só o 5 a 1 causa essa dor, esse
aperto no coração. Qualquer goleada maior que essa cheira à entregada, à
fritura de técnico e a todo um conjunto de teorias de conspiração que somente o
torcedor é capaz de racionalizar. Entendo o sofrimento do torcedor corintiano
na data de hoje. Já passei por isso, claro. Aliás, o drama do 5 a 1 acontece somente
nas melhores famílias. É do jogo.
O torcedor corintiano, o fiel,
esse personagem do imaginário futebolístico, como manda a tradição, saiu do
estádio apenas após o último apito do árbitro, atônito, desnorteado, descrente
daquilo que seus olhos marejados presenciaram. O torcedor de sofá, por sua vez,
que aguardou o final da novela, do BBB, para torcer pelo time, teve pesadelos terríveis
protagonizados por Arouca, o craque santista na partida de ontem. Acordou
várias vezes durante a noite, sobressaltado, suado, ao som da própria voz, gritando:
- Não, Arouca, chega!

2 comentários:
Belíssimo texto, meu amigo. Eu não tive condições (e talvez capacidade) de falar qualquer coisa sobre o jogo de ontem. Até mesmo, acreditem ou não, parei com o sofrimento no segundo gol santista.
Hahaha o "sapeca-iaiá" foi a melhor.
Já Arouca, foi um monstro. Ou como disse, um pesadelo para os corintianos. Já havia ficado fã deste cara, agora então...rs
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