E o velho ranzinza
reapareceu com seus palpites. Anda gritando em meus ouvidos, como se tivesse
razão em muitos absurdos que revela. Disse, nas entrelinhas, que o futebol
brasileiro não sobreviverá ao segundo holocausto no Maracanã. Não sobreviverá,
pois está sem forças, machucado e doente. Conta com apoio invisível de um
passado distante, figuras santificadas nas paredes dos bares: Pelé, Romário e
Ronaldo. Personagens que habitam o imaginário do futebol em todo mundo, como
mitologia cheia de romantismo e heroísmo. Personagens que na prática não
existem mais.
Ele, o velho, senta
numa dessas cadeiras de ferro, pede uma cerveja e começa contar seus casos. O
velho sapeia os jornais, e de futebol, nas páginas esportivas, não encontra
nada. Mulheres, televisão e produtos de beleza. O esporte futebol é tão glorioso
que se perdeu no reflexo do mundo artístico. Jogador de futebol canta, dança e
participa de programas de auditórios. São seres repletos de carisma e pouco
futebol. O velho ri de alguns craques do passado, que resolviam em campo o que
destruíam fora dele. Hoje o jogador de futebol serve para tudo, menos jogar bola
– ele diz com um sorriso sem graça.
Pasmem! Não falamos
mais “jogar bola”, mas simplesmente “jogar futebol”. São coisas distintas;
mesmo parecendo idênticas. O saudoso futebol era indecente. Era simplesmente
jogar bola. Jogar bola na rua, nas escadas; em qualquer metro quadrado. Jogar
bola sem bola, às vezes. Jogar bola com
latinha de refrigerante e coisa e tal. O velho é categórico: não teremos mais
jogadores de bola enquanto os lustres e iluminarias continuarem intactos. O
primeiro ato de subversão de qualquer jogador era quebrar alguma coisa em casa,
para delírio dos pais e ojeriza das mães. Por isso, diz o velho; o futebol anda
tão comum.
O futebol é
previsível em sua essência. Até os resultados tão incomuns hoje são
considerados coisas do jogo. Os torcedores acabam se conformando com a máxima
de que “não existe mais bobo no futebol”, quando a verdade é ingrata e menos
direta: bobos somos nós na valorização dessa mesmice cênica. O jogo de futebol
segue o roteiro pragmático, covarde e tecnológico da mesma ladainha de sempre.
E quando muito, traz algum tipo de sentimento, de espantosa emoção; e da
sensação de que “não sabemos o final do capítulo”.
Quando muito surge
no futebol brasileiro um cara com um pouco mais de brilho, que joga o roteiro
dos técnicos no lixo e decidem pela superioridade em campo. São moleques que
andaram quebrando coisas em casa, que torciam pelo presente do final de ano ser
uma bola; e que conheceram alguns atalhos do campo na malícia, na molecagem e
na vivência do futebol, sem ser pelos jogos eletrônicos. Mas esses moleques
também não são mais ídolos, são personagens que nos auxilia na escolha da
operadora de telefonia, de remédio para a família e onde devemos tirar nossas
férias. Lembro-me pouco de jogadores de bola participando de comerciais na
televisão, muito diferente dessa invasão em telejornais, novelas e programas
musicais de final de semana.
O velho pede mais
uma cerveja, está quase na hora de ir para casa. Hoje é dia de jogo, mas ele
prefere dormir. Vai assistir mais um capítulo chato da novela, vai discutir com
a esposa sobre o médico que ele recusa a se consultar; mas não vai falar nada
sobre futebol. Não vai falar, pois não existe assunto, existe apenas especulação.
Não comentará sobre tática, pois isso virou apenas cifra. Mas, mesmo assim,
dormirá pensando em como a seleção que ele sempre gostou poderá ser aquilo que
há de melhor no mundo, repetindo o mantra de tempos atrás, ““Noventa milhões em
ação, pra frente Brasil do meu coração......”
Um comentário:
Há um tempo (um bom tempo, por sinal) eu tinha ouvido um comentário que a falta de campos de várzea estava matando o futebol brasileiro. Agora acredito nisso.
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