quinta-feira, 5 de julho de 2012

A conquista histórica do Corinthians e a noite em que até a minha paixão clubística prevaricou.


O clima de decisão tomou conta de SP nessa noite de quarta-feira. Estava realmente insuportável. Louco de vontade de ir a algum lugar onde não escutasse nenhum “Vai Corinthians”, “Vai Timão”, “Vai nação”, resolvi pegar uma sessão de cinema. A sétima arte, com suas salas escuras, sempre alivia nessas horas. Fui assistir ao filme do Woody Allen (Para Roma, com Amor). A sala de cinema estava às moscas. Nem uma viva alma pra contar a história. Senti-me protagonista daquela música do Raul Seixas, que fala de um dia que a Terra parou ou coisa assim. Ninguém mais se interessa pelo Woody Allen nessa cidade? Parece que todo mundo só quer saber desse negócio de Corinthians, Libertadores... Saí da sala de cinema aborrecido com a falta de prestígio do público e até falei para os meu botões: “É por isso que o país está desse jeito”.

Resolvi entrar no meu bar favorito no eixo Paulista-Augusta-Consolação. Não é favorito nem no preço, nem na qualidade do produto ou do atendimento. É favorito porque o barman é um cearense metaleiro que sempre emenda boas conversas do tipo; “já ouviu aquele som do AC/DC?”, “já ouviu o novo do Iron?”. Gente finíssima. Cheguei a imaginar que ali estaria livre da agonia corintiana dos últimos dias. Ledo engano. O meu bar favorito tinha virado um templo corintiano e o meu barman um fiel seguidor dessa seita. Tentei ainda amenizar o clima tenso do ambiente falando do quanto eu tinha gostado de um disco do Bruce Springsteen recentemente descoberto. Que nada. O barman nem deu atenção. Falou que nos últimos dias nem tinha cabeça pra pensar em música, que dormia e acordava pensando na decisão da Libertadores. Ah, como são exagerados esses corintianos!

"Vai ficar pro jogo, doutor?" – pergunta o meu barman na maior simpatia. “Que nada, meu amigo, cê sabe que eu sou são paulino roxo e do jeito que meu pé anda frio vou acabar azarando o time de vocês”. O barman ignora a minha escusa e me apresenta pra um pessoal sentado numa mesa enorme, cheia de espectadores corintianos: - "O doutor aqui é são-paulino, mas é da casa. Até o final do jogo vai estar torcendo pro timão!" Nem dei muita importância pra praga rogada pelo barman. Resolvi deixar a rabugice de lado e me juntei ao bando de loucos, doidos varridos, ou sei lá o quê. A mesa era animada, um pessoal falante que se não fosse pelo fardamento alvinegro poderia até ganhar a minha simpatia.  Tinha todo tipo de camisa ali naquela mesa. Tinha Batavo, Kalunga e até Suvinil. Entre um corintiano falando do Ronaldo Fenômeno, outro do Sócrates e até um do Basílio eis que ouço uma voz, bem feminina, rouca quase sussurando no meu ouvido – Ô são paulino, não vai dizer que cê vai torcer contra o meu time hoje! Bingo. O imponderável acontece. Naquele lugar, naquele ambiente tomado por um insano corintianismo aparece essa princesa, linda, elegante e sorridente pra melhorar o meu astral. Por essa largava tudo, meus caros, menos o meu time de coração.

Pasmem, além de linda a corintianinha era simpática, inteligente, apreciadora das boas coisas da vida. Um encanto. A lamentar somente aquela camisa Kalunga com o número 10 nas costas. A mesma do Neto, o maldito que tirou o nosso título brasileiro em 1990. Canalha! A conversa com a corintiana rolava fácil entre uma falta, um escanteio e uma cobrança de tiro de meta. Nem saberia dizer nada sobre o jogo, pois, não acompanhei. Naquele templo corintiano só tinha olhos para aquela musa. Enfim, o gol corintiano. Uma explosão de fogos, beijos e abraços. Recebi a minha parcela de amor corintiano num abraço afetuoso e um beijo da corintianinha. – E agora, vai torcer pro timão? – pergunta inocentemente a musa. Desconverso. Enquanto a tensão aumenta com a proximidade do final do jogo penso num futuro com aquela princesa, desde que ela abandone esse corintianismo, claro. Imagino como seria bom se o jogo fosse para os pênaltis, para a prorrogação, jogo extra. Aquele momento não podia acabar com um apito do homem de preto. Vai Boca! Vai Riquelme! Eu quero consolar essa corintianinha, fazê-la esquecer da derrota.

O silêncio no bar precede o segundo gol corintiano, que vem acompanhado de mais um abraço e mais um beijo. Dessa vez arrisco um french kiss. Não há resistência, pelo contrário, sou correspondido. Vai Timão! Vai Nação! Tinha sido abduzido por um bando de loucos, ou melhor, por uma coritianinha linda e louca. É, meus amigos, se até a virtude prevarica, como disse Nelson Rodrigues, que dirá a paixão clubística. Por um breve momento fiquei feliz. Não pela conquista corintiana, que fique bem claro, mas, por estar participando daquele momento histórico ao lado daquela corintianinha. O jogo termina, a festa toma conta das ruas e a lembrança da noite ficou num bilhetinho amoroso escrito num guardanapo de bar e numa sessão de cinema marcada pra sábado. Saio do bar certo de que os corintianos não são tão ruins assim, nem tão chatos. Vai ver são gente como a gente. Até que passa um carro na Av. Paulista, tocando o hino do time no último volume, com um sujeito desdentado gritando a plenos pulmões: “Os bambi pira!” -  Crápula, corintiano dos infernos, tomara que o Chelsea de um sacode em vocês no Japão – penso eu já recomposto do meu rompante corintianista.