domingo, 16 de fevereiro de 2014

Aconteceu num 16 de fevereiro.

A multidão parou. E o tento solitário de Pelé veio como um toque sobrenatural numa peleja decidida. Mas o Vasco continuava na frente. O Santos fizera o seu “goal” de honra e só. Pois bem – e continua a batalha. O time do Santos arquejava como um asmático em último grau. Era preciso impedir que Pelé tocasse na bola. Nos últimos segundos, há uma chance do Santos, Toninho enche o pé e fura. Estava salvo o Vasco. Não, não estava salvo. Falhou Toninho, mas Pelé apareceu. Não estava lá, mas vejam vocês – desabrochou na hora e no momento certo. Enfiou a bola lá dentro e com que graça, sortilégio, beleza e “goal” perfeito. Irretocável como um soneto antigo. E aí está porque nós o consideramos o maior jogador do mundo. Amigos, não há Santos e insisto: Há Pelé. Dizia-me um colega, ontem no Maracanã: “O crioulo teve sorte”. Exato. Mas a sorte pertence aos Pelés, aos Napoleões. A história deu a Bonaparte, de mão beijada, uma Revolução Francesa. E é claro que as potências misteriosas do destino carregam Pelé no colo. Alguém diria que para os dois “goals” Pelé pouco ou nada fez, pelo contrário: quem enfia nos três minutos de uma partida dois “goals” já fez tudo. E mesmo que não jogasse nada, amigos, só os pernas de pau, os cabeças de bagre precisam jogar bem. Um Pelé pode sentar em campo para ler gibi. Com um leve toque, marcou um “goal” , com um segundo toque imponderável, empatou”.

Este jogo também ficou conhecido pelas provocações de Brito e Fontana sobre Pelé durante toda a partida, se perguntando um para o outro: " Cadê o Rei? Hoje ele não veio? " Pelé também narra o fato: 

 Naquele dia, o Fontana e o Brito me encheram demais. Toda vez que a bola saía e eu ia buscar, um deles chutava mais longe, aproveitando que, naquela época, não havia tantos gandulas, depois, falavam: “É crioulo, essa não dá mais…”. Só que quando faltavam três minutos para o jogo terminar, fiz um gol, descontando para 2 a 1. Faltando dois minutos, fiz outro. Aí peguei a bola, dei para o Fontana e disse: “Tá vendo isso aqui? Leva para a sua mãe de presente”. Mas eu não falei que “foi o Rei que mandou”.


Jogo válido pelo Torneio Rio-São Paulo, 16/02/1963.

Foto: Pelé e Fontana.

Crônica de Nelson Rodrigues para o jornal "O Globo", 17/02/1963.

Fonte: Site Oficial Santos Futebol Clube.





3 comentários:

Sérgio Oliveira disse...

O cara escreve mais que todos os participantes desse blog juntos. Pelé jogava mais que os jogadores do campeonato paulista inteiro. Essas coisas me entristecem.....kkkkk

Cesar Augusto disse...

Ah, nem dá pra comparar. O Tio Nelson não é só melhor que todos no blog como, também, é melhor que todos os que estão por aí escrevendo sobre futebol.

Mario disse...

Quando você pensa que está escrevendo bem e lê Nelson Rodrigues, é quando caímos na real...