Ou poderia ser “V de Vingança” o nome do título que daria na
mesma. A verdade, meus caros leitores, é que a vingança é realmente um prato a
ser saboreado na temperatura mais baixa. Explico. Durante os últimos anos, nós
são paulinos, tivemos que engolir a seco uma série de derrotas e empates contra
o alvinegro paulistano. Isso mesmo. Amargamos uma desconfortável freguesia ante
o Corinthians. Técnicos caíram, outros chegaram e nécas. Nada dessa freguesia
acabar. E nem me venham com essa história de tabu, porque, pelo que eu saiba,
no futebol, tabu só aquele que o Santos impôs ao Corinthians por 11 anos. O
resto é conversa pra boi dormir ou pra preencher manchete de caderno esportivo.
O fato é que a coisa andava feia pro torcedor tricolor nesse ano de 2012. Além
de o time não jogar lá grandes cousas, ainda sofremos com o fato de sermos o
único time grande do Estado a não ganhar nenhum título nessa temporada. Pra
piorar, o arquirrival Corinthians ganhou o seu primeiro título internacional. Até
o nosso ídolo Raí foi acusado de baitolagem. O cenário não podia ser pior.
Durante meses fomos obrigados a engolir a mantra do “Vai Timão”, “Vai Nação” a
seco, tentando fingir indiferença. Haja sofrimento no metrô apinhado de gente
naquelas segundas feiras gélidas de São Paulo.
Eis que chegou o domingo. Confesso a minha covardia nesse
momento. Tenho os dois pés atrás na hora de assistir o Majestoso pela
televisão, ainda mais com comentários do Casagrande. Tentei assistir um seriado
na tevê a cabo. Ouvi os primeiros fogos pipocarem na rua de casa. Gol do
Corinthians. Logo pensei que a vaca tinha ido pro brejo. Mais uma vez
perderíamos pro Corinthians no Pacaembú. De novo, não. O Corinthians teve, pelo
menos, umas quatro chances claras de gol. Santo desespero, Batman! Eis que numa
arrancada do Lucas e um passe açucarado para o Luis Fabiano o São Paulo empata
a peleja. É óbvio que eu nem assisti o gol, pois estava entretido num
documentário médico no Discovery Channel. Só fiquei sabendo do empate por meio
de um “Chupa Gambá” desferido a plenos pulmões pelo vizinho do andar de cima.
Muita calma nessa hora, vizinho! Tem muito jogo pela frente. Intervalo no
Pacaembú.
Resolvo utilizar a arma letal contra o tédio nos domingos: o
controle remoto. Aparelho fundamental nos dias atuais. Filme pela metade, não.
Videoteipe do campeonato russo, também não. Vôlei de praia, nem pensar.
Documentário sobre cirurgia plástica, eu dispenso. Nossa, não tem jeito dessa
Eliana ficar feia? Enfim, numa dessas ironias do destino, zarpo o controle
remoto justamente na hora do drible da vaca. Isso mesmo. O Luis Fabiano aplicou
um justíssimo drible da vaca no goleiraço Cássio e coloca o São Paulo na frente
do placar. Resta muito tempo pra acabar. Melhor voltar pro programa da Eliana.
No “mute”, claro. Já estou com os fones de ouvido escutando o som do “The
Stooges”. Enquanto eu ouço “I wanna be
your dog” o jogo rola solto no Pacaembú. E o sofrimento da torcida tricolor
continua. “No fun my babe, no fun”. Nada de fogos pipocando na rua. Será que o
jogo acabou? Sintonizo bem na hora em que o Romarinho perde a última chance de
gol do clássico. Acabou, apita logo, seu juiz! Fim de jogo, fim de freguesia. A
nossa torcida finalmente pode entrar no mesmo metrô apinhadíssimo, na
segunda-feira de cabeça erguida. Digam o que quiserem, mas, ganhar um clássico
é quase tão bom quanto ganhar o campeonato. E a vingança é um “vichyssoise” dos
injustiçados, como bem sabe a Nina/Rita da novela.

Um comentário:
Alguma coisa de bom precisava acontecer, não? Bom, a lua-de-mel com o Timão ainda não acabou. A verdade é que esse campeonato brasileiro só servirá mesmo para quebra de tabu (de forma negativa) para o Corinthians.
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