Após 14 anos o Santos voltava a disputar uma decisão no Maracanã. O adversário era o mesmo, o Clube de Regatas Flamengo, o time das massas, válido agora pelo Torneio Rio-São Paulo de 1997. Na ocasião anterior a competição era válida pela Taça de Ouro de 1983. Assim como naquela ocasião, o Santos fizera a primeira partida no Morumbi e vencera pelo mesmo placar: 2x1. Um empate no Maracanã e o Peixe seria campeão. Naquela primeira ocasião, o Flamengo contava com Zico (o melhor jogador brasileiro na época) e nesta, com Romário (principal jogador da Copa de 94). Júnior, lateral-esquerdo do Flamengo em 1983, era o técnico em 1997.
Todas estas coincidências estavam criando um clima favorável ao Flamengo, e a torcida também não deixou por menos: praticamente lotou o estádio, com mais de 70.000 rubro-negros. Como técnico do Santos, outro ex-rubro-negro, também ex-lateral esquerdo, mas que não conseguia ser titular por jogar na mesma posição que Júnior: Wanderley Luxemburgo, o melhor técnico em atividade no Brasil na ocasião.
Santos entrou em campo, tendo que enfrentar o Maracanã lotado, Romário, e o fato de não conseguir um título desde 1984. O time teria que ter muita personalidade para enfrentar todo este cenário. E de fato teve. Ao contrário do que muitos esperavam, o Flamengo não começou arrasador como em 1983. Muito pelo contrário, quem começou infernizando e quem criou as primeiras chances de gol foi o Santos através do habilidoso Alessandro. Rápidos toques de bola envolviam a zaga rubro-negra. Aos 33 minutos depois de tanto pressionar, finalmente o gol santista. Anderson Lima, numa cobrança de falta, colocou no canto esquerdo do goleiro Zé Carlos. Peixe 1x0. Até então, o Fla só havia tido uma única chance de gol, com Lúcio. Mas o time da Gávea tinha qualidade e começou a acordar. Aos 37', Sávio é derrubado por Ronaldão, na área que chegou atrasado no carrinho. Romário converte com Zetti no meio do gol: 1x1. O Maracanã aos gritos de "ú-terêrê" começou a se inflar e os santistas pareciam ter sentido o golpe. Novamente Sávio, aos 45', desta vez em jogada pela esquerda, cruza para o baixinho que só teve o trabalho de tocar para o gol na entrada da pequena área: 2x1. Fim do primeiro tempo, e parecia que a escrita seria novamente rubro-negra. Com o Maracanã tendo virado um caldeirão e ao som de "ú-terêrê", o Santos desce ao vestiário sem a vantagem que havia conquistado.
Segundo tempo, e o Flamengo começa pressionando, querendo liquidar de vez a partida. Lúcio chuta cruzado e a zaga santista rebate, isolando, chutando para o mato, pois o jogo era de campeonato. Mas os santistas esfriaram os nervos, e novamente retomaram as ações da partida, com Alessandro novamente criando perigo para a zaga flamenguista. Macedo quase marcou de cabeça após uma defesa "a la Gordon Banks" de Zé Carlos, à queima roupa. Foi então que a estrela de Luxemburgo brilhou. Parecia mesmo ser um técnico predestinado. Por volta dos 30 minutos, ele saca Rogério Seves para entrada do desconhecido Juari (jovem jogador e que tinha o mesmo nome do outro Menino da Vila de 1978). Escanteio para o Santos, e após rebote, Juari no seu primeiro lance, acerta um petardo de fora da área, no ângulo direito de Zé Carlos, que bateu com as costas na trave e mal viu por onde a bola passou. O suficiente para esfriar o caldeirão, e os ânimos dos rubro-negros que fariam pouca coisa no jogo após isto, apesar de ainda haver muito tempo.
Fim de jogo e o Santos sagrava-se campeão do Torneio Rio-São Paulo, apesar de começar a competição desacreditado. Desta vez a festa era alvinegra, palco que até já foi a "casa" santista na época de ouro do clube. Com a 5ª conquista, era o clube que mais somava títulos neste torneio até então. A torcida santista poderia gritar: "ú-terêrê" ou "é campeão!!!".

No centro da foto (ao lado do zagueiro Sandro, Alessandro e Ronaldão) está Juari, o autor do gol do título. O herói da decisão não se firmou na Vila Belmiro. Foi jogar no Gama/DF e depois no Londrina/PR, dentre outros clubes.
E os calções estrelados? Lembram-se deles? Posso dizer que são bem melhores que o anterior (que eram quadriculados, e lembravam uma bandeira de chegada da F-1). Se o Santos não era um time de "estrelas", pelo menos elas sobravam nos calções.
Ficha Técnica: Flamengo 2 x 2 Santos.
Data: 06/02/1997
Competição: Torneio Rio- São Paulo 1997
Local: Estádio Mário Filho (Maracanã)
Público: 70.729
Renda: R$ 775.555,00
Árbitro: Oscar Roberto de Godói
Cartões Amarelos: Fábio Baiano, Bruno Quadros, Nélio (Flamengo); Ronaldão (Santos)
Gols: Anderson (33'- 1), Romário (37, 45 - 1); Juari (32 - 2).
Flamengo: Zé Carlos, Fábio Baiano, Júnior Baiano, Fabiano e Gilberto (Leonardo); Bruno Quadros (Iranildo), Moacir, Nélio e Lúcio (Márcio Costa), Romário e Sávio. Técnico: Júnior.
Santos: Zetti, Anderson (Baiano), Sandro, Ronaldão e Rogério Seves (Juari), Marcos Assunção, Vágner, Alexandre (Caíco), Piá, Macedo e Alessandro. Técnico: Wanderley Luxemburgo.

Adendo ou curiosidades:
Foi nesta época que a Fifa decretou que os uniformes dos times teriam que ser completamente diferentes. Nem o cadarço da chuteira poderia ser da mesma cor que a do adversário. O Santos, pela primeira vez na sua história, teria que usar calções pretos numa competição oficial. E com a camisa branca, o uniforme ficava parecido com a do rival alvinegro da capital. A solução foi usar calções quadriculados, estrelados, ou até com bolinhas se fosse preciso.
Duas novidades na regra: o tempo técnico, para os jogadores poderem tomar uma "aguinha" e o treinador passar instruções, e o tiro livre direto: após a 15ª falta sofrida, o time cobraria faltas sem barreira. O primeiro gol sofrido pelo Santos na competição, foi de tiro livre, no empate de 2x2 contra o Vasco. Esta regra no entanto não teve prosseguimento.
Romário foi o artilheiro da competição, com 7 gols.
Dizem que este título não serviu para tirar o Santos da fila. Mas era uma competição oficial, e não amistosa. Tudo bem, não era "aquele" título que os santistas esperavam ou sonhavam. Mas entrou para o currículo. E pelo histórico e circunstâncias (conforme mencionado), teve até um sabor especial. Os santistas poderiam e deveriam comemorar sim, sem medo de ser feliz...
2 comentários:
Ok. Não lembro desse jogo. Pelo seu relato parece ter sido um jogão esse aí do Maracanã. Agora, com certeza, todo mundo vai lembrar do calção estrelado e do quadriculado. Será que agora, no ano do Centenário, o clube santista não vai fazer uma edição especial desse uniforme para colecionadores? Pelos menos serve como pijama.
Tinha certeza que iria se lembrar... do calção! Na verdade o pessoal se lembra dos calções, mas não sabem definir a época ou o torneio que eles foram usados. Mas acredito que o clube não irá reeditá-lo no centenário, nem como pijama.
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