terça-feira, 1 de agosto de 2017

Diário de maratonista (Reflexões sobre a corrida 17º de 20)

Justamente quando você acha que as coisas não podem piorar, elas podem... Mas justamente quando você acha que elas não podem melhorar, elas podem. (Nicholas Sparks - escritor e roteirista norte-americano)

A maratona saiu do Parque do Ibirapuera, reconhecido local de treinamentos da capital paulista, deixando para trás mais de 16 kms de asfalto. O meu ritmo ainda estava bem cadenciado nos 5’ por quilômetro. Parece que, finalmente, o piloto automático havia sido acionado. Os pacers já não faziam a menor falta. Dali pra frente, a prova seguiria para os bairros do Itaim Bibi e Vila Olímpia.


A Cidade de São Paulo, obviamente, cresceu nas últimas décadas. Não é nem de longe o mesmo local em que nasci e cresci. A cidade expandiu para outras cercanias, mudando a sua aparência. Quando era pequeno, não existia o Centro Histórico. O que existia era o Centro ou a “Cidade” como carinhosamente chamávamos. Era lá onde estavam sediadas as grandes empresas, os grandes escritórios, os edifícios imponentes, os bancos, as grandes lojas de departamento, a boemia, enfim a chamada “Cidade” pulsava naquela época.


Nos últimos vinte ou trinta anos, São Paulo abandonou a “Cidade”. As empresas, os bancos, os escritórios migraram para a região do Itaim e da Vila Olímpia, para prédios ainda mais imponentes, espelhados e com estacionamentos amplos e subterrâneos. As lojas de departamento sucumbiram diante da nova realidade dos shopping centers e fecharam as suas portas. O prato do dia dos restaurantes foi substituído pelo menu de todos os dias das grandes franquias de alimentação. Se ficou melhor ou pior, não sei. Enfim, esse foi o percurso adotado pela cidade.


O meu percurso ainda não estava nem na metade. O retão de 3kms da Av. Pr. Juscelino Kubitschek preparava os corredores para um dos chamados trechos mais desafiadores da prova; o túnel Jânio Quadros, que passa por baixo do Rio Pinheiros. O túnel é uma descida longa e acentuada seguida por uma subida igualmente longa e acentuada, num local abafado e barulhento. Não sei ao certo quanto tempo demorei para correr esse trecho, mas avistar os raios de sol iluminando a saída do túnel foi uma das melhores imagens da prova. E, valeu, também, por poder presenciar a alegria dos corredores que iriam correr a Meia Maratona e que teriam só mais 2 kms pela frente. Deu gosto de ver a alegria estampada no rosto desses colegas.


A prova seguia em direção à Cidade Jardim, em particular ao Jockey Club de São Paulo. Ali foi feita a separação da prova. Quem corria a Meia Maratona seguiu pela direita para a entrada do Jockey, quem corria a Maratona seguiu em frente, pela Av. Lineu de Paula Machado. O meu ritmo continuava constante e completei a distância de 21,097 km (meia maratona) em 1h45min31, o que seria a minha melhor marca na prova. Não estava me sentindo cansado. Pelo contrário, estava me sentindo bem, forte e sem dores no joelho. Sentia que se conseguisse manter aquele ritmo por mais alguns quilômetros teria o melhor desempenho da minha carreira.


O percurso atravessaria a Ponte da Cidade Universitária, fazer um bate e volta pela entrada do Parque Villa Lobos e voltar, atravessando novamente a Ponte. Essa brincadeira consumiria 6 km do percurso. A prova, como já era esperado, começava a esvaziar, afinal dois terços dos corredores estavam inscritos para a meia maratona, menos de quatro mil atletas tentariam a façanha de concluir os 42 km. Eu estava entre eles.


Acredito que próximo ao km 25, por algum motivo que não consigo recordar, bebi um pouco de gatorade gelado, contrariando a minha estratégia de hidratação. Não sei se foi por culpa por ter furado a estratégia ou falta de costume de beber isotônicos durante o esforço da corrida, mas é fato que a bebida não me fez bem. Senti meu estômago pesando, um desconforto e uma leve tontura. No km 27 evitei consumir o sachê de gel carboidrato e bebi um pouco de água. O desconforto parecia ter passado. Consegui subir a Ponte pela segunda vez, mantendo, ainda, um bom ritmo, algo em torno de 5’15” por quilômetro.


Dali por diante, conhecia bem o trajeto. Entraríamos na Cidade Universitária (USP), que aos sábados, costuma ser o palco dos treinos longos da grande maioria dos corredores paulistanos. O desconforto causado pelo gatorade parecia estar superado, contudo, algo ainda mais desconfortável cruzou o meu caminho bem no início da reta que margeia a Raia de Remo da USP; a placa dos 30km.


(Continua)   

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