segunda-feira, 31 de julho de 2017

Diário de maratonista (Reflexões sobre a corrida 16º de 20)

"The only good race pace is suicide pace. And today looks like a good day to die"
- Steve Prefontaine (lendário corredor americano)


Quando essa jornada teve início eu tinha 02 objetivos: o primeiro era concluir a minha segunda maratona, provar para mim mesmo que os dez anos que me separavam da primeira maratona, não seriam um empecilho para cruzar a linha de chegada. O segundo objetivo era que essa maratona fosse algo memorável, não queria terminar a prova apontando o dedo para organização da prova, para minha escassez de tempo para seguir um programa de treinamentos ou para a pizza que eu comi na noite anterior. Sem desculpas! Queria correr os quarenta e dois quilômetros e, ao final, simplesmente curtir o resultado sem pensar no que poderia ter feito de diferente.

Para tanto, eu imaginava que deveria correr numa média de 5’30” por quilômetro, o que é um ritmo bem confortável pra mim e garantiria cruzar a linha de chegada em, aproximadamente, 3h50min. Essa, além de ser uma previsão realista, já seria a minha melhor marca na distância. Pois bem, eu encerrei todo o período de treinamentos e nos últimos dias, resolvi competir um pouco contra mim mesmo. Decidi de última hora reduzir a minha previsão de ritmo para 5’20” por quilômetro. Essa redução parece pouca coisa mais baixaria em mais de 5 minutos o meu tempo final. Pensei comigo mesmo: Por que não?

A organização da prova ofereceu pacers, que são corredores treinados para ditar determinado ritmo,  a fim de auxiliar os competidores. A única coisa que eu precisava fazer era seguir o pacer que iria cumprir a maratona em 5’20” por quilômetro. Pois bem, na hora da largada eu até tentei achar o maledetto pacer, mas no meio da multidão não consegui localizá-lo. Em contrapartida achei os pacers que iriam correr apenas a meia-maratona (21 km), num ritmo de 5’15” por quilômetro. Fiz as contas, daria algo em torno de 3h40min. Não refleti muito sobre as consequências de alterar o ritmo previsto, assim, na hora da largada, apenas aceitei o desafio que eu mesmo tinha proposto. Afinal, que mal faria? Vamos nessa!!

Foi dada a largada. Eu estava com um olho na pista e um outro olho no pacer. Correr com alguém ditando o ritmo é uma experiência nova pra mim. Confesso que pode ser bem agradável, na medida que o corredor consegue descansar a cabeça, não precisa ficar tão preocupado com o ritmo. Além disso, você não não corre o risco de ficar encaixotado atrás de corredores mais lentos. É só botar as pernas pra trabalhar e seguir o pacer. Gostaria que outras provas no Brasil oferecessem esse tipo de auxílio aos corredores.

Seguimos (eu e os pacers) bem por toda a Avenida Pacaembu e pelo trecho que percorreu o Minhocão, mas chegando na marca de 4 kms, eu percebi que algo não estava dando certo. Eu estava me sentindo um tanto preso no ritmo dos pacers. Enquanto percorrida a Av. Rio Branco sentia e achava que podia correr mais rápido que aquele ritmo. Nessa hora, meus amigos, você tem duas alternativas; ou você segue o plano, racionalmente, conforme estava previsto, ou você segue os seus instintos e tenta escrever a história de sua corrida com as suas próprias mãos. Sabia que precisava aumentar o ritmo e que isso poderia custar caro nos quilômetros finais, mas, cacete, é uma maratona, tem que ser difícil mesmo! 

E foi assim que na Praça da República eu me despedi, silenciosamente, dos pacers e fui seguir os meus instintos, escrever a história da minha corrida. Não sei se foi o Centrão e a relação afetiva que eu tenho com essa parte da cidade, se foi o clima ameno ou a adrenalina por estar participando da maratona, mas eu estava leve, focado e disposto como nunca estive em minha carreira de corredor. Meu ritmo estava em 5’ por quilômetro. Olhei para o alto e percebi a presença imponente da Catedral da Sé, com as suas linhas neogóticas refletindo os primeiros raios de sol. Pausa de alguns segundos para contemplação. Bom dia São Paulo!!

A minha estratégia de hidratação e suplementação consistia em um copo d’água, um sachê de gel carboidrato e uma cápsula de BCAA a cada 9k do percurso, nos primeiros 27k. Após isso, tentaria manter a hidratação com água ou gatorade a cada 5k e gel carboidrato e BCAA somente no km 37 e no pós prova. Esse era o plano. Como eu já tinha furado a estratégia de ritmo, resolvi seguir, pelo menos, a da hidratação. Assim, no km 9, devidamente hidratado e alimentado, saí do meu querido Centro Histórico em direção à região do Ibirapuera.

A corrida, amigos, proporciona oportunidades. Uma delas é a de percorrer a pé locais que só conhecemos pelas janelas do transporte motorizado. Um desses locais é, com certeza, a Avenida Vinte e Três de Maio, que liga o Centro de São Paulo à região do Ibirapuera. Nunca tinha pisado em seu asfalto e nem percebido a grandiosidade de seus viadutos. Até o monumento em homenagem à imigração japonesa, projetado por Tomie Ohtake e localizado em frente ao Centro Cultural Vergueiro parece muito mais pujante quando visto de perto. A maratona chegaria ao Parque do Ibirapuera após percorrer cinco quilômetros da nossa ilustre desconhecida Avenida Vinte e Três de Maio.

Não vou negar; foi uma subida longa e dura, mas nada que pudesse diminuir o meu ritmo de 5’ por quilômetro. Nem mesmo avistar, a poucos quilômetros dali, meio que surgindo do alto de uma colina, o Obelisco de São Paulo, a última morada dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (o M.M.D.C.) e de outras centenas de jovens combatentes que, em 1932 acreditaram no discurso das elites para morrer nas mãos das tropas federais. Não há como passar por esse monumento sem pensar na inocência da juventude e em sonhos interrompidos. Bem, o meu sonho continuava mais vivo do que nunca. Na altura do km 15 (uma São Silvestre) mantinha as minhas passadas firmes segurando um ritmo de 4’50” por quilômetro.

(Continua)
 


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