quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Zen Corrida

Corro. Não sei se corro muito ou pouco. Sei que, geralmente, corro o suficiente. É suficiente para concluir bem uma competição. É suficiente para manter o meu corpo em atividade. E, acima de tudo, é suficiente para manter a minha mente tranquila, silenciosa, isolada do barulho causado pela tempestade de informações, imagens e preocupações do dia a dia. Essa calmaria proporcionada pela corrida tem início com a respiração, que é constante, vigorosa, enérgica, mas, sem ser forçada. Prossegue com a percepção de meu corpo, da mecânica do movimento, das reações de meus membros após cada passada. Passa pela minha consciência acerca do espaço, o terreno, as distâncias, os odores, as inclinações, os obstáculos, os perigos, as condições climáticas e termina com relação de tudo isso com o tempo, com o ritmo e a frequência cardíaca.
Fonte: Portal Despertar Coletivo - www.despertarcoletivo.com
Parece muita informação, mas, não é. Com a prática constante da corrida, todos estes elementos fluem de forma ordenada, de modo que, durante o exercício, eu sequer penso a respeito. Simplesmente reajo, adapto-me e modifico os parâmetros, de acordo com o tempo, o espaço, o clima ou às respostas de meu corpo. A corrida, em suma, vai muito além dos padrões estabelecidos, das técnicas de treinamento, das planilhas ou manuais. A corrida, amigos, precisa ser sentida, vivida e vivenciada. As planilhas, cronogramas de treinamento e os treinos acompanhados de treinador são excelentes ferramentas. Não me entendam mal. Mas, são apenas ferramentas. O objeto do exercício é o corpo. E o corpo humano, embora seja uma máquina perfeita, não é exata. O que serve para um atleta não serve, necessariamente, para todos. Mesmo um treino pensado pelo treinador para um atleta em específico, pode sofrer adaptações. O meu corpo, hoje, não é necessariamente, o mesmo de ontem, quiçá de amanhã. Tem dia que o corpo não responde bem ao estímulo, fica pesado, travado. E, em outros dias, o nosso corpo parece flutuar na pista. Acontece. Nesse caso, paciência é a chave para a longevidade nesse esporte.

Às vezes corro com música nos fones de ouvido. Outras vezes opto por correr em silêncio. Algumas vezes corro acompanhado, mas, mesmo acompanhado, considero a corrida um esporte solitário por excelência. Cada um tem seu próprio ritmo, cada corpo reage de uma maneira única ao esforço do exercício. Correr devagar ou rápido demais para acompanhar um colega, pode alterar a mecânica de corrida e impor um esforço ao qual não estamos acostumados, tornando a corrida menos prazerosa. Além disso, acredito que somente a corrida solitária permite o autoconhecimento, a consciência de nossa identidade como corredores. Saber lidar com esse silêncio, mesmo que momentâneo, é o que diferencia um corredor de longas distâncias daquele corredor que pratica a atividade apenas para manter o condicionamento físico. Para correr por horas e horas, percorrendo dezenas de quilômetros, é preciso estar com a mente preparada para longos períodos de isolamento. Os medos, as angústias, as dores devem ser enfrentadas individualmente. Somente o corredor, e ninguém mais, saberá a hora exata de superar as dores e seguir em frente ou sentar no meio fio e aguardar o resgate da organização da prova.

Fonte: www.happierdaily.com
Lembro aqui de minha primeira maratona (4.195 metros), em Porto Alegre, no ano de 2007. Do quilometro 28 ao 36 experimentei esse isolamento. Mais de quarenta minutos com dores físicas lancinantes, sem público para incentivar e os poucos corredores que encontrei pelo percurso, estavam em condições físicas muito piores, alguns já padecendo de câimbras.  Nunca tinha desistido de uma prova. Acho que tive medo do que poderia ocorrer caso o fizesse naquele dia. Não sabia se as dores piorariam, se teria alguém para me resgatar do percurso, se teria meios para voltar ao hotel. Enfim, sabia que estava encrencado naquele momento. Preocupava-me o fracasso e a justificativa que eu daria para as pessoas que acompanharam toda a minha preparação. A dor beirava o insuportável. As perguntas começavam a pipocar em minha mente. Foi excesso de treino? Falta de treino? Será que me alonguei pouco? Num determinado momento, simplesmente parei de pensar. Não adiantaria de nada. Eu sabia que estava treinado. Se estava tão sofrido era porque estava fazendo algo de errado. Resolvi me concentrar nos movimentos de meu corpo, na mecânica, nas passadas. Os quilômetros passavam devagar. Então, estabeleci pequenos objetivos, como tentar correr até o próximo poste e o seguinte, assim por diante. A dor diminuiu e consegui concluir a prova. O alívio físico foi alcançado a partir do alívio mental. Tranquilizar a mente, reduzir a quantidade de pensamentos, preocupações e imagens fizeram a diferença na hora de suportar aqueles últimos quilômetros. 

Nos últimos anos, tenho praticado a meditação, regularmente. Não esperem que eu seja aquele indivíduo que passa horas sentado, com as pernas cruzadas, olhando para o vazio e que quando abre a boca para falar transbordam rios de sabedoria e tranquilidade. Nada disso. Desfruto de alguns poucos minutos diários para a prática da meditação. Cinco a dez minutos, no máximo. Não entoo mantras, dedico-me apenas à observação. Observo o meu corpo, a minha respiração e os meus pensamentos. Ou então, visualizo imagens capazes de propiciar contentamento à minha mente, seja a imagem de uma praia paradisíaca numa manhã de verão ou, quem sabe, a imagem da linha de chegada na maratona que correrei esse ano. Vivemos numa sociedade que exige que fiquemos contatados, com amigos, colegas, familiares da hora em que despertamos até a hora de dormir. Estamos sempre online, aguardando algum chamado, alguma informação, alguma resposta. Sair dessa teia a qual estamos conectados e ficarmos realmente off, mesmo que por apenas alguns minutos, é uma experiência que vale ser vivenciada.

Abraços, bons treinos e, quem sabe, boa meditação.

Playlist:

A primeira sugestão da semana é o álbum “The Will to Live”, do Ben Harper, do ano de 1997. Para quem não gosta de nenhum tipo de bate estaca embalando a corrida, esse álbum do Ben Harper, talvez, seja a pedida ideal para aquele treino longo de final de semana. Um álbum que ganha pontos na minha avaliação pelo bom gosto da produção. Destaques para as faixas “Glory and Consequence”, “Roses From My Friends” e, claro, a versão ao vivo do clássico “Sexual Healing”.

A segunda e última sugestão da semana é o álbum “Pânico em SP”,
da banda Inocentes, lançado no ano de 1986. Esse é o álbum pra ouvir antes, durante ou depois daquele treino intervalado, de tiros. O álbum mereceria uma audição por todos aqueles que gostam de um rock cru, sem firula e cantado em português. Punk rock executado com muita competência. Destaque para as faixas “Rotina”, “Expresso Oriente” e “Pânico em SP”. E o que é melhor, o álbum completo tem aproximadamente 20 minutos, ou seja, o tempo exato de sessão de tiros de velocidade.

   

 

 

 

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