quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Essa tal de São Silvestre - parte final


Uma festa.
Sim, a Corrida Internacional de São Silvestre é uma grande festa. E, numa cidade como São Paulo, que apenas recentemente, e de forma tímida, começa a sair dos ambientes fechados e climatizados, para viver e curtir as ruas e espaços públicos, a São Silvestre é uma festa para quem corre, mas, também, pra quem assiste. Que me perdoem os telespectadores, mas, acompanhar a São Silvestre da tela de uma televisão é assistir meia dúzia de corredores disputando um prêmio em dinheiro. Nada mais.  Falta a transpiração e a vibração de um cotejo de mais de trinta mil atletas amadores, mais de trinta mil histórias que se esparramam por um percurso de 15km pelo Centro expandido da maior cidade brasileira. A São Silvestre é feita por essa massa, que corre, que caminha, que se fantasia e que comemora quando cruza a linha de chegada.


Uma tradição.
Por ser realizada no dia 31 de dezembro, todos os anos, há quase cem anos, a São Silvestre é também, um ritual de final de ano. Alguns optam por pular ondas na praia, outros por banhar-se em sal grosso, outros tantos vestem-se de roupas brancas. Alguns fazem tudo isso ao mesmo tempo. Eu, caros leitores, corro a São Silvestre. Esse é o meu único ritual de final de ano. Aproveitar o último dia do ano para correr por ruas importantes da minha cidade, na companhia de mais de 30 mil corredores, vindos de toda a parte do mundo,  supera qualquer viagem ao Litoral. Independente, do tempo líquido, do ritmo, da altimetria, enfim dessas preocupações de corredor, concluir a Corrida de São Silvestre  é escrever o seu nome na história da prova. Faça o teste: tente lembrar de algum evento anual que se realize, ininterruptamente, há quase um século. Difícil, não? Por isso, quem cruza a linha de chegada na Avenida Paulista, pode e deve celebrar por fazer parte dessa história.

Um acontecimento.
A Corrida de São Silvestre é um dos grandes eventos da Cidade de São Paulo. E não é grande porque a Prefeitura, o Governo do Estado ou a Rede Globo assim desejam. É grande porque a população da Cidade adota essa prova como uma parte importante dos festejos de final do ano. Não importa o horário da largada ou o percurso, o povão sai de casa pra acompanhar. Quem participa de corridas de rua o ano inteiro percebe essa diferença. Começa com o olhar que as pessoas nas ruas, nos ônibus, no metrô desferem aos corredores nas horas que antecedem a largada. Se numa corrida “normal”, o corredor é visto com estranheza, reconhecido como um excêntrico ou um original por sair de casa de madrugada para correr, na manhã de São Silvestre esse olhar é substituído por um outro, de admiração, de aprovação. Pelo menos naquela única manhã de 31 de dezembro o corredor é reconhecido como um atleta, como alguém que desafia os limites do corpo e encara uma prova que é, para a maioria da população, sinônimo de resistência. Devo reconhecer que esse afago popular faz muito bem.

Uma corrida.
Concordo com a ranzinzice de alguns colegas corredores que costumam chamar a corrida de  “Caminhada de São Silvestre”, ou ainda, “Trote de São Silvestre”. De fato, a prova do último dia do ano não é o melhor local para bater recordes pessoais ou impor um ritmo forte de corrida. São 30 mil corredores inscritos e, talvez, mais uns 20 mil não inscritos que comparecem ao evento. São os chamados “pipocas”. Não há, na prática, largada por ritmo e muito menos uma largada escalonada. Sai todo mundo junto. Quem chegou mais cedo larga na frente e quem chega depois vai largar 1 km pra trás. É muita gente! Corredores rápidos, lentos, caminhantes, passeantes, enfim, é um “só não vai quem já morreu” que deixa o ritmo da prova bem lento, quase que uma procissão de corredores. Nunca consegui correr no meu ritmo, mas, não reclamo disso. A São Silvestre é democrática e deve continuar assim. Deve estar aberta para todos que se propõem ao desafio, sejam aqueles que completam o percurso em menos de uma hora, sejam aqueles que completam os 15 km após 3 horas. Vai correr rápido? Ok, mas, se não der, corra mais lento. Não consegue correr o tempo todo? Vai caminhando. Cansado de caminhar? Ok, compre um picolé, arrume um bom companheiro de prosa e passeie até a Avenida Paulista, oras.

Bom, e eu? A minha relação com a São Silvestre mudou bastante nos últimos dez anos. Na minha primeira vez, tinha como grande objetivo completar o percurso em 1h15min. O que dá uma média de 5 minutos por quilometro. Falhei por 02 minutos. Responsabilizei o excesso de participantes, os caminhantes, a chuva, enfim. Em outras provas esse insucesso teria sido devastador pra mim, mas, vendo aquela festa da chegada na Avenida Paulista, todo mundo celebrando, comemorando, fiquei constrangido por reclamar. E voltei. Continuei voltando ano após ano. Já reclamei da superlotação, da falta de abastecimento de água, dos caminhantes, mas, continuei voltando. Corri até quando a organização da prova alterou o percurso para que a prova fosse concluída no Parque do Ibirapuera. Corri sob protesto e sem inscrição. Odiei a experiência que, felizmente, durou apenas um ano. E continuei voltando. Sempre volto.

Blogueiro que mata a cobra e mostra a danada morta.
Atualmente, não me preocupo com o tempo, com o ritmo, com a superlotação, com a organização ou falta dela. Aproveito o evento, simplesmente isso. Entendo, hoje, que a São Silvestre nada mais é que uma representação da Cidade de São Paulo, que cresce desordenadamente, sem planejamento, de forma asfixiante, superlotada por pessoas diferentes, vindas de lugares diferentes, escrevendo, cada qual, a sua história, no seu ritmo. São Paulo é a cidade que corre, que acelera, mas, se pararmos um pouco para observar, é a cidade que anda pelos parques, que contempla as vitrines e exposições, que para, vez ou outra, pra degustar um pastel na feira ou a criação gourmetizada do mais caro restaurante. São Paulo é a cidade sizuda, séria, compenetrada, mas, também, é a cidade que se fantasia que se traveste, que se diverte sem pudores. São Paulo é a cidade que muda, que se transforma. São Paulo é a São Silvestre. Demora um pouco, mas, quando entendemos isso, passamos a gostar mais e mais da São Silvestre e de fazer parte dela.



Playlist

Não costumo ouvir música durante as corridas. Fico distraído, perco a observação do meu corpo, do meu esforço, perco o barulho ao redor, o barulhinho bom da corrida. Entretanto, excepcionalmente, na São Silvestre 2016, esqueci de deixar o aparelho de som no guarda volumes e corri acompanhado de trilha sonora. Segue a seleção:

Largada: Deixei de lado o “Carruagens de Fogo” do Vangelis que é executada no áudio oficial da prova para ouvir “For Whom The Bells Tolls”, do Metallica. Pra quê aquecimento, se a gente pode ouvir esse som?

Km 03: Confesso! Eu gosto do A-ha e, de todas as músicas dessa banda, “Hunting High and Low” parece ter sido composta para correr pela Avenida Pacaembú, com 30° a sombra.

Km 05: Na minha opinião, a parte mais difícil do percurso, com subidas, pontes, quebra de ritmo. É a hora de ver quem treinou mesmo. Para esse trecho que, nada melhor que “Going the Distance”, da trilha sonora do Rocky. Injeção de adrenalina nas pernas.
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Kms 07/08: Tudo plano, vale correr rápido, vale correr devagar, vale tudo, você quem sabe. “Vale Tudo” do Tim Maia e “Sarará Miolo” do Gilberto Gil, vindo com tudo nos fones de ouvido. Só não vale ficar dançando no meio da rua. Estamos só na metade do percurso.

Km 11: Nesse momento da prova, oxigênio vale ouro. Cantarolar uma música bacana pode custar caro no final da prova. Aproveita a passagem pelo Teatro Municipal e vai de música instrumental. Na falta de alguma música clássica no MP3 botei “Moby Dick” do Led Zeppelin pra tocar. Não sei se foi a endorfina agindo, mas, esse som foi uma viagem.

Kms 12, 13 e 14: Muita gente cantou pra subir no ano de 2016. Felizmente, eu tinha no meu MP3 alguns tributos pra prestar para os artistas que se foram. Teve “Ziggy Stardust”, do David Bowie, teve “Kiss” do Prince, teve “Let’s Groove” do Earth, Wind and Fire (Maurice White), “Am I BlackEnough for You”, do Billy Paul e, para terminar, “Orgasmatron” do Motorhead (Lemmy Kilmister).

A playlist terminou no Km 14. Dali em diante, concluindo a subida da Brigadeiro Luiz Antonio, é hora de refletir no ano que se passou, nas escolhas que fizemos, nas nossas decepções e realizações, pensar nas pessoas que continuam presentes nas nossas vidas, naquelas que nos deixaram. Aproveitar o fim do sofrimento da subida para reafirmar aquilo que queremos para o ano de 2017 e que o grito do público na Avenida Paulista seja o nosso combustível pelos próximos 365 dias de nossas vidas.   

Um 2017 corrido para todos!!

Abraços!!

   










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