segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Contra o relógio.


Temos pressa. Estamos sempre correndo, apressados, enfim, em desvantagem em relação aos ponteiros do relógio. Acordamos atrasados, sem tempo para tomar café da manhã e, mesmo quando saímos de casa no horário, o trânsito ou metrô insistem em manter-nos na desvantagem do tempo. Durante o dia, fazemos tudo com pressa. No trabalho, tudo é “pra ontem”. E, quando termina o expediente, corremos para chegar em casa, para não perder o horário do jantar, para encontrar as crianças acordadas, para não perder o horário do jogo na tevê. Dormimos pouco e logo acordamos. Com pressa.
Vivemos num invencível embate contra o relógio. Neste cenário, praticar a corrida parece ser o esporte mais adequado ao nosso ritmo de vida. Mas, cadê tempo pra isso? Ainda que a corrida seja um esporte relativamente simples, a sua prática exige uma certa dose de comprometimento do corredor. Posso falar por experiência própria; a corrida esporádica, ocasional, além de sujeitar o corpo a um tipo de estresse a qual não está acostumado e muito menos preparado, não é uma prática prazerosa durante e extremamente dolorosa após.

Sou frequentemente abordado por pessoas, conhecidas ou não, que demonstram interesse pela prática da corrida, pelos treinos e provas, contudo, sempre colocam o tempo, ou melhor, a falta dele como obstáculo para a iniciação da prática esportiva. Fazendo as contas, nem eu teria tempo pra praticar qualquer atividade física. O meu dia tem as mesmas 24 horas que o de todas as pessoas. Sou atleta amador, não ganho pra correr e nem tenho patrocínio pra bancar as minhas traquitanas de corrida. Preciso trabalhar pra comprar vestuário, tênis, pagar as inscrições das provas, transporte e hospedagem para provas fora da cidade. E isso não é barato.

O segredo está em tirar cerca de 40 minutos destas 24 horas diárias, por três vezes semanais, para correr. Seja acordando mais cedo, seja dormindo mais tarde, ou ainda, reduzindo o horário em frente à televisão. Acreditem, ninguém precisa correr mais de 30 minutos por sessão de treino, a menos que esteja treinando para provas de longa distância.  Meia hora de prática de corrida é mais do que suficiente para obter benefícios físicos e mentais.   

A facilidade da corrida está no fato de que, em regra, é uma atividade que pode ser praticada em qualquer horário do dia, não exige nenhum local específico para a sua prática e, também, não depende de outras pessoas, como um time, por exemplo. É claro que numa cidade como São Paulo, a segurança deve ser levada em conta. Em mais de 10 anos de corrida nunca fui assaltado ou atropelado. Sorte de corredor! Sorte essa que não teve, por exemplo, Marcelo Fromer, guitarrista do Titãs, atropelado e morto por uma moto enquanto realizava o seu treino de corrida numa rua nos Jardins. Amigos, segurança em primeiro lugar. 

Somos apressados, vivemos numa sociedade pragmatista, na qual o resultado prático está a frente de qualquer processo de aprendizado e desenvolvimento pessoal. Quem inicia qualquer atividade física tem pressa, também, na obtenção resultados. Na corrida, infelizmente, não é diferente. O corredor resolve saltar do sedentarismo direto pra corrida de longa distância, para meias maratonas, maratonas. O resultado às vezes é traumático. A começar pelas dores durante a atividade, que podem desencadear lesões significativas. Corredores precisam “criar calo”. Acostumar o corpo, músculos, ossos e tendões, gradualmente, ao esforço da corrida, àquele movimento de saltos constantes que pode durar uma, duas, quatro horas seguidas.

 
O jeito é dar tempo ao tempo. O início, obviamente, deve ser lento. Eu, por exemplo, comecei a prática da corrida mesclando caminhadas com trotes (corridas leves), por nada mais que 15 minutos, diminuindo o período de caminhada até conseguir trotar por 15 minutos. Esses 15 minutos, após algum tempo de prática viraram 30 minutos e 1 hora. Só após adquirir esse condicionamento arrisquei-me numa corrida de rua de 6 km. Tinha 29 anos na época. Treinava sozinho, numa época que não dispunha de tanta informação a respeito da prática da corrida. Não tinha muita noção do que estava fazendo e de como devia fazer, tinha medo de me lesionar ou ter um piripaque durante a corrida. Evoluí na observação de meu corpo, de meus instintos. A evolução foi lenta, é verdade, mas, acho que serviu para que eu adquirisse o tal “calo de corrida”.

A corrida, amigos, é um esporte individual e a experiência pessoal de um corredor não servirá, necessariamente, para todos. A minha experiência foi essa. É claro que se o corredor iniciante tiver o aparato de um treinador, especializado em treinamento de corridas, essa evolução poderá ser muito mais rápida. Mas, independentemente de seus objetivos com a corrida, seja para perder peso, seja para melhorar o condicionamento físico, correr mais rápido ou correr maiores distâncias, não se esqueça de focar e curtir o processo de desenvolvimento e aperfeiçoamento. O sofrimento do processo valoriza o resultado final. Ademais, a corrida tem muito mais benefícios a oferecer do que alguns números expostos numa balança ou num cronômetro.

A partir dessa semana inicio os treinos para os 15 km da São Silvestre. Então, semana que vem, vou falar um pouco de treinos, festas de confraternização e happy hours de final de ano. E a pergunta que não quer calar. Cerveja, pode?

Bons treinos!





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