Temos pressa. Estamos sempre
correndo, apressados, enfim, em desvantagem em relação aos ponteiros do
relógio. Acordamos atrasados, sem tempo para tomar café da manhã e, mesmo
quando saímos de casa no horário, o trânsito ou metrô insistem em manter-nos na
desvantagem do tempo. Durante o dia, fazemos tudo com pressa. No trabalho, tudo
é “pra ontem”. E, quando termina o expediente, corremos para chegar em casa,
para não perder o horário do jantar, para encontrar as crianças acordadas, para
não perder o horário do jogo na tevê. Dormimos pouco e logo acordamos. Com
pressa.
Vivemos num invencível embate
contra o relógio. Neste cenário, praticar a corrida parece ser o esporte mais
adequado ao nosso ritmo de vida. Mas, cadê tempo pra isso? Ainda que a corrida
seja um esporte relativamente simples, a sua prática exige uma certa dose de
comprometimento do corredor. Posso falar por experiência própria; a corrida
esporádica, ocasional, além de sujeitar o corpo a um tipo de estresse a qual
não está acostumado e muito menos preparado, não é uma prática prazerosa
durante e extremamente dolorosa após.
Sou frequentemente abordado por
pessoas, conhecidas ou não, que demonstram interesse pela prática da corrida,
pelos treinos e provas, contudo, sempre colocam o tempo, ou melhor, a falta
dele como obstáculo para a iniciação da prática esportiva. Fazendo as contas,
nem eu teria tempo pra praticar qualquer atividade física. O meu dia tem as
mesmas 24 horas que o de todas as pessoas. Sou atleta amador, não ganho pra
correr e nem tenho patrocínio pra bancar as minhas traquitanas de corrida.
Preciso trabalhar pra comprar vestuário, tênis, pagar as inscrições das provas,
transporte e hospedagem para provas fora da cidade. E isso não é barato.
A facilidade da corrida está no
fato de que, em regra, é uma atividade que pode ser praticada em qualquer
horário do dia, não exige nenhum local específico para a sua prática e, também,
não depende de outras pessoas, como um time, por exemplo. É claro que numa
cidade como São Paulo, a segurança deve ser levada em conta. Em mais de 10 anos
de corrida nunca fui assaltado ou atropelado. Sorte de corredor! Sorte essa que
não teve, por exemplo, Marcelo Fromer, guitarrista do Titãs, atropelado e morto
por uma moto enquanto realizava o seu treino de corrida numa rua nos Jardins. Amigos,
segurança em primeiro lugar.
Somos apressados, vivemos numa
sociedade pragmatista, na qual o resultado prático está a frente de qualquer
processo de aprendizado e desenvolvimento pessoal. Quem inicia qualquer
atividade física tem pressa, também, na obtenção resultados. Na corrida,
infelizmente, não é diferente. O corredor resolve saltar do sedentarismo direto
pra corrida de longa distância, para meias maratonas, maratonas. O resultado às
vezes é traumático. A começar pelas dores durante a atividade, que podem
desencadear lesões significativas. Corredores precisam “criar calo”. Acostumar
o corpo, músculos, ossos e tendões, gradualmente, ao esforço da corrida, àquele
movimento de saltos constantes que pode durar uma, duas, quatro horas seguidas.
A corrida, amigos, é um esporte
individual e a experiência pessoal de um corredor não servirá, necessariamente,
para todos. A minha experiência foi essa. É claro que se o corredor iniciante
tiver o aparato de um treinador, especializado em treinamento de corridas, essa
evolução poderá ser muito mais rápida. Mas, independentemente de seus objetivos
com a corrida, seja para perder peso, seja para melhorar o condicionamento
físico, correr mais rápido ou correr maiores distâncias, não se esqueça de
focar e curtir o processo de desenvolvimento e aperfeiçoamento. O sofrimento do
processo valoriza o resultado final. Ademais, a corrida tem muito mais benefícios
a oferecer do que alguns números expostos numa balança ou num cronômetro.
A partir dessa semana inicio os
treinos para os 15 km da São Silvestre. Então, semana que vem, vou falar um
pouco de treinos, festas de confraternização e happy hours de final de ano. E a
pergunta que não quer calar. Cerveja, pode?
Bons treinos!



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