
Era pra ser um domingo como outro qualquer. Um dia ensolarado de 1º de maio,
dia do trabalho, data que aqui é comemorada, e com manifestações em outros
países. Não entendo o que os trabalhadores aqui comemoram, mas em todo caso, todo ano é assim.
Como de costume, acordei com a largada já dada. Ás vezes
acordava mais cedo para ver a largada. Nunca fui assíduo expectador de
Fórmula-1, meus tios e meu pai eram mais ligados. Mas com um piloto excepcional como
Ayrton Senna, mesmo para quem não era muito fã do esporte, acabava se entretendo.
Como aos domingos muita gente em casa parava pra assistir
Fórmula-1, me lembro do surgimento do Ayrton, e os comentários a respeito
daquele “jovem piloto”. "Este cara parece mesmo ser bom”, eram os comentários que
ouvi quando Senna venceu sua primeira corrida no GP de Portugal, com muita
chuva e com um carro bastante limitado. Dali em diante, ele passou a ser o alvo das atenções, tanto nos comentários em casa, quanto para o público em geral.
Diria que ainda era uma época romântica da F-1, ou pelo
menos, o final desta fase. Os pilotos ainda eram mais importantes que as
máquinas. E que pilotos: Mansel, Proust, Lauda, Piquet, e...Senna. Grandes
duelos e muita rivalidade. Ultrapassagens e corridas incríveis nesta época.
O Brasil estava passando por um processo de
redemocratização, ou uma democracia que ainda não havíamos experimentado. Um
abismo social no nosso país, inflação galopante, e ganhávamos muito pouco no
esporte, ou quase nada. No esporte mais popular, o futebol, não ganhávamos nada desde 1970. E foi
neste período que Senna começou a virar herói. E tudo surgiu de uma
brincadeira: o Brasil era eliminado da Copa de 1986 pela França, nos pênaltis.
Desclassificação doída, na qual tenho “trauma” até hoje. Mecânicos e pilotos
franceses (dentre eles Proust) tiraram uma casquinha do Senna, o que não
poderia ser diferente. E no domingo após a desclassificação do Brasil, eis que
Senna ganha a corrida. Não me lembro que GP foi, ( já disse que nunca fui um
“expert” em F-1), mas isto não importa. O que importa é que ele parou, e pediu
para um cidadão que estava perto da pista uma bandeirinha do Brasil. “Chupa Proust!”, é
que o diriam nas redes sociais, caso houvesse naquela época. De certa forma,
Senna “vingou” aquela derrota para os franceses. Era mesmo o nosso herói.
A partir de então, aquele ato de levar a bandeira - feito de certa forma
despropositadamente - acabou virando uma marca do nosso campeão. Esperávamos o
domingo, para ouvir o tema da vitória, e Ayrton, dar mais uma volta com nossa bandeira. Muito longe de ser uma coisa nacionalista, pois como salientei acima,
estávamos saindo da ditadura e reaprendendo a democracia. Senna não era um patriota do tipo "nacionalista"; era muito mais que isto. Pois de certa maneira,
este ato elevava a autoestima de uma nação tão judiada e subjulgada. Significava que a
segunda-feira poderia ser melhor, a semana poderia ser melhor, e poderíamos
conquistar nossos objetivos. Bastaríamos fazer a nossa parte, como fazia
Ayrton aos domingos, e era esta imagem que nosso campeão passava.
“Ayrton Senna do Brasil!!!”, gritava Galvão Bueno a cada
vitória. E nosso narrador nunca foi tão feliz em criar este jargão. O único que
deu certo, pra dizer a verdade. E apesar de achar o Galvão um chato de galocha,
posso dizer que narrava as corridas de Ayrton Senna com muita maestria. Mas
naquele 1º de maio a narração do Galvão estava diferente: Um tom preocupante e
melancólico tomava conta da transmissão. Senna havia batido, e apesar de outros
pilotos terem sofrido um acidente semelhante naquela curva do tamborello
(dentre eles Nélson Piquet em outra ocasião), seu estado era gravíssimo.
Pela tarde a notícia que todos de certa forma, esperavam. O
acidente de Ayrton Senna havia sido mesmo fatal. Perdíamos nosso grande herói.
A segunda-feira e o resto da semana, não foi de otimismo
como em outras ocasiões. Foi uma das mais tristes que uma nação já pôde ter
vivido. Feições tristes e muita gente de cabeça baixa. E agora? Em quem iríamos
nos inspirar? E a nossa referência?
Ayrton Senna transcendeu seu próprio esporte. Condição que só
os gênios, os “foras-de-série”, conquistam. Fazer pessoas como eu, se entreterem
no automobilismo, mesmo não sendo muito fã e não entendendo quase nada. E também fazer sentir sua perda. Ele não defendia nenhuma camisa ou
clube de futebol, o que fez com que atingisse uma popularidade astronômica, quase unânime.
Era "somente" o “Ayrton Senna do Brasil!”, conforme dizia Galvão.
Depois disto, fiquei um bom tempo sem ver aqueles carros dar a volta na pista e meu interesse em F-1 praticamente havia voltado a estaca zero. E há 20 anos perdíamos nosso último grande herói. E como foi Senna e a magnitude que este atingiu, acredito que não haverá outro.
Um comentário:
Um dos três maiores do Brasil.
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