sábado, 10 de maio de 2014

O abrasileiramento do nosso futebol (ou da Seleção).


Estava lendo sobre a Copa de 1958 num livro que tenho sobre as Copas. Já vimos e revimos os lances, gols e o futebol arte protagonizado pela Seleção Brasileira neste período. O que era comum por estes lados dos trópicos, era uma novidade para os europeus.
Felipão fez sua convocação e até aí, nenhuma grande surpresa. Nomes que já estamos acostumados a ver pela seleção, com alguns jogando em grandes clubes europeus, e outros, em times medianos do velho mundo. Confesso que até serem convocados, alguns nomes eram estranhos para mim: David Luiz, Dante, Marcelo, Luiz Gustavo, Fernandinho, Willian, Hulk... Jogadores cujas trajetórias sabemos muito pouco, e duvido que você leitor, saiba me dizer de “bate-pronto”, os clubes de todos estes jogadores (sem falhar nenhum!) ou quais clubes atuaram no Brasil antes destes partirem para a Europa. Não que eu esteja fazendo uma crítica ou discutindo o quesito técnico destes jogadores. Meu questionamento vai além disto, ou seja, a quantas anda o futebol em solos guarani e tupiniquim, e não sobre a “família Scolari”.
A “luzinha” acendeu para escrever este post quando o glorioso Jornal Nacional passou a falar da vida dos convocados de Felipão, que soa mais como uma espécie de cartilha de apresentação destes jogadores do que outra coisa. Pois é, isto mesmo. Se para mim, um cidadão com alguns recursos, já fica difícil reconhecer alguns selecionados, imagina pra boa parcela da população que não tem TV a cabo ou acesso a jogos internacionais. Ontem a figurinha mostrada (Paulinho), foi fácil, jogador revelado pelo segundo clube mais popular do país. Aí também não vale. Mas outros, vamos sim precisar da cartilha do JN para conhecê-los melhor.
Faz-se necessário trazer estes jogadores não apenas para conhecê-los melhor, como disse, mas também para “abrasileirar” nossa seleção. Apresentá-los para o público leigo ou comum. Mostrar que eles possuem raízes brasileiras, apesar de toda fama e dinheiro conquistados na Europa e de estarem longe daqui já algum tempo. Continuam “gente como a gente”, apesar de jatinhos particulares e hotéis seis estrelas. Foi o que fez também o Globo Repórter com uma espécie de “especial Felipão”, mostrando os tempos de docente do treinador, e de zagueiro botinudo do time de Caxias do Sul, que sinceramente, não sei se ele tem muita saudade desta época. E o programa terminou mostrando os jogadores cantando efusivamente o hino na final da Copa das Confederações, um artifício talvez, de intimidar os espanhóis.

Podemos ser campeões, mas não com o futebol que se joga por aqui. Caso o Brasil for campeão, e acho que tem boas chances para isto, será com um futebol jogado mais com cara de Europa. Talvez não tão pragmático como em 1994, pois jogando em casa, fica difícil manter a serenidade e a frieza. Mas muito diferente do que aconteceu em 1958, quando os europeus conheceram o futebol arte e pela primeira vez ouvia-se gargalhadas nas arquibancadas, quando Garrincha pegava algum zagueiro para “João”. Não estou propondo uma volta a este “futebol romântico”, que se nos informarmos um pouco, também vamos descobrir que não era tão romântico assim. Mas não acho que seria impossível segurar nossos principais jogadores, e dar uma melhora substancial no futebol praticado aqui e manter a nossa identidade. Mas para isto, tornar-se-ia necessário a interrupção desta cadeia que segue esta “lógica” de mercado criada, que começa com as ervas-daninhas que vivem da exportação de jogadores; os empresários de futebol. Além disto, há também os “Gaviões Buenos” da vida, que estão aí para engrossar o coro internacional, e por consequência estamos vendo cada vez mais nossos jovens torcendo ou comprando camisas de times europeus, o que não deixa de ser pernicioso ao nosso futebol de certa maneira.
Nada como inverter esta lógica e traçar um caminho inverso. Mas isto requer primeiro uma mudança de mentalidade. Temos que abrasileirar novamente nosso futebol e nossa Seleção, mas não através e - somente - da mídia, como está sendo feito. Pois talvez o "brasileiro", ainda gosta de se vangloriar de pertencer ao “país do futebol”. Ou pelo menos, já foi ou pertenceu algum dia. Disto temos certeza.

 

 

Nenhum comentário: