Hoje acordei em choque. E nem foi culpa desse frio que tem retardado os meus dias em 15 minutos (maldito soneca). Foi a
constatação de que faltam apenas 20 dias para a minha maratona, a SP City
Marathon. Levantei da cama sentindo as sequelas de um treino longo de 35km no
dia anterior, o meu último treino de volume antes da prova. Um pouco de dor nas
panturrilhas, nos quadríceps e só. Nada de mais. Pra falar a verdade, os
treinos foram até bem tranquilos. Enquanto tento me livrar da montanha de
cobertores e roupas aonde estou abrigado, aproveito para recordar da viagem que
foram os últimos meses de treinamento, principalmente, os treinos longos.
Resolvi fazer todos os meus
treinos longos num mesmo local (Horto Florestal), num mesmo percurso (4km) e no
mesmo dia da semana (domingo). E assim fui acumulando a quilometragem ao longo
dos meses; 16km, 20km, 24km, 28km, 32km... A cada quinze dias realizava esse
treino longo e percorria uma volta a mais no percurso. Foi a melhor opção. Treinar
próximo de casa eliminou a ansiedade com o tempo de locomoção. Até gosto de
treinar em outros lugares, mas, locomover-se em São Paulo, por si só, já é uma
maratona.
Sou corredor de rua, adoro
observar a cidade amanhecendo, despertando enquanto corro, portanto, correr em
parques fechados nunca é a minha primeira opção, mas, na corrida é preciso
adaptar-se sempre e, pensando bem, correr por calçadas esburacadas, algumas rebaixadas, deniveladas e o entra
e sai de veículos poderia baixar a qualidade do meu treino, assim, a opção por
um parque pareceu a mais acertada. A hidratação, que é sempre um
motivo de grande preocupação nesses treinos longos, foi superada com os
incontáveis bebedouros instalados no parque por todo o percurso. Não precisei pausar o treino pra procurar água pra beber.
Correr todos os treinos longos
num mesmo lugar, sem dúvida, aumentou o meu foco na corrida. Não há distração.
Fora um esquilo aqui, um bugio ali ou um cotejo de patos que aparecem,
eventualmente, no meio do percurso, nada mais muda a paisagem. Apenas a
natureza percorrendo o seu ciclo evolutivo. Fico impressionado com o quanto a
mente humana é poderosa! Realizei todos esses treinos sozinho, sem fones de ouvido, sem
música, sem aplicativos. O ritmo dos meus passos batendo o asfalto foi a minha
única trilha sonora, às vezes por mais de 3 horas. Preparar a mente para as situações
mais silenciosas e solitárias da corrida é um exercício que todo corredor
deveria fazer.
Na maratona, costumam dizer que
após determinada distância, certamente acima dos 30 km, o corredor bate num MURO,
que na verdade é uma figura de linguagem para descrever o momento da maratona
na qual somos tomados pela dor, pela fadiga, até mesmo, em alguns casos, pela confusão mental.
Dizem que superar esse muro e prosseguir é o grande desafio por trás da
maratona. Nos treinos longos tentamos retardar a chegada do muro, pois é
impossível evita-lo. Em apenas um treino (28 km) fiquei tão depletado a ponto
de desistir antes do final. Em outros, até mais longos, cheguei a aumentar o
ritmo na última volta. O MURO é pessoal, intransferível e poderá estar a minha
espera no percurso. Sei que ter a resiliência suficiente para superá-lo é o que me
permitirá cruzar a linha de chegada.


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