Na maioria das
vezes escrevo com certa calma, antecipadamente à publicação; sem qualquer
pressão. No entanto, o texto a seguir fugirá essa regra. Embora não haja
qualquer necessidade em agir dessa maneira, vejo que o tema está pulsando,
querendo logo uma resposta; uma proposta. Não somos jornalistas, nenhum de nós,
por isso não se trata de uma pressa pela notícia bombástica – vocês já devem
ter lido nos cadernos esportivos. A questão é que para o campeonato paulista
(que volta a ser grafado com letras minúsculas) acaba de se configurar com
torcida única para os clássicos. Sim, Palmeiras e Corinthians, no próximo
domingo, terá apenas palmeirenses gritando por seu time. Embora ache a medida
sensata, ao mesmo tempo considero a cal que estava faltando na esperança de um
futebol civilizado, respeitoso, moderno e consequentemente forte.
Futebol brasileiro
que precisava de uma resposta urgente, principalmente depois do choque de
realidade que foi a goleada sofrida pela seleção brasileira. Sim, aquilo não
foi acaso, fatalidade ou apagão. Aquilo foi comparação. Uma comparação real,
sem personagens fictícios, nem teorias conspiratórias. O jogo entre Brasil e
Alemanha deveria ser um marco, um a.G. (antes da goleada) e um d.G. (depois da
goleada). Alemanha não apenas mostrou qualidade dentro como fora de campo. O comportamento
dos torcedores, dos jogadores; a festa que fazem ao ver o futebol exatamente
como ele é. Brasileiro vê futebol diferente, vemos como meio. Futebol é
sobrevivência; é calmaria na vitória, impulsionando uma segunda-feira de
trabalho. Se bebe, se mata; se chora e se ama por causa do futebol. Mas também é
rompimento com o normal, com a derrota cotidiana, como se fosse uma
pseudomorte.
A goleada
deveria nos mostrar mais coisas, mas não mostrou. Ficamos saciados com Felipão
ultrapassado taticamente, falta que fez o Neymar em campo e o despreparo
emocional. São esses três fatores as grandes hipóteses para nossa derrota. Não,
não foi isso. É muito mais que isso. É vermos antigas ideias dominando a
Federação Carioca de Futebol. É vermos a negociação de jogadores, sem prestação
de contas e responsabilidade financeira. É vermos jogadores, em sua iniciação
profissional, ganhando milhões; posando no estrelato dos comerciais e
infelizmente arruinando um futuro em meio as drogas, bebidas e jogos sedutores.
O futebol brasileiro tem uma lógica que só ele desconhece.
A torcida única é
institucionalizar a intolerância. É decidir que, de agora em diante, jamais será
possível o convívio pacífico e respeitoso. É determinar que no futuro não haverá
menor chance de vermos os estádios como antes, onde a torcida se propunha a
torcer pelo seu time, não por si mesma. Jamais veremos gritos de amor pela
agremiação esportiva, mas cânticos de guerras pelo próprio escudo. Volto a
dizer: a decisão pela torcida única é correta, mas não é sábia. É a saída mais
fácil, é a coerência dentro de uma lógica que não queríamos: há ódio entre os
torcedores, e cada vez mais uma minoria pode interferir e representar uma
maioria.
A defesa pela
torcida única é a defesa do patrimônio. As arenas modernas, novas e confortáveis
nasceram na hora certa para pessoas erradas. Nasceram para os torcedores
comuns, que convivem com seus adversários na sala de estar, no escritório; até
mesmo em matrimônio. Nasceu para torcedores que se emocionam a cada lance, que
querem ver o jogo. Não nasceu para quem vive e odeia seu adversário. Não nasceu
para generalizarmos os torcedores, como acaba de acontecer com essa questão da
torcida única. Ficou definido que todo palmeirense, em potencial, poderia
agredir um corintiano no estádio; e que todo corintiano, em potencial, iria
destruir o estádio palmeirense. Em potencial, a verdade é exatamente essa. E essa
realidade é mais desgastante que a goleada sofrida pela Alemanha.
A torcida única
veio para ficar. Dentro em breve não lembraremos mais que, pelo menos dentro
dos estádios, era preciso que o poder público agisse com violência para deter
os baderneiros. Será? A baderna terá outros motivos, muitas vezes por um
estranhamento entre os próprios torcedores – como já vimos uma série de vezes. A
pancadaria ocorrerá com hora marcada, talvez longe dos estádios; mas por
motivos iguais: a defesa do time do coração! Veremos cada vez mais a divisão, não
apenas em clássicos. O jeito que vemos o futebol será alterado; e numa visão
quase apocalíptica, teremos que definir regras em bares, restaurantes, grupos
de whatsaap e até mesmo dentro de casa.
O futebol, que
tem no seu patrimônio a torcida, se enfraqueceu um pouco mais agora, quando
define que uma parte dos torcedores estão nos estádios por tantos motivos
diferentes, mas que nenhum está ligado ao futebol. Quando define que o motivo
principal de alguns deles é destruir, acabar; enfraquecer e deteriorar a
verdadeira e única motivação do esporte. Embora o futebol não possa se
responsabilizar por aquilo que se tornou o torcedor; devemos considerar que o
torcedor está alterando aquilo que chamamos futebol.
.
Nenhum comentário:
Postar um comentário