sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Torcida única: Única Saída


Na maioria das vezes escrevo com certa calma, antecipadamente à publicação; sem qualquer pressão. No entanto, o texto a seguir fugirá essa regra. Embora não haja qualquer necessidade em agir dessa maneira, vejo que o tema está pulsando, querendo logo uma resposta; uma proposta. Não somos jornalistas, nenhum de nós, por isso não se trata de uma pressa pela notícia bombástica – vocês já devem ter lido nos cadernos esportivos. A questão é que para o campeonato paulista (que volta a ser grafado com letras minúsculas) acaba de se configurar com torcida única para os clássicos. Sim, Palmeiras e Corinthians, no próximo domingo, terá apenas palmeirenses gritando por seu time. Embora ache a medida sensata, ao mesmo tempo considero a cal que estava faltando na esperança de um futebol civilizado, respeitoso, moderno e consequentemente forte.

Futebol brasileiro que precisava de uma resposta urgente, principalmente depois do choque de realidade que foi a goleada sofrida pela seleção brasileira. Sim, aquilo não foi acaso, fatalidade ou apagão. Aquilo foi comparação. Uma comparação real, sem personagens fictícios, nem teorias conspiratórias. O jogo entre Brasil e Alemanha deveria ser um marco, um a.G. (antes da goleada) e um d.G. (depois da goleada). Alemanha não apenas mostrou qualidade dentro como fora de campo. O comportamento dos torcedores, dos jogadores; a festa que fazem ao ver o futebol exatamente como ele é. Brasileiro vê futebol diferente, vemos como meio. Futebol é sobrevivência; é calmaria na vitória, impulsionando uma segunda-feira de trabalho. Se bebe, se mata; se chora e se ama por causa do futebol. Mas também é rompimento com o normal, com a derrota cotidiana, como se fosse uma pseudomorte.

A goleada deveria nos mostrar mais coisas, mas não mostrou. Ficamos saciados com Felipão ultrapassado taticamente, falta que fez o Neymar em campo e o despreparo emocional. São esses três fatores as grandes hipóteses para nossa derrota. Não, não foi isso. É muito mais que isso. É vermos antigas ideias dominando a Federação Carioca de Futebol. É vermos a negociação de jogadores, sem prestação de contas e responsabilidade financeira. É vermos jogadores, em sua iniciação profissional, ganhando milhões; posando no estrelato dos comerciais e infelizmente arruinando um futuro em meio as drogas, bebidas e jogos sedutores. O futebol brasileiro tem uma lógica que só ele desconhece.

A torcida única é institucionalizar a intolerância. É decidir que, de agora em diante, jamais será possível o convívio pacífico e respeitoso. É determinar que no futuro não haverá menor chance de vermos os estádios como antes, onde a torcida se propunha a torcer pelo seu time, não por si mesma. Jamais veremos gritos de amor pela agremiação esportiva, mas cânticos de guerras pelo próprio escudo. Volto a dizer: a decisão pela torcida única é correta, mas não é sábia. É a saída mais fácil, é a coerência dentro de uma lógica que não queríamos: há ódio entre os torcedores, e cada vez mais uma minoria pode interferir e representar uma maioria.

A defesa pela torcida única é a defesa do patrimônio. As arenas modernas, novas e confortáveis nasceram na hora certa para pessoas erradas. Nasceram para os torcedores comuns, que convivem com seus adversários na sala de estar, no escritório; até mesmo em matrimônio. Nasceu para torcedores que se emocionam a cada lance, que querem ver o jogo. Não nasceu para quem vive e odeia seu adversário. Não nasceu para generalizarmos os torcedores, como acaba de acontecer com essa questão da torcida única. Ficou definido que todo palmeirense, em potencial, poderia agredir um corintiano no estádio; e que todo corintiano, em potencial, iria destruir o estádio palmeirense. Em potencial, a verdade é exatamente essa. E essa realidade é mais desgastante que a goleada sofrida pela Alemanha.

A torcida única veio para ficar. Dentro em breve não lembraremos mais que, pelo menos dentro dos estádios, era preciso que o poder público agisse com violência para deter os baderneiros. Será? A baderna terá outros motivos, muitas vezes por um estranhamento entre os próprios torcedores – como já vimos uma série de vezes. A pancadaria ocorrerá com hora marcada, talvez longe dos estádios; mas por motivos iguais: a defesa do time do coração! Veremos cada vez mais a divisão, não apenas em clássicos. O jeito que vemos o futebol será alterado; e numa visão quase apocalíptica, teremos que definir regras em bares, restaurantes, grupos de whatsaap e até mesmo dentro de casa.

O futebol, que tem no seu patrimônio a torcida, se enfraqueceu um pouco mais agora, quando define que uma parte dos torcedores estão nos estádios por tantos motivos diferentes, mas que nenhum está ligado ao futebol. Quando define que o motivo principal de alguns deles é destruir, acabar; enfraquecer e deteriorar a verdadeira e única motivação do esporte. Embora o futebol não possa se responsabilizar por aquilo que se tornou o torcedor; devemos considerar que o torcedor está alterando aquilo que chamamos futebol.






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