quarta-feira, 11 de junho de 2014

Naquele tempo



Vi uma reportagem sobre a Copa de 82. Surpreendente, histórica e mítica. A Copa de 82 não é motivo desse texto, mas é um parâmetro. Naquele tempo a gente torcia pela seleção brasileira. Ainda que muitos problemas socioeconômicos fizessem a cabeça dos mais politizados, a seleção brasileira era à parte. Tudo bem, sempre existiu quem acreditasse numa tabela mais promissora, indecente; entre jogadores e ditadura: a Copa de 70 foi vista como muitos como uma alienação, o circo; sem o pão. Uma jogada muito bem tramada pelos nossos generais, como se eles realmente estivessem preocupados em nos dar qualquer satisfação de suas decisões. Não, heróis do jogo de futebol não foram os políticos, mas os jogadores.

De certo modo, não é a política que afastou o povo brasileiro da seleção, e não é por ela que nos aproximaremos. O distanciamento entre a seleção do povo e o povo é um tema que muitos estudiosos estão nesse instante debruçados; pesquisando história e dados; tentando decifrar as razões. Juro que não sei, se soubesse tentaria explicar. A verdade é que a cara da seleção brasileira não é a cara do Brasil. Mas qual o motivo de ainda torcemos pela seleção? Afinidade? Orgulho? Paixão nacional? Não. Não é paixão nacional. Brasileiro gosta de futebol, mas hoje não vive por ele; nem escolhe candidato para presidente de acordo com a campanha da seleção.

O distanciamento entre os torcedores e a seleção brasileira não tem relação com política.

Mas naquele tempo as ruas estavam todas pintadas. Sabíamos e escalávamos a seleção de cor, salteado; contando o inverso; número de camisa e tudo. O que fizeram da nossa seleção? Hoje a seleção brasileira é quase toda estranha: jogadores que mal sabíamos serem brasileiros. Mal sabíamos a origem, qual clube jogaram; que posição nasceram nos campos de terra vermelha. São jogadores nascidos profissionalmente na Europa; pois não nascemos mais profissionais por esses lados. São brasileiros, com muito orgulho e muito amor (que música irritante). Jogadores que tem satisfação de jogar pelo Brasil, ganhar pelo Brasil. E é por isso que ainda torcemos por eles.

Se a desculpa da oposição em não torcer pela seleção brasileira é para derrubar a Dilma nas pesquisas, fiquem espertos. Dados demonstram que a lógica da pesquisa eleitoral e o campo de futebol é um tanto estranha. A Copa do Mundo só serviu para prejudicar ainda mais a figura arranhada e questionada da nossa presidenta. Diferente daquilo que se pensa, as derrotas de 1998, 2006 e 2010 colocaram o PT no Governo. A vitória de 1994 deu a eleição para FHC e a vitória de 2002 o segundo mandato para Lula (naquele instante a aprovação do governo, mesmo com toda baderna do mensalão era pela permanência do presidente). Seleção brasileira não ajuda alavancar nenhum candidato.

Naquele tempo a gente discutia política e discutia futebol. E mesmo colocando as duas coisas na mesma cesta, era evidente que a paixão por um não estava relacionada a razão pelo outro. A política, como diz meu amigo sociólogo Luiz Lourenço, é vista pelo povo como a virtude prática: vale mesmo é comida na mesa. Vamos esquecer a ética, o conluio e as negociatas. O povão quer saber como ele vai encarar o seu dia-a-dia, com qual ajuda do governo, ou na pior das hipóteses, que o governo não atrapalhe o seu cotidiano. Por isso, não concordo com a justificativa em relação a seleção brasileira se tornar política: não torcemos ou torcemos pela seleção brasileira por outros tantos motivos.


Naquele tempo a galera se vestia de verde e amarelo e hoje há um sentimento de repulsa, de vergonha e de arrependimento. O orgulho de sermos brasileiros, ainda que o país tenha melhorado nas últimas décadas; é o verdadeiro desperdício que a Copa poderia nos dar, dentro; mas principalmente fora do campo.


Um comentário:

Mario disse...

Futebol e política, sempre acaba saindo por uma via que não é a esperada. Vide 1970, 1982 e agora. Em 1970 ela mais nos representava do que queria a própria ditadura; 1982 um grande otimismo com o processo de redemocratização, mas as eleições diretas só ocorreriam no final da década; e agora que me parece um pouco mais confuso, na qual protestos contra a Copa, Dilma e greves se misturam.