terça-feira, 27 de maio de 2014

Copa no Brasil: Impressões dentro e fora do campo

A Copa do Mundo chegou e com ela várias contradições. O futebol dentro do campo e a estrutura do país fora dele: relações distantes mas que ficaram muito próximas. Afinal de contas a Copa do Mundo é responsável por todos os nossos problemas?


Está chegando o grande momento para o futebol mundial. Depois de uma longa espera de sessenta e quatro anos, sediaremos mais uma vez uma Copa do Mundo. No entanto, nem tudo parece festa. Muitas críticas e poucos elogios até agora. Copa do Mundo passou a ser o elemento mais importante do país, avaliado num contexto intrigante de questões econômicas, políticas e sociais. Será a Copa capaz de mudar nossa visão do nosso próprio país? Será item primordial para uma análise mais profunda sobre a organização do esporte no Brasil? Será a Copa esse grande monstro pintado aos quatro ventos?

Uma coisa para mim parece evidente: estamos falando de dois eventos contraditórios. O primeiro é aquele que acontece dentro do campo e o segundo que está fora dele: A Copa-Futebol e a Copa-Cenário. O “Futebol” é tudo que envolve o próprio espetáculo: as seleções, a organização da competição; a televisão e toda mídia. O “Cenário”: não há qualquer relação com o esporte, mas foi identificado como um nó na garganta, um desmando dos políticos; um gasto desnecessário para um país tão necessitado. Ou seja: a gota d´água.

O evento dentro de campo conta com as melhores seleções do mundo. Portanto, para quem gosta de futebol; já é uma goleada. Se olharmos para a história veremos que em poucas oportunidades teremos condições de receber um número tão grande de jogadores de alto nível. São craques de bola na concepção mais simples e exigível para os tempos atuais: Messi, Cristiano Ronaldo, Schweinsteiger, Xavi, Iniesta entre outros. Não há, portanto, qualquer dúvida que a Copa-Futebol é um evento extraordinário e imperdível.

Por outro lado, a Copa-Cenário tem uma exigência que ultrapassa os limites compreensíveis ao seu próprio negócio. A Copa do Mundo fez emergir problemas seculares do nosso país, dos quais, nem a Copa; nem o período de preparação poderiam dar conta. São questões importantes que foram jogados para debaixo do tapete não apenas pelo governo atual, mas por quase todos que passaram por ele. Então, a Copa-Cenário nos fez rever feridas das quais a Copa não foi causadora; nem ela poderia ser a resolução. Mais educação, mais moradia e mais hospitais não podem passar pela análise da organização de um evento esportivo; mas por um exame mais sério sobre nossa condição e responsabilidade como cidadãos.

Portanto, a Copa do Mundo não trouxe os problemas, mas nos fez, de alguma forma, percebê-los.

Uma das críticas mais pontuais em relação a Copa do Mundo são os gastos desnecessários para um país com tantos problemas. Segundo a reportagem do Yahoo![1] estima-se que a Copa do Mundo teve investimento público em torno de 26 bilhões de reais. Para se ter uma ideia, esse valor equivale a 10% dos investimentos anuais em educação. Seria tamanho desperdício de investimento algo que pode fomentar diversos setores da economia do país? Um outro dado curioso é que parte desse investimento, feito pelo BNDES, tem que ser devolvido, pago; como acontece com inúmeras operações realizadas pelo banco. O caso mais evidente está diante de nós: A Arena Corinthians não saiu de graça.

As críticas em relação a Copa-Cenário foram ganhando uma importância muito maior que a Copa-Futebol. E, como consequência, acabamos acreditando que determinados negócios tão obscuros foram inaugurados no Brasil dos últimos anos. A Copa-Cenário foi jogada no ventilador de uma inquisição tão legítima quanto arbitrária, e que mantém aceso uma revolução feita de maneira equivocada por motivos ainda mais escusos: afinal o que há de tão nebuloso nas negociações para construção e reforma dos estádios? Sim. Parece que não fomos devidamente informados em relação aos gastos e que, de uma maneira indecente, muitos ganharam dinheiro com a Copa do Mundo.

Mas onde nós estávamos quando milhões foram roubados dos nossos bolsos quando ainda não havia Copa? Onde estávamos quando não havia investimento para educação, saúde e moradia? Onde estávamos quando políticos agiam como bem entendessem criando para si mais direitos que deveres? A Copa-Cenário foi o estopim de uma bomba ainda muito maior que imaginamos.

Ouvi algumas entrevistas de diversos especialistas informando que a Copa do Mundo sempre foi um evento que alavancou a economia dos países que se propuseram a sediar o evento. Investimentos, melhorias e empregos. Fomentando o turismo, a indústria local e consequentemente os empregos. O evento de pouco mais de dois meses tinha reflexo positivo nos três anos anteriores e nos quatro anos posteriores ao seu acontecimento. Qual foi o problema no Brasil que parece haver mais ônus que bônus? Qual a atitude brasileira, como nação, criou tantos problemas em relação ao evento? De quem é o interesse um evento tão importante e que gera tanto dinheiro ser visto como uma coisa já falida?

O legado Copa-Cenário pode ser pior que os bilhões gastos com estádios e infraestruturas mal acabadas. Pode revelar aquilo que todos sabemos, mas que insistimos em empurrar para o outro: nossa responsabilidade. Não soubemos exigir acerto de contas em relação aos gastos públicos, pois mal sabemos aquilo que é feito. Não exigimos escolas e hospitais, por mais que tenhamos aprendido a reclamar da falta de estrutura no país. Cochilamos quando de nós é cobrado desempenho. Decidimos pelo feriado quando para alguns é hora do trabalho.

A verdade é que a Copa do Mundo no Brasil não serviu nem serviria para corrigir todos os nossos erros políticos, econômicos e sociais. É um evento que fomenta um setor da economia (ou pelo menos deveria ser assim), trazendo empregos e melhorias para um determinado grupo de pessoas: Donos de hotéis, restaurantes, produtos esportivos e uma outra infinidade de produtos relacionados com o evento. Determinar agora que a Copa do Mundo não pode acontecer é um grande erro.

As críticas válidas em relação a Copa-Cenário, em relação aos atos de superfaturamento, falta de investimento em questões de seguridade social, são essenciais para a construção de um país mais digno, mas não devem ser apenas feitas de forma pontual, mas devem ir além do evento esportivo, mas uma conduta do cidadão e do eleitor. A crítica de suposto dinheiro desviado deve ser feita pela sociedade naquela ponte construída, no recapeamento das ruas; na construção da escola assim como estamos fazendo em relação aos estádios.

A Copa do Mundo não merece a crucificação por um crime que não cometeu.









[1] https://br.esporteinterativo.yahoo.com/noticias/custo-da-copa-equivale-a-apenas-9--do-investimento-anual-em-educa%C3%A7%C3%A3o-175028048.html

Um comentário:

Mario disse...

Esta separação que fez do joio e do trigo distinguindo duas situações ou duas "Copas" é perfeita; ela apenas reverbera nossos vícios seculares. E o futebol dentro de campo, acabou ficando na ponta deste iceberg.