A Copa do Mundo chegou e com ela várias contradições. O futebol dentro do campo e a estrutura do país fora dele: relações distantes mas que ficaram muito próximas. Afinal de contas a Copa do Mundo é responsável por todos os nossos problemas?
Está chegando o grande momento para o
futebol mundial. Depois de uma longa espera de sessenta e quatro anos,
sediaremos mais uma vez uma Copa do Mundo. No entanto, nem tudo parece festa. Muitas
críticas e poucos elogios até agora. Copa do Mundo passou a ser o elemento mais
importante do país, avaliado num contexto intrigante de questões econômicas,
políticas e sociais. Será a Copa capaz de mudar nossa visão do nosso próprio
país? Será item primordial para uma análise mais profunda sobre a organização
do esporte no Brasil? Será a Copa esse grande monstro pintado aos quatro
ventos?
Uma coisa para mim parece evidente:
estamos falando de dois eventos contraditórios. O primeiro é aquele que
acontece dentro do campo e o segundo que está fora dele: A Copa-Futebol e a
Copa-Cenário. O “Futebol” é tudo que envolve o próprio espetáculo: as seleções,
a organização da competição; a televisão e toda mídia. O “Cenário”: não há
qualquer relação com o esporte, mas foi identificado como um nó na garganta, um
desmando dos políticos; um gasto desnecessário para um país tão necessitado. Ou
seja: a gota d´água.
O evento dentro de campo conta com as
melhores seleções do mundo. Portanto, para quem gosta de futebol; já é uma
goleada. Se olharmos para a história veremos que em poucas oportunidades
teremos condições de receber um número tão grande de jogadores de alto nível.
São craques de bola na concepção mais simples e exigível para os tempos atuais:
Messi, Cristiano Ronaldo, Schweinsteiger, Xavi, Iniesta entre outros. Não há,
portanto, qualquer dúvida que a Copa-Futebol é um evento extraordinário e
imperdível.
Por outro lado, a Copa-Cenário tem uma
exigência que ultrapassa os limites compreensíveis ao seu próprio negócio. A
Copa do Mundo fez emergir problemas seculares do nosso país, dos quais, nem a
Copa; nem o período de preparação poderiam dar conta. São questões importantes
que foram jogados para debaixo do tapete não apenas pelo governo atual, mas por
quase todos que passaram por ele. Então, a Copa-Cenário nos fez rever feridas das
quais a Copa não foi causadora; nem ela poderia ser a resolução. Mais educação,
mais moradia e mais hospitais não podem passar pela análise da organização de
um evento esportivo; mas por um exame mais sério sobre nossa condição e
responsabilidade como cidadãos.
Portanto, a Copa do Mundo não trouxe
os problemas, mas nos fez, de alguma forma, percebê-los.
Uma das críticas mais pontuais em
relação a Copa do Mundo são os gastos desnecessários para um país com tantos
problemas. Segundo a reportagem do Yahoo![1]
estima-se que a Copa do Mundo teve investimento público em torno de 26 bilhões
de reais. Para se ter uma ideia, esse valor equivale a 10% dos investimentos
anuais em educação. Seria tamanho desperdício de investimento algo que pode
fomentar diversos setores da economia do país? Um outro dado curioso é que
parte desse investimento, feito pelo BNDES, tem que ser devolvido, pago; como
acontece com inúmeras operações realizadas pelo banco. O caso mais evidente
está diante de nós: A Arena Corinthians não saiu de graça.
As críticas em relação a Copa-Cenário
foram ganhando uma importância muito maior que a Copa-Futebol. E, como
consequência, acabamos acreditando que determinados negócios tão obscuros foram
inaugurados no Brasil dos últimos anos. A Copa-Cenário foi jogada no ventilador
de uma inquisição tão legítima quanto arbitrária, e que mantém aceso uma
revolução feita de maneira equivocada por motivos ainda mais escusos: afinal o
que há de tão nebuloso nas negociações para construção e reforma dos estádios? Sim.
Parece que não fomos devidamente informados em relação aos gastos e que, de uma
maneira indecente, muitos ganharam dinheiro com a Copa do Mundo.
Mas onde nós estávamos quando milhões
foram roubados dos nossos bolsos quando ainda não havia Copa? Onde estávamos
quando não havia investimento para educação, saúde e moradia? Onde estávamos
quando políticos agiam como bem entendessem criando para si mais direitos que
deveres? A Copa-Cenário foi o estopim de uma bomba ainda muito maior que
imaginamos.
Ouvi algumas entrevistas de diversos
especialistas informando que a Copa do Mundo sempre foi um evento que alavancou
a economia dos países que se propuseram a sediar o evento. Investimentos,
melhorias e empregos. Fomentando o turismo, a indústria local e
consequentemente os empregos. O evento de pouco mais de dois meses tinha
reflexo positivo nos três anos anteriores e nos quatro anos posteriores ao seu
acontecimento. Qual foi o problema no Brasil que parece haver mais ônus que bônus?
Qual a atitude brasileira, como nação, criou tantos problemas em relação ao
evento? De quem é o interesse um evento tão importante e que gera tanto
dinheiro ser visto como uma coisa já falida?
O legado Copa-Cenário pode ser pior
que os bilhões gastos com estádios e infraestruturas mal acabadas. Pode revelar
aquilo que todos sabemos, mas que insistimos em empurrar para o outro: nossa
responsabilidade. Não soubemos exigir acerto de contas em relação aos gastos
públicos, pois mal sabemos aquilo que é feito. Não exigimos escolas e
hospitais, por mais que tenhamos aprendido a reclamar da falta de estrutura no
país. Cochilamos quando de nós é cobrado desempenho. Decidimos pelo feriado
quando para alguns é hora do trabalho.
A verdade é que a Copa do Mundo no
Brasil não serviu nem serviria para corrigir todos os nossos erros políticos,
econômicos e sociais. É um evento que fomenta um setor da economia (ou pelo
menos deveria ser assim), trazendo empregos e melhorias para um determinado
grupo de pessoas: Donos de hotéis, restaurantes, produtos esportivos e uma
outra infinidade de produtos relacionados com o evento. Determinar agora que a
Copa do Mundo não pode acontecer é um grande erro.
As críticas válidas em relação a Copa-Cenário,
em relação aos atos de superfaturamento, falta de investimento em questões de
seguridade social, são essenciais para a construção de um país mais digno, mas
não devem ser apenas feitas de forma pontual, mas devem ir além do evento
esportivo, mas uma conduta do cidadão e do eleitor. A crítica de suposto
dinheiro desviado deve ser feita pela sociedade naquela ponte construída, no
recapeamento das ruas; na construção da escola assim como estamos fazendo em
relação aos estádios.
A Copa do Mundo não merece a
crucificação por um crime que não cometeu.
[1] https://br.esporteinterativo.yahoo.com/noticias/custo-da-copa-equivale-a-apenas-9--do-investimento-anual-em-educa%C3%A7%C3%A3o-175028048.html
Um comentário:
Esta separação que fez do joio e do trigo distinguindo duas situações ou duas "Copas" é perfeita; ela apenas reverbera nossos vícios seculares. E o futebol dentro de campo, acabou ficando na ponta deste iceberg.
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