segunda-feira, 31 de março de 2014

Meu ufanismo do santo domingo


Quem me conhece sabe que tenho uma certa rejeição pelo futebol estrangeiro. Repúdio é uma palavra forte, eu sei. A verdade é que nunca me interessei pelo futebol praticado fora do país. Isso até ontem. Pois aconteceu alguma coisa em mim, uma mudança desenfreada e inevitável. Se antes eu defendia com unhas e dentes o futebol nacional, de repente, perdi todos os argumentos. Então, no final de semana em que aconteceu o clássico entre Palmeiras e Santos deixei o ufanismo nacional de lado e mudei de canal. Motivado pela eliminação prematura do meu time na competição regional, eufórico decidi pelas chamas do campeonato espanhol: Barcelona e Real Madrid estavam em campo.
Admito que fiquei surpreso com tudo aquilo que assisti. As diferenças dentro e fora do campo são gritantes. Nada que ninguém já não sabia ou suspeitava. A organização espanhola trata o jogo de futebol como um grande evento e isso é feito de maneira natural e esplendorosa. Desde a entrada dos jogadores em campo, das entrevistas antes do jogo; todo o resumo antes da partida. O Brasil considerado o país do futebol, deve ter a absoluta ideia que o esporte se sustenta sem qualquer força da mídia, da promoção de um espetáculo. Transformamos um evento num simples jogo de futebol, muitas vezes não valendo absolutamente nada. O futebol fica “varzeano”, raquítico e chato. Quando eu poderia imaginar que um Palmeiras e Santos ficaria em segundo plano? Duas grandes equipes do mundo virando coadjuvante do futebol mundial, essa é a realidade assustadora.
Podemos ir um pouco além e discutir quantos ídolos nós temos hoje. Atualmente todos são nomes complicados. Tirando o Cristiano Ronaldo, tão abrasileirado em seu português de origem, de resto somente marcas de línguas estranhas. Ouve-se um Ibrahimovic com tanta facilidade de um Cafú. Nomes argentinos, alemães, gregos e troianos. Nunca na história desse país se admirou tantos nomes complicados e distantes de nossa realidade. Mas é coisa do passado os estrangeiros estarem tão longe. Hoje são apresentados em camisetas dentro do metro, no uniforme sujo na pelada de final de semana e nos produtos piratas. Perdemos nosso futebol, nossos jogadores e estamos prestes a perder nossos clubes.
Pois os torcedores modernos, no Brasil, devem ter um clube estrangeiro de coração. Houve uma época, lá nos anos 80, que o Campeonato Italiano era nosso modelo de futebol. Até arriscávamos torcer por uma Juventus, ou Milan, ou qualquer outra equipe abarrotada de brasileiros. Mas era uma torcida sutil, discreta. Hoje as grandes equipes espanholas e alemãs arrancam suspiros. O coração de uma gente mais jovem começa a ficar dividida. Exagero meu, talvez. Mas totalmente plausível esse futuro para o futebol brasileiro: campeonatos ficarão num segundo plano.
Ainda é cedo para pensar numa coisa dessas. Afinal de contas o futebol brasileiro ainda é o mais importante do mundo. Carregando inúmeros títulos tanto pela seleção nacional, como clubes. Mas talvez estejamos numa situação muito diferente daquelas vividas há poucas décadas. O futebol jogado fora do pais é inúmeras vezes superior tecnicamente e taticamente. Podem levantar a teoria econômica para explicar o feito, mas mesmo assim acredito na explicação administrativa, que envolve metas e planejamento.
O futebol brasileiro é ilógico. Tanto na formação dos jogadores quanto na formulação do seu calendário. Jogadores seguem moldes europeus contradizendo e muito as características brasileiras. É por isso que estamos nos transformando em exportadores de volantes, zagueiros e laterais. Além disso, o nosso calendário só é sincronizado com datas festivas como Natal e o Carnaval. Seria um calendário viável, se não pela nossa necessidade de intercâmbio com os grandes clubes europeus. Não discutir o calendário nacional é continuar as especulações de todos os anos, de venda e compra de jogadores no meio de uma temporada. Vendas que fortalecem ainda mais o espetáculo dos campeonatos estrangeiros; compras que servem para sobrevida dos moribundos campeonatos nacionais e regionais.
E o jogo do Real e Barcelona? Bom, foi a primeira vez esse ano que não senti que estava perdendo o meu tempo diante de um jogo de futebol.






Nenhum comentário: