Quem me
conhece sabe que tenho uma certa rejeição pelo futebol estrangeiro. Repúdio é
uma palavra forte, eu sei. A verdade é que nunca me interessei pelo futebol
praticado fora do país. Isso até ontem. Pois aconteceu alguma coisa em mim, uma
mudança desenfreada e inevitável. Se antes eu defendia com unhas e dentes o
futebol nacional, de repente, perdi todos os argumentos. Então, no final de
semana em que aconteceu o clássico entre Palmeiras e Santos deixei o ufanismo
nacional de lado e mudei de canal. Motivado pela eliminação prematura do meu
time na competição regional, eufórico decidi pelas chamas do campeonato
espanhol: Barcelona e Real Madrid estavam em campo.
Admito
que fiquei surpreso com tudo aquilo que assisti. As diferenças dentro e fora do
campo são gritantes. Nada que ninguém já não sabia ou suspeitava. A organização
espanhola trata o jogo de futebol como um grande evento e isso é feito de
maneira natural e esplendorosa. Desde a entrada dos jogadores em campo, das
entrevistas antes do jogo; todo o resumo antes da partida. O Brasil considerado
o país do futebol, deve ter a absoluta ideia que o esporte se sustenta sem
qualquer força da mídia, da promoção de um espetáculo. Transformamos um evento
num simples jogo de futebol, muitas vezes não valendo absolutamente nada. O
futebol fica “varzeano”, raquítico e chato. Quando eu poderia imaginar que um
Palmeiras e Santos ficaria em segundo plano? Duas grandes equipes do mundo
virando coadjuvante do futebol mundial, essa é a realidade assustadora.
Podemos
ir um pouco além e discutir quantos ídolos nós temos hoje. Atualmente todos são
nomes complicados. Tirando o Cristiano Ronaldo, tão abrasileirado em seu
português de origem, de resto somente marcas de línguas estranhas. Ouve-se um Ibrahimovic
com tanta facilidade de um Cafú. Nomes argentinos, alemães, gregos e troianos.
Nunca na história desse país se admirou tantos nomes complicados e distantes de
nossa realidade. Mas é coisa do passado os estrangeiros estarem tão longe. Hoje
são apresentados em camisetas dentro do metro, no uniforme sujo na pelada de
final de semana e nos produtos piratas. Perdemos nosso futebol, nossos
jogadores e estamos prestes a perder nossos clubes.
Pois os
torcedores modernos, no Brasil, devem ter um clube estrangeiro de coração.
Houve uma época, lá nos anos 80, que o Campeonato Italiano era nosso modelo de
futebol. Até arriscávamos torcer por uma Juventus, ou Milan, ou qualquer outra
equipe abarrotada de brasileiros. Mas era uma torcida sutil, discreta. Hoje as
grandes equipes espanholas e alemãs arrancam suspiros. O coração de uma gente
mais jovem começa a ficar dividida. Exagero meu, talvez. Mas totalmente
plausível esse futuro para o futebol brasileiro: campeonatos ficarão num
segundo plano.
Ainda é
cedo para pensar numa coisa dessas. Afinal de contas o futebol brasileiro ainda
é o mais importante do mundo. Carregando inúmeros títulos tanto pela seleção
nacional, como clubes. Mas talvez estejamos numa situação muito diferente
daquelas vividas há poucas décadas. O futebol jogado fora do pais é inúmeras
vezes superior tecnicamente e taticamente. Podem levantar a teoria econômica
para explicar o feito, mas mesmo assim acredito na explicação administrativa,
que envolve metas e planejamento.
O
futebol brasileiro é ilógico. Tanto na formação dos jogadores quanto na
formulação do seu calendário. Jogadores seguem moldes europeus contradizendo e
muito as características brasileiras. É por isso que estamos nos transformando
em exportadores de volantes, zagueiros e laterais. Além disso, o nosso
calendário só é sincronizado com datas festivas como Natal e o Carnaval. Seria
um calendário viável, se não pela nossa necessidade de intercâmbio com os
grandes clubes europeus. Não discutir o calendário nacional é continuar as
especulações de todos os anos, de venda e compra de jogadores no meio de uma
temporada. Vendas que fortalecem ainda mais o espetáculo dos campeonatos
estrangeiros; compras que servem para sobrevida dos moribundos campeonatos
nacionais e regionais.
E o
jogo do Real e Barcelona? Bom, foi a primeira vez esse ano que não senti que
estava perdendo o meu tempo diante de um jogo de futebol.

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