Texto escrito para o site Informação Virtual - Resolvi publicá-lo no Patativa da Bola como um desabafo, contradizendo um pouco o teor esportivo do espaço. Quero, de antemão, pedir desculpas aos colaboradores, por introduzir um assunto tão destoante daquilo que geralmente acompanhamos por aqui.
O Brasil não quer a Copa do mundo. Vimos como clareza essa manifestação nos quatro cantos do país; num movimento em massa, uma verdadeira invasão nos espaços públicos, de pessoas portando faixas de reprovação e descontentamento: Não queremos a Copa do Mundo no nosso país! Antes mesmo da entidade máxima de futebol, a FIFA, tirar o papel com o nome do Brasil, diante das autoridades democráticas brasileiras, o povo já sabia que a Copa não se fazia com hospitais. Mas, infelizmente, naquele momento nos comemoramos.
Era notório
nossa queixa, e por elas, os organizadores resolveram cortar gastos. A primeira
ação foi tirar projetos inviáveis, enxugar o desperdício. Não construir estádios
de futebol onde quase não se pratica esse esporte. Depois resolveram excluir
decisões políticas na escolha das sedes dos jogos. Em terceiro, talvez o
importante: projetos sóbrios, viáveis e sem dinheiro público. Tudo isso com um
elaborado plano de melhorias da infraestrutura da redondeza onde os estádios
seriam construídos.
E mais uma
vez o povo não foi ouvido.
Estavam todos
reunidos, pintando as ruas de verde e amarelo. Pisamos em nossas cores, sempre.
Jogamos contra nossa história. Manchamos a nossa identidade. A nossa revolução
sofre de uma intriga manifestação letárgica. Fomos para a rua apenas discutir o
leite derramado - Quer dizer, alguns poucos brasileiros se sentiram incomodados
- Outros esperam apenas o circo pegar fogo. Torcem para que as coisas não
funcionem, desejam o pior, profetizam a catástrofe. Tudo nos leva a pensar que
as coisas não funcionarão na Copa, pois também não funcionam sem ela. A Copa do
Mundo não se faz com hospitais, mas um país se faz com uma porção de coisas que
não temos e que nunca reivindicamos.
Esses
profetas escatológicos são as pessoas comuns da sociedade. Pegam trem todos os
dias, estão nos ônibus, usam todos os serviços públicos. Já foram assaltadas,
sequestradas, sofreram algum tipo de violência. Sou eu, você nas filas. Aqueles
que fazem conta todo final do mês esperando ter algum trocado. Quem viu ou
precisou usar o serviço público de saúde. São pessoas que perderam todas as
esperanças em seu país, aqueles que repetem aos quatro cantos: já pensou na Copa?
Já pensei na Copa, meus caros, e nada vai ser pior nem melhor, pois continuamos
brigando com as pessoas erradas e de maneira errada.
Não queremos
a Copa do Mundo, não queremos os gastos de um evento tão privado e elitista. Não
queremos melhores estádios onde não saberemos quando iremos usufruir. Não queremos
políticos e empresários ganhando dinheiro que é nosso, dos nossos impostos; as
contas que não batem e que são ajustas em planilhas como se ninguém realmente
estivesse preocupado em dar qualquer satisfação. Mas reclamamos tarde demais,
quem ganhou, e se ganhou dinheiro de forma ilegal, já está rindo à toa. Já está
olhando para a Copa do Mundo como um evento do qual ele não faz parte. Sobrou
para todo mundo a conta e a vergonha. Imagina na Copa?
O sentido vira-lata
usa um país em iguais condições para mostrar nossa derrota: A África do Sul. País
que tem tantos ou mais problemas que o nossos, país financeiramente inferior, no
entanto saiu vitoriosa em muitos aspectos. Afinal, porque o Brasil não
consegue? O quê em nosso povo é tão desprezível e indiferente que não sabemos
como nos comportar nem mesmo quando estamos sendo prejudicados? Nossa educação?
Nosso sentido coletivo? Nossa maneira de tirar o corpo fora de qualquer crítica
que, em muitas ocasiões, também somos responsáveis?
Infelizmente
o fracasso da Copa do Mundo, se realmente acontecer, tem lá sua coautoria. E não
pensem que os políticos agem sozinhos, eles tem a nossa concordância. Os gastos
absurdos, a falta de planejamento; a infraestrutura capenga. Tudo tem uma
explicação. Os aeroportos sucateados, os meios de transportes ineficientes, a
desvalorização do ser humano, estrangeiro ou não, tudo isso é um pouco do
Brasil, ai ai. Somos nós, junto aos
nossos eleitos, responsáveis por todo e qualquer fracasso. E depois da Copa do
Mundo, ainda assim continuaremos sem hospitais, pois pouco sabemos cobrar,
criticar e melhorar. Continuaremos apontando o dedo na nossa ferida, como se o
outro ficasse ofendido.
O Brasil não
quer a Copa do Mundo, mas irá comemorar seus dias, com cerveja e churrasco; como sempre faz em seus dias de glória e alegria. A cidadania continuará em segundo plano, ou em caso de derrota da Seleção Brasileira.
2 comentários:
Bom, agora a Inês é morta. Torcer contra ou a favor da Seleção dará na mesma, já que as obras de infraestrutura não vieram (algumas virão bem depois da Copa), e com estádios inacabados. E acho que a Africa do Sul ainda está ganhando de goleada do Brasil, levando-se em consideração que o futebol lá nem é o primeiro esporte.
Alguma surpresa nos gastos e superfaturamentos, na quantidade de zeros dos orçamentos. Nada de novo. ? O que esperar de um evento organizado por cartolas e políticos tradicionais? Já era o esperado.
Agora, o protesto é livre. Quem quiser e pra rua, fique a vontade.
Postar um comentário