segunda-feira, 17 de março de 2014

Contagem Regressiva para a Copa do Mundo: Passividade letárgica.

Texto escrito para o site Informação Virtual - Resolvi publicá-lo no Patativa da Bola como um desabafo, contradizendo um pouco o teor esportivo do espaço. Quero, de antemão, pedir desculpas aos colaboradores, por introduzir um assunto tão destoante daquilo que geralmente acompanhamos por aqui. 


O Brasil não quer a Copa do mundo. Vimos como clareza essa manifestação nos quatro cantos do país; num movimento em massa, uma verdadeira invasão nos espaços públicos, de pessoas portando faixas de reprovação e descontentamento: Não queremos a Copa do Mundo no nosso país! Antes mesmo da entidade máxima de futebol, a FIFA, tirar o papel com o nome do Brasil, diante das autoridades democráticas brasileiras, o povo já sabia que a Copa não se fazia com hospitais. Mas, infelizmente, naquele momento nos comemoramos.

Era notório nossa queixa, e por elas, os organizadores resolveram cortar gastos. A primeira ação foi tirar projetos inviáveis, enxugar o desperdício. Não construir estádios de futebol onde quase não se pratica esse esporte. Depois resolveram excluir decisões políticas na escolha das sedes dos jogos. Em terceiro, talvez o importante: projetos sóbrios, viáveis e sem dinheiro público. Tudo isso com um elaborado plano de melhorias da infraestrutura da redondeza onde os estádios seriam construídos.

E mais uma vez o povo não foi ouvido.

Estavam todos reunidos, pintando as ruas de verde e amarelo. Pisamos em nossas cores, sempre. Jogamos contra nossa história. Manchamos a nossa identidade. A nossa revolução sofre de uma intriga manifestação letárgica. Fomos para a rua apenas discutir o leite derramado - Quer dizer, alguns poucos brasileiros se sentiram incomodados - Outros esperam apenas o circo pegar fogo. Torcem para que as coisas não funcionem, desejam o pior, profetizam a catástrofe. Tudo nos leva a pensar que as coisas não funcionarão na Copa, pois também não funcionam sem ela. A Copa do Mundo não se faz com hospitais, mas um país se faz com uma porção de coisas que não temos e que nunca reivindicamos.

Esses profetas escatológicos são as pessoas comuns da sociedade. Pegam trem todos os dias, estão nos ônibus, usam todos os serviços públicos. Já foram assaltadas, sequestradas, sofreram algum tipo de violência. Sou eu, você nas filas. Aqueles que fazem conta todo final do mês esperando ter algum trocado. Quem viu ou precisou usar o serviço público de saúde. São pessoas que perderam todas as esperanças em seu país, aqueles que repetem aos quatro cantos: já pensou na Copa? Já pensei na Copa, meus caros, e nada vai ser pior nem melhor, pois continuamos brigando com as pessoas erradas e de maneira errada.

Não queremos a Copa do Mundo, não queremos os gastos de um evento tão privado e elitista. Não queremos melhores estádios onde não saberemos quando iremos usufruir. Não queremos políticos e empresários ganhando dinheiro que é nosso, dos nossos impostos; as contas que não batem e que são ajustas em planilhas como se ninguém realmente estivesse preocupado em dar qualquer satisfação. Mas reclamamos tarde demais, quem ganhou, e se ganhou dinheiro de forma ilegal, já está rindo à toa. Já está olhando para a Copa do Mundo como um evento do qual ele não faz parte. Sobrou para todo mundo a conta e a vergonha. Imagina na Copa?

O sentido vira-lata usa um país em iguais condições para mostrar nossa derrota: A África do Sul. País que tem tantos ou mais problemas que o nossos, país financeiramente inferior, no entanto saiu vitoriosa em muitos aspectos. Afinal, porque o Brasil não consegue? O quê em nosso povo é tão desprezível e indiferente que não sabemos como nos comportar nem mesmo quando estamos sendo prejudicados? Nossa educação? Nosso sentido coletivo? Nossa maneira de tirar o corpo fora de qualquer crítica que, em muitas ocasiões, também somos responsáveis?

Infelizmente o fracasso da Copa do Mundo, se realmente acontecer, tem lá sua coautoria. E não pensem que os políticos agem sozinhos, eles tem a nossa concordância. Os gastos absurdos, a falta de planejamento; a infraestrutura capenga. Tudo tem uma explicação. Os aeroportos sucateados, os meios de transportes ineficientes, a desvalorização do ser humano, estrangeiro ou não, tudo isso é um pouco do Brasil, ai ai.  Somos nós, junto aos nossos eleitos, responsáveis por todo e qualquer fracasso. E depois da Copa do Mundo, ainda assim continuaremos sem hospitais, pois pouco sabemos cobrar, criticar e melhorar. Continuaremos apontando o dedo na nossa ferida, como se o outro ficasse ofendido.


O Brasil não quer a Copa do Mundo, mas irá comemorar seus dias, com cerveja e churrasco; como sempre faz em seus dias de glória e alegria. A cidadania continuará em segundo plano, ou em caso de derrota da Seleção Brasileira.







2 comentários:

Mario disse...

Bom, agora a Inês é morta. Torcer contra ou a favor da Seleção dará na mesma, já que as obras de infraestrutura não vieram (algumas virão bem depois da Copa), e com estádios inacabados. E acho que a Africa do Sul ainda está ganhando de goleada do Brasil, levando-se em consideração que o futebol lá nem é o primeiro esporte.

Cesar Augusto disse...

Alguma surpresa nos gastos e superfaturamentos, na quantidade de zeros dos orçamentos. Nada de novo. ? O que esperar de um evento organizado por cartolas e políticos tradicionais? Já era o esperado.
Agora, o protesto é livre. Quem quiser e pra rua, fique a vontade.