segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Com um atraso de quase vinte anos, as “Balas de Cobre” de Zâmbia conquistaram a África.


Uma noite inesquecível para um pequeno país do sul da África. Uma noite emocionante para quem ainda vibra com os casos e acasos do futebol. A seleção de Zâmbia, apelidada carinhosamente de Balas de Cobre, ganhou na noite de ontem o título da Copa Africana de Nações. Nessa hora o leitor deve estar coçando a cabeça, desacreditando que eu quero postar sobre um campeonato africano um dia após a derrota de meu time no Majestoso. Pode até ser verdade. Pode ser que eu esteja fugindo da derrota de meu time no clássico. Entretanto, para entender um pouco da importância do título da seleção de Zâmbia é preciso voltar no tempo, mais precisamente no ano de 1988.

Nos Jogos Olímpicos de Seul, na Coréia do Sul, entre a cassação da medalha do Ben Johnson e as suspeitas de doping nas pistas, piscinas e campos daquela olimpíada uma equipe de futebol ganhava destaque conquistando resultados surpreendentes; a seleção da Zâmbia. Um time diferente daqueles que estávamos acostumados a ver. Um time que jogava solto, tocava a bola com desenvoltura, combatia a correria do adversário com o controle de bola, os passes precisos. Bastaram alguns jogos para aquele time ganhar a simpatia da torcida na Coréia e a minha também, mesmo com um fuso de doze horas. Adorava acompanhar aquele time fantástico comandado pelo ainda jovem Kalusha Bwalya. O time não ganhou a medalha olímpica, acabou perdendo para o chatíssimo time da Alemanha Ocidental nas quartas de final. Uma pena, mas, a história daqueles jovens parecia que não acabaria ali.

As expectativas eram altas para as Eliminatórias da Copa de 1990, mas, jogando contra os experientes gigantes do Magreb (Tunísia e Marrocos), os Balas de Cobre não tiveram muita chance e adiaram o sonho de disputar um Mundial. Em compensação faturaram um honroso terceiro lugar na Copa Africana de 1990 e, em 1992 chegaram às quartas de final do mesmo torneio. Já figuravam entre as grandes equipes do recém-descoberto futebol africano. Os seus jogadores já ganhavam espaços dos times europeus. A seleção de Zâmbia, com seu futebol envolvente parecia que estava fadada ao sucesso.

Tudo muda no início do ano de 1993, quando durante uma viagem ao Senegal para enfrentar a seleção local pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1994, o avião da equipe sofreu um grave acidente no Gabão, que não deixou sobreviventes. Todo o time desapereceu, e com ele as esperanças dos torcedores e amantes do futebol. Como sempre acontece nesse tipo de tragédia, apenas um jogador ficou pra trás e não embarcou no voô. Justamente o craque do time; Kalusha Bwalya que não foi liberado pelo seu clube na Europa.

Caberia ao Kalusha, único sobrevivente da tragédia reerguer o futebol de seu país. Estava tudo nas costas do atacante e ele não fugiu à luta. Após ter vivido a glória de 1988 poderia ter recusado algumas convocações para jogar em times tão inexperientes e ruins, como foram os daqueles anos que se sucederam ao desastre, mas não. Jogou até os 41 anos pela seleção de seu país. Esteve junto do time na mais humilhantes derrotas. Conciliou a posição de jogador com a de técnico, sem nunca ter vencido uma Copa Africana ou ter classificado Zâmbia para uma Copa do Mundo.

Abandonou os gramados, mas não o futebol de seu país. Assumiu a presidência da federação local e ontem estava nas tribunas para assistir à final de mais uma Copa Africana. Só que desta vez a sua seleção estava em campo contra o poderoso time da Costa do Marfim, com todos os seus jogadores em grandes clubes europeus. A grande maioria dos zambianos joga no continente africano, em clubes que sequer ouvimos falar. Em campo já não estavam Chabala, Kalusha e Johnson Bwalya, mas Mayuka, Katongo e Kalaba, os novos Balas de Cobre, mas com o velho atrevimento, o velho toque de bola.

A vitória foi nos penaltis, dramática, de fazer qualquer um que tenha sangue nas veias arrepiar-se, roer as unhas, tampar os olhos. A minha torcida, na tarde de ontem, era toda pra Zâmbia. E eles ganharam. Ver o “velho” Kalusha, emocionado, feliz da vida comemorando um título como esse vale muito mais que qualquer clássico Majestoso de início de temporada.
  

Um comentário:

Mario disse...

Uma história que daria um excelente documentário ou mesmo um filme. Valeu por este registro no Patativa!