Uma noite
inesquecível para um pequeno país do sul da África. Uma noite
emocionante para quem ainda vibra com os casos e acasos do
futebol. A seleção de Zâmbia, apelidada carinhosamente de Balas de
Cobre, ganhou na noite de ontem o título da Copa Africana de Nações.
Nessa hora o leitor deve estar coçando a cabeça, desacreditando que
eu quero postar sobre um campeonato africano um dia após a derrota
de meu time no Majestoso. Pode até ser verdade. Pode ser que eu
esteja fugindo da derrota de meu time no clássico. Entretanto, para
entender um pouco da importância do título da seleção de Zâmbia
é preciso voltar no tempo, mais precisamente no ano de 1988.
Nos Jogos
Olímpicos de Seul, na Coréia do Sul, entre a cassação da medalha
do Ben Johnson e as suspeitas de doping nas pistas, piscinas e campos
daquela olimpíada uma equipe de futebol ganhava destaque
conquistando resultados surpreendentes; a seleção da Zâmbia. Um
time diferente daqueles que estávamos acostumados a ver. Um time que
jogava solto, tocava a bola com desenvoltura, combatia a correria do
adversário com o controle de bola, os passes precisos. Bastaram
alguns jogos para aquele time ganhar a simpatia da torcida na Coréia
e a minha também, mesmo com um fuso de doze horas. Adorava
acompanhar aquele time fantástico comandado pelo ainda jovem Kalusha
Bwalya. O time não ganhou a medalha olímpica, acabou perdendo para
o chatíssimo time da Alemanha Ocidental nas quartas de final. Uma
pena, mas, a história daqueles jovens parecia que não acabaria ali.
As
expectativas eram altas para as Eliminatórias da Copa de 1990, mas,
jogando contra os experientes gigantes do Magreb (Tunísia e
Marrocos), os Balas de Cobre não tiveram muita chance e adiaram o
sonho de disputar um Mundial. Em compensação faturaram um honroso
terceiro lugar na Copa Africana de 1990 e, em 1992 chegaram às
quartas de final do mesmo torneio. Já figuravam entre as grandes
equipes do recém-descoberto futebol africano. Os seus jogadores já
ganhavam espaços dos times europeus. A seleção de Zâmbia, com seu
futebol envolvente parecia que estava fadada ao sucesso.
Tudo muda
no início do ano de 1993, quando durante uma viagem ao Senegal para
enfrentar a seleção local pelas eliminatórias da Copa do Mundo de
1994, o avião da equipe sofreu um grave acidente no Gabão, que não
deixou sobreviventes. Todo o time desapereceu, e com ele as
esperanças dos torcedores e amantes do futebol. Como sempre acontece
nesse tipo de tragédia, apenas um jogador ficou pra trás e não
embarcou no voô. Justamente o craque do time; Kalusha Bwalya que não
foi liberado pelo seu clube na Europa.
Caberia
ao Kalusha, único sobrevivente da tragédia reerguer o futebol de seu país.
Estava tudo nas costas do atacante e ele não fugiu à luta. Após
ter vivido a glória de 1988 poderia ter recusado algumas convocações
para jogar em times tão inexperientes e ruins, como foram os
daqueles anos que se sucederam ao desastre, mas não. Jogou até os
41 anos pela seleção de seu país. Esteve junto do time na mais
humilhantes derrotas. Conciliou a posição de jogador com a de
técnico, sem nunca ter vencido uma Copa Africana ou ter classificado
Zâmbia para uma Copa do Mundo.
Abandonou
os gramados, mas não o futebol de seu país. Assumiu a presidência
da federação local e ontem estava nas tribunas para assistir à
final de mais uma Copa Africana. Só que desta vez a sua seleção
estava em campo contra o poderoso time da Costa do Marfim, com todos
os seus jogadores em grandes clubes europeus. A grande maioria dos
zambianos joga no continente africano, em clubes que sequer ouvimos
falar. Em campo já não estavam Chabala, Kalusha e Johnson Bwalya,
mas Mayuka, Katongo e Kalaba, os novos Balas de Cobre, mas com o
velho atrevimento, o velho toque de bola.
A vitória
foi nos penaltis, dramática, de fazer qualquer um que tenha sangue
nas veias arrepiar-se, roer as unhas, tampar os olhos. A minha
torcida, na tarde de ontem, era toda pra Zâmbia. E eles ganharam.
Ver o “velho” Kalusha, emocionado, feliz da vida comemorando um título como
esse vale muito mais que qualquer clássico Majestoso de início de
temporada.
Um comentário:
Uma história que daria um excelente documentário ou mesmo um filme. Valeu por este registro no Patativa!
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