A Copinha acabou. Mas, ao invés de ressaltar o excesso de times participantes, as péssimas condições dos gramados do interior paulista, a quantidade de times sem qualquer expressão no futebol nacional, o título conquistado pelo São Paulo ou, ainda, as expectativas criadas em torno das pequenas estrelas do torneio, o aspecto mais interessante de toda essa história ainda é uma incógnita para mim. Por qual motivo a maioria dos garotos que se mostram tão talentosos nas categorias de base não consegue repetir o êxito na sua carreira profissional e por que um país capaz de organizar uma competição com quase 100 times de categorias juniores e juvenis precisa recorrer a jogadores acima de 35 anos para garantir qualidade aos seus elencos?
Desde o ano passado, sempre que possível, tenho utilizado o termo sub-40 para descrever o atual futebol brasileiro. O termo não é de minha autoria nem tampouco é novo, mas, é extremamente apropriado, pois, verifico que a base técnica dos grandes campeonatos realizados no Brasil é formada por jogadores com mais de 30 anos que não têm mais mercado no Velho Continente. Uma prova disso foi campeonato brasileiro do ano passado, no qual o rubro-negro sagrou-se campeão. O eleito melhor jogador do Brasileirão foi o sérvio veterano Petkovic. Independente da justiça ou não do prêmio o que vale é o cenário fático; os clubes estão a procura de jogadores acima de 35 anos para realizar um trabalho que os mais jovens não têm capacidade técnica, nem disposição para realizar. É a união da fome com a vontade de comer. De um lado temos jogadores que foram ídolos durante a sua carreira, mas, atualmente, pela natural obsolescência física e técnica, não conseguem mais trabalho nos grandes centros europeus e, de outro, temos os clubes que anseiam por títulos, mas, que não possuem qualidade técnica nos seus elencos, nem nas categorias de base para conquistá-los. Não tenho dúvidas que o Flamengo não seria campeão se não tivesse contratado o Petkovic. Da mesma forma, não tenho dúvidas de que uma conquista grandiosa do Corinthians nessa temporada passa pela saúde de jogadores como Ronaldo e Roberto Carlos e a redenção santista virá pelos pés do Giovani.
O São Paulo, por sua vez, gastou milhões de reais na construção e estruturação do seu Centro de Formação em Cotia, a fim de que todos os seus craques pudessem ser formados no clube, reduzindo os gastos com o pagamento de “direitos federativos” e também para negociar os jovens talentos com o mercado europeu por vultosas quantias. Depois de 04 anos, o que nós, torcedores do clube percebemos? Poucos jogadores da base vingaram ou foram titulares e apenas uma negociação importante com o mercado europeu; o zagueiro Breno. Por outro lado, o clube acumula ações na Justiça do Trabalho de jovens jogadores que sequer realizaram partidas como profissionais, mas, que pedem a rescisão de seus contratos com o clube. O plano tricolor fracassou? A resposta afirmativa parece óbvia, mas, os problemas enfrentados pelo São Paulo desnudam uma face cruel e grotesca da formação de base no nosso país.
O que é um jogador sub-15, sub-18 e afins? É um atleta ligado a um determinado empresário que, por sua vez, utiliza o clube como vitrine para exposição de sua “mercadoria”. Se a mercadoria não está na vitrine, é hora de mudar de loja. E é assim que funciona. Não podemos nos enganar e achar que algum desses garotos que jogou a Copinha tem algum comprometimento com o clube que defendeu. A mercadoria não tem comprometimento com a vitrine. O seu comprometimento é com o seu empresário, que o sustentou e à sua família nos momentos difíceis, que incentivou o seu sonho de jogador de futebol, que o apresentou aos clubes e que pagou o “jabá” para que ele pudesse treinar. Nada mais justo que esse bom samaritano tenha a prioridade no coração do jovem talento. E essa situação é conhecida dos grandes clubes, contudo, parece que eles deixaram o comando das categorias de base nas mãos de pessoas sem o menor preparo para o cargo e que permitiram passivamente que os empresários tomassem os clubes de assalto e pudessem, assim, rechear a vitrine com as suas melhores ou piores mercadorias (isso não faz grande diferença). Durante anos todos os clubes negligenciaram as categorias de base, sem exceção e, agora, pagam o preço pela omissão.
Voltando ao exemplo do São Paulo, lembro que os melhores times que o clube já montou, principalmente nas décadas de 80 e 90 eram formados por muitos jogadores da base. E olha que não existia essa estrutura toda de CT, Reffis e etc. Os caras moravam no estádio do Morumbi e treinavam no campo do Banespa. Os Menudos do Morumbi não tinham todo esse filé destinado aos garotos de hoje, mas, se apoiavam no sonho, na vontade de jogar num grande clube, fazer carreira e, quem sabe, vestir a amarelinha. Parece até conversa daqueles coroas do filme "Boleiros", do Ugo Giorgetti, mas, é verdade. Atualmente, os jogadores chegam nos grandes clubes trazidos pela mão de algum empresário, não precisam sequer fazer teste e já estão a disposição da comissão técnica. A partir daí o objetivo passa a ser ganhar mais dinheiro, comprar um celular (smartphone, né?) novo e um carrão para impressionar alguma mulher-fruta. E o futebol? Onde entra nessa história? Entra na vontade que esses garotos têm de ir para a Europa, ganhar muito dinheiro e serem consagrados os melhores do mundo, exatamente como o seu empresário garantiu que aconteceria. O grande clube, que gosta de se apresentar como “clube formador” é apenas o veículo para a realização desse objetivo; a vitrine.
E o jogador sub-40? Como fica nessa história? Bom, o jogador mais velho é aquele que viveu outros tempos do futebol brasileiro. É aquele jovem talento que saiu do clube muito cedo, sob os aplausos da torcida, teve bons e maus momentos no futebol europeu e pretende resgatar um pouco da alegria e da glória de jogar no futebol brasileiro, num grande clube, para grandes torcidas. Não é apenas ficar próximo de seus amigos e familiares. O sujeito volta para jogar porque sente falta de um sentimento único que é jogar no seu país, para uma grande platéia que fala o mesmo idioma, ama e compreende o seu futebol, volta para reviver o sentimento e a emoção de que foi privado precocemente para assumir compromissos profissionais na Europa. Ele volta porque tem vontade de jogar e os compromissos, contratos e empresários já não são prioridade na sua vida. Apesar da idade avançada eles possuem algo que está em falta no futebol brasileiro; qualidade técnica, talento e paixão pelo jogo.
O Brasil, para variar, está na contramão do futebol mundial. Enquanto as grandes potências do futebol europeu voltam as suas atenções para o novo, para as categorias de base, nós, ao contrário, voltamos a nossa atenção para o passado para, quem sabe; conseguirmos reconstruir o nosso futuro.
2 comentários:
Excelente relato histórico!! Gerações futuras, guardem esse texto como a explicação do fracasso do futebol brasileiro! Tudo muito bem claro e objetivo.
"Não podemos nos enganar e achar que algum desses garotos que jogou a Copinha tem algum comprometimento com o clube que defendeu". Pensei nisso segundos depois do final da copinha.... "mas esses caras jogam por São Paulo ou pelo São Paulo?"
Boa síntese do que anda acontecendo com o nosso futebol.Acredito que o fim da lei do passe também favoreceu para a proliferação das ervas daninhas do futebol que são os empresários, já que o atleta não é mais obrigado a ficar vinculado com o clube.
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