Não sou torcedor organizado. Pelo contrário, aprendi com o passar dos anos que é muito melhor ser um torcedor desorganizado. Não me submeto à liturgia das arquibancadas. O estádio de futebol, na minha opinião, ainda é um dos poucos lugares no qual posso exercitar o anarquismo utópico. Se quiser xingar o Fulano, xingo, se quiser aplaudir o Sicrano, aplaudo, sem cerimônias. Só para citar um exemplo, se eu fosse a um jogo do São Paulo, atualmente, correria o risco de ser agredido antes da bola começar a rolar, pois, com certeza gritaria e aplaudiria o Richarlyson quando o seu nome aparecesse no placar. O cara não é nenhum Falcão, mas, joga com disposição todos os jogos e honra a nossa camisa em todas as divididas. Pô, eu vou deixar de aplaudir o cara, porque o grupo organizado majoritário resolveu assumir o seu lado homofóbico? Freud explica, santa! Eu estou fora disso e, talvez, por essa razão os torcedores desorganizados estão perdendo espaço nas arquibancadas. A única experiência que tive com os organizados, foi nos idos de 1987 ou 1988 quando, foi convencido por um amigo de escola a freqüentar a arquibancada da Torcida Independente. É isso mesmo, já naquela época os grupos organizados lotearam as arquibancadas do estádio. Foi uma experiência surreal. O ônibus saia do centro da cidade e durante o caminho ninguém falava sobre o jogo, sobre a escalação, sobre o adversário. Nada disso. Foram quarenta minutos de xingatórios e ofensas aos times adversários. Até aí, tudo bem, vale pela festa. Mas, o pior ocorre dentro do estádio. Toda torcida possui em seus quadros um sujeito truculento, com algum apelido estranho e com pouco domínio do vernáculo, que não paga o ingresso e tem como única função organizar a espontaneidade da torcida. Assim, o jogo segue como uma missa. Hora de levantar, hora de sentar, hora de cantar, hora de pular. Lembro de um jogo no Pacaembu, contra o Corinthians, que um anárquico utópico, alheio à ditadura da arquibancada resolveu assistir o jogo, sentado, com o seu radinho de pilha. Eu lembro que o tal sargento da arquibancada, ao não ser atendido pelo gaiato, quando esse determinou que todos levantassem, levou um belo de um sopapo, ao pé da orelha, com a concordância de todos os presentes. Afinal de contas, é um absurdo o sujeito pagar o ingresso e querer permanecer sentado. Naquela época a coisa não era tão violento e as chances de chegar em casa vivo, ainda eram grandes, mas, mesmo assim, por algum motivo o ônibus sempre parava, na volta, num local propício para o encontro com a torcida adversária. Era proibido correr, então, eu fugia andando mesmo. Não via sentido algum brigar (apanhar) com sujeitos que sequer conhecia apenas para defender a honra da torcida. O tempo passou e a situação piorou. Hoje em dia, além das brigas aditivadas com armas de fogo e bombas, temos todo um arsenal de táticas de guerrilha que incluem até agressão a jogadores e emboscadas. Tempos modernos. Gostaria muito de saber aonde isso vai parar. Até lá continuo filiado à Torcida do Eu Sozinho - A Furiosa.
3 comentários:
Com certeza eu não sou esse seu amigo de 1987/1988, pois sabe muito bem qual minha relação com estádio de futebol e essas coisas....rsrsrs
As torcidas organizadas tem o apoio das diretorias, e cota reservada de ingressos o que é um absurdo. Se os estádios hoje são violentos, a culpa é em boa parte dos clubes, com alguns presidentes que até defendem as organizadas.
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